Tal como era esperado, os profissionais de saúde fazem parte da lista de grupos prioritários para a vacinação contra a gripe A (H1N1
), ontem divulgada pelo Ministério da Saúde
. Mas entre médicos e enfermeiros há quem receie que a emenda seja pior que o soneto, por entender que a vacina foi produzida em tempo recorde e os efeitos secundários, a longo prazo, não estão ainda devidamente estudados.
Um obstetra no Hospital de Santa Maria, que prefere manter o anonimato, afirma: "Sou pouco susceptível a síndromes gripais e, como se trata de uma vacina nova, prefiro esperar para ver". E acrescenta: "Julgo que poucos colegas de profissão quererão ser vacinados, pelos mesmos motivos". Mas a decisão pode não ser 'inócua'.
Embora a vacinação não seja obrigatória, os profissionais de saúde que fazem parte da lista de grupos prioritários vão ter de assinar um termo de responsabilidade caso rejeitem a vacina. É que podem ser um veículo privilegiado de transmissão da doença.
Muitos médicos, como Pedro Sereno, da Maternidade Alfredo da Costa, ainda não tomaram uma decisão. "Estou a ver se as coisas avançam mais, mas não estou preocupado, até porque me parece que esta questão da gripe A tem sido ampliada pela comunicação social", diz. O cirurgião vascular Pereira Gens refere, por seu lado, que vai "pesquisar mais" sobre o assunto antes de tomar uma decisão.
O receio de que a vacina pode não ser segura e a convicção de que o H1N1 é um vírus pouco agressivo são, aliás, as duas principais razões para as reservas. Segundo o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, Mário Jorge Santos, "não se trata propriamente de recusar a vacina mas de torcer o nariz. Há médicos que consideram que o alarmismo relativo à gripe A "é uma invenção, sendo esta igual à gripe sazonal, pelo que não haverá problemas, e há outros que consideram que a vacina não está bem estudada", diz. Aconselha, contudo, os profissionais a vacinarem-se, até porque a assinatura de um termo de responsabilidade pode ter implicações penais, em caso de propagação da doença. "Já vi tribunais acusarem médicos por situações menos evidentes", diz.
Mário Jorge Neves, presidente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM), salienta não ser possível determinar a percentagem de profissionais que recusarão a vacina, mas admite que as consequências da administração "não estão devidamente clarificadas" e que "a bibliografia internacional é contraditória".
Muitos médicos são, contudo, peremptórios ao afirmar que vão vacinar-se. O neurologista Alexandre Castro Caldas, por exemplo, diz ter "toda a confiança numa vacina aprovada pela EMEA (Agência Europeia do Medicamento)". O director do serviço de Obstetrícia e Ginecologia do Santa Maria, Luís Graça, garante que vai tomar a vacina, tal como já tomou a da gripe sazonal. Reconhece que alguns médicos optaram por não fazer o mesmo, mas não sabe quantos, já que "não se confessam ao director de serviço". Silva Graça, infecciologista do Hospital Militar Principal e do Instituto de Saúde Ricardo Jorge, assegura: "Tenciono cumprir porque contacto com doentes que podem beneficiar disso". E considera que "não existem motivos" para duvidar da segurança desta vacina, uma vez que "todos os ensaios clínicos realizados até agora não revelaram efeitos secundários diferentes dos de outras vacinas". Aliás, realça, "quanto mais tempo passa, mais estudos há e menor é a desconfiança dos profissionais".
No entanto, também entre os enfermeiros há quem recuse a imunização. "Tenho a indicação de que vários profissionais não se vão vacinar e têm essa liberdade, tendo em conta questões éticas ou que tenham que ver com o seus conhecimentos científicos, mas penso que a maioria irá fazê-lo", afirma José Carlos Martins, dirigente do Sindicato dos Enfermeiros.
Vacinação
Campanha arranca a 26
Os primeiros portugueses começarão a ser vacinados a 26 de Outubro contra o vírus da gripe A (H1N1), revelou ontem a ministra da Saúde, Ana Jorge. Numa primeira fase, serão imunizados alguns profissionais de saúde considerados imprescindíveis, algumas grávidas (com patologias graves associadas) no 2º e 3º trimestres de gravidez e outros profissionais tidos como essenciais para o funcionamento da sociedade.
Em função da disponibilidade da vacina, serão imunizadas as restantes grávidas no 2º e 3º trimestres, pessoas com doença crónica, doença cardíaca, respiratória, imunodeprimidos, obesos, diabéticos, etc.; os restantes profissionais de saúde; e outros profissionais prioritários. A vacinação realiza-se nos centros de saúde e conta com uma primeira remessa de 49 mil doses.
Gripe A
1530
foi o número de casos detectados em Portugal entre 21 e 27 de Setembro. Nas escolas foram identificados 42 na região de Lisboa e 11 no Centro, segundo dados disponibilizados
1
milhão de portugueses deverão ser vacinados até Janeiro
Texto publicado na edição do Expresso de 3 de Outubro de 2009.