Matérias-primas: vai sobrar para si?
Os produtores portugueses parecem andar mais desesperados do que os próprios consumidores. Planear a compra das matérias-primas tornou-se num verdadeiro quebra-cabeças desde que os investidores financeiros começaram a fazer mais-valias sobre aquilo que comemos.
Só no trigo, os fundos de investimento dominam 31% das transações na Bolsa de Futuros de Chicago, que é a referência mundial no preço dos cereais.
Desapareceu a previsibilidade da lei da oferta e da procura sobre a qual os fabricantes planeavam as suas compras. Pior: começam a surgir riscos de rutura nos stocks. Regressam os cenários de há dois anos, quando o Lidl chegou a racionar a venda de arroz a um máximo de dez quilos por cliente.
Quem está no terreno sabe quão perversa se tornou a especulação bolsista. Testemunha o produtor de arroz Nuno Marques, da Portalimpex: "Um bancário veio ter comigo em 2008 para propor-me que investisse num fundo de futuros de cereais. Respondi-lhe que não investia em cereais virtuais, mas sim nos que estão dentro dos silos".
Segundo este empresário, ex-sócio do Grupo Espírito Santo na Atlantic Meals, "é verdade que a subida dos preços no arroz se deveu em parte à crescente procura devido aos biocombustíveis e ao consumo nos BRIC [Brasil, Rússia, Índia e China]. Todavia estas não foram as reais causas da alta."
Cada tonelada de arroz chegou a custar mil dólares em 2008. Hoje está nos 500 dólares. Para proteger-se das oscilações especulativas, outro produtor de arroz, Ernesto Morgado, viu-se obrigado a reduzir os stocks da sua empresa.
"Dantes tinha o suficiente para três ou quatro meses, agora só tenho para um ou dois", diz este empresário, que é o presidente da federação europeia dos industriais de arroz (Federation of European Rice Millers) e investigador do Instituto Superior Técnico. A estratégia é arriscada, mas ainda assim Ernesto Morgado prefere não investir em grandes quantidades. "Limitamo-nos a ter muita cautela", resigna-se.
O consumidor final só saberá se pagará mais pelo arroz depois de Setembro, na altura das colheitas. Aí se verá quem precisará comprar ou vender e em que quantidades.
As atuais cheias na China apontam para subidas nos preços. Estimam-se quebras de 7% nas colheitas de arroz chinês. Se isso acontecer, a China terá de importar mais do que o habitual. Ficará disponível menos arroz para os outros países, logo, os preços subirão.
Já a Indonésia, que tradicionalmente foi o maior importador de arroz, está com excedentes que poderão baralhar as estimativas. De forma controversa, há dois anos, em plena crise alimentar mundial, quis rechear-se deste bem que na Ásia é associado a um certo poder político.
Segundo a imprensa internacional, empresários indonésios terão importado arroz acima das quotas permitidas e corrompido governantes para que as estatísticas oficiais não revelassem os excessos. O resultado, por acaso, será positivo no global. Se a Indonésia não tiver de importar arroz este ano, mesmo que a China importe grandes quantidades, o mercado não ficará tão desfalcado e os preços não subirão tanto.
Portugal está um pouco à margem destas movimentações. Enquanto a China e a Indonésia compram à Tailândia e Vietname, que são os maiores exportadores de arroz, Portugal compra no Suriname e na Guiana e aí os preços têm estado estáveis. Aguardam-se as decisões da Venezuela, que também ali se abastece e que, no ano passado, comprou tanto que fez os preços subirem ligeiramente.
Do total de arroz consumido em Portugal, 40% vem daqueles mercados sul-americanos. O restante é nacional, espanhol e grego. Entretanto, em Portugal, por mais acessíveis que estejam os valores, "nunca mais voltaram aos níveis de 2007, quando a tonelada custava 350 dólares", recorda Ernesto Morgado.
No café, a maior empresa nacional, Delta Cafés, defende-se das oscilações recorrendo à estratégia oposta de Ernesto Morgado. Reforça os stocks.
"Temos permanentemente 11 toneladas de café armazenadas em Campo Maior", explica Rui Miguel Nabeiro, administrador da Delta Cafés. Ou seja, o correspondente a metade das vendas anuais de café, que no ano passado atingiram as 22 toneladas.
As compras são feitas nos mercados de futuros, com vários meses de antecedência. As oscilações, ora são absorvidas nas margens, ora refletidas no custo cobrado ao cliente, que neste caso são os comerciantes.
"No ano passado, com a retração do consumo, apenas aumentámos em 1% o preço do café, em vez de 5%, como o mercado ditava. E ficou nas mãos dos retalhistas e empresários a decisão de aumentar mais os preços ou não", relata Rui Miguel Nabeiro.
No ano anterior a Delta já tinha subido os preços em 10%. Corria o ano 2008, em que os valores das matérias-primas estavam 50% acima dos níveis de referência. Agora, este ano, "preferimos aguardar mais uns meses e analisar o mercado", diz o gestor. "As condicionantes socioeconómicas dos mercados em que se opera são talvez até mais importantes para que se tome uma decisão de aumento de preços", diz.
Na maior fabricante nacional de chocolate, a Imperial, do grupo RAR, espera-se o pior. Nos últimos três anos, desde 2007, o preço do cacau disparou 150%. Está nas 2600 libras por tonelada, o mais alto dos últimos 33 anos.
Para piorar, "as matérias-primas lácteas e frutos secos, como a amêndoa, sofreram recentemente incrementos de 30% e 55%, respetivamente", diz a presidente da Imperial, Manuela Tavares de Sousa.
"Caso se mantenha este cenário, passa a ser insustentável manter os preços que estão a ser praticados atualmente. Tendo em conta as flutuações do mercado, não é possível quantificar, neste momento, o aumento do preço do chocolate nem fazer previsões de quando este ocorrerá", acrescenta.
Os preços do cacau estão nos limites. Sucederam-se anos de más colheitas, aumentos dos consumos na China e especulação. Há três semanas os alarmes soaram mais alto que nunca.
O fundo de cobertura de risco Armanjaro Asset Management comprou 7% da produção mundial de cacau, o equivalente a todo o armazenamento europeu. Pagou mil milhões de dólares, por 240 mil toneladas.
O rosto deste negócio é o corretor britânico Anthony Wrad, co-fundador do fundo Armajaro. Com esta investida, o cacau atingiu máximos históricos de 2732 libras por tonelada. Começaram depois a estabilizar após saírem notícias de que, afinal, a compra terá sido feita para satisfazer necessidades imediatas da fabricante suíça Barry Callebaut.
O pão é o caso mais mediático. Sempre por maus motivos. Esta semana cada carcaça passou a custar mais 1,5 cêntimos. Está nos 17 cêntimos, ou seja, cinco cêntimos acima do pico de 2008.
A principal causa para estes aumentos terá sido a especulação, segundo os panificadores. "O mercado de futuros de Chicago chegou a estar fechado, mas já está outra vez a dar o ar da sua graça", comenta Carlos Alberto Santos, presidente da Associação do Comércio e da Indústria de Panificação, Pastelaria e Similares (ACIP).
Ainda assim o preço do pão, em Portugal, está abaixo das piores expectativas. Há dois anos, num dos maiores picos, a carcaça subia aos 12 cêntimos. A ACIP estimou que triplicasse até 2010. Hoje estaria nos 36 cêntimos por unidade. "Felizmente, não se confirmou, graças à intervenção da imprensa que começou a mediatizar a questão da especulação", constata Carlos Alberto Santos.
Este empresário representa um dos mais frágeis negócios do sector agro-alimentar. Faliram 63 panificadoras nos últimos três anos, num total de 346 falências entre fabricantes e retalhistas da área alimentar. O negócio do pão foi onde mais portas fecharam. Seguiram-se a carne e os supermercados, segundo dados do Instituto Informador Comercial, uma consultora privada.
As panificadoras vivem há anos com dificuldades, sobretudo desde que foram obrigadas a fazer grandes obras nas instalações, por imposição comunitária.
"A lei 67/98 obrigou-nos a fazer autênticos laboratórios. Nos últimos dez anos substituímos 80% dos equipamentos e, afinal, nem sequer era preciso tanto." Como assim? "Por exemplo, não podíamos usar madeiras, mas agora, afinal, já são aceites. Noutros países sempre foram aceites. Aqui a lei foi traduzida de qualquer maneira", acusa o presidente da ACIP.
Outros motivos são, na sua opinião, o "excesso de padarias e pastelarias" licenciadas pelas autarquias e a "transferência de 40% das vendas de pão para as grandes superfícies", nos últimos anos.
Mas há também outras causas pouco nobres a afetar o preço do pão. As práticas de cartelização neste sector deram origem as duas multas nos últimos cinco anos.
A Autoridade da Concorrência (AdC) multou a 14 associadas da Associação dos Industriais de Panificação de Lisboa (AIPL), há dois anos, devido a práticas ocorridas entre os 2002 e 2005. Estas recorreram da decisão, mas o veredicto final, emitido em Junho pelo Tribunal do Comércio, não lhes foi favorável.
Nas moagens houve concertações entre 2000 e 2004. Gigantes como a Cerealis (ex-Amorim Laje), Ceres e Gérmen (que juntas representam 65% do mercado) encabeçaram a lista de 10 empresas de moagem de cereais multadas num total de €9 milhões, em 2005.
Os sinais que, na altura, chamaram a atenção das autoridades, são semelhantes aos que estão agora a acontecer. "Os aumentos eram uniformes nos montantes, nas datas de comunicação à imprensa e na entrada em vigor", explicou na altura a AdC.
É com estranheza que alguns especialistas observam os atuais aumentos do pão. Hoje, em declarações ao Jornal de Notícias, o presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) revelou-se "estupefacto" com as subidas anunciadas pela ACIP. "A matéria-prima, que representa 6%-12% do preço final do pão, ainda está a ser comercializada por valores abaixo dos que se registaram em 2008", sublinhou João Machado, presidente da CAP.
Os números dos agricultores divergem daqueles que as panificadoras apresentam. A ACIP diz que as matérias-primas, em 2008, estiveram nos 500 euros por tonelada. A CAP diz que foram 340 euros. Sobre os preços atuais, a ACIP diz que estão nos 330 euros por tonelada e a CAP fala em 210 euros.
Também há divergências sobre o peso das matéria-primas no custo final do pão. A ACIP diz que atinge 40% dos custos. A CAP diz que são no máximo 12%.
Começa entretanto a respirar-se de alívio nos mercados internacionais. O trigo está em queda desde sexta-feira, após ter atingido picos máximos desde Agosto de 2008.
De qualquer forma, a ACIP já apelou ao Governo para que levante as restrições que até agora impedem que se abasteça nos Estados Unidos e no Canadá. A China é o segundo maior produtor de trigo, mas está inundada nas maiores cheias dos últimos cinco anos. A Rússia, que é o terceiro maior produtor, está a arder e sofre a maior seca das últimas cinco décadas. O maior produtor mundial é a União Europeia.
No cenário geral das matérias-primas, analistas alertam para a hipótese de rutura de stocks. No açúcar, em Portugal, falta chegar 25% da matéria-prima (rama de açúcar). "Estamos a sete semanas do fim do ano açucareiro e os analistas admitem um défice que pode chegar às 600 mil toneladas", comenta Miguel Geraldes, administrador da RAR Açúcar.
Na opinião deste gestor, se a Comissão Europeia não acautelar esta eventualidade, "poderá haver consequências no preço do açúcar, já que o défice terá que ser recuperado a preços do mercado mundial". E aí os preços são mais caros. Não funciona o protecionismo europeu que, desde 2006, tem resguardado Portugal.
Por aqui os preços têm estado, inclusive, mais baratos. "Desceu de 564 euros por toneladas em Abril de 2009, para 477 euros em Abril", recorda o gestor. Refere-se ao preço médio do açúcar a granel à porta da fábrica, para os refinadores da Europa comunitária.
Lado B da questão: as medidas protecionistas começam a revelar desequilíbrios. A União Europeia previu importações de 2,1 milhões de toneladas de açúcar para esta campanha, sem custos alfandegários. Só que essa quantidade não está a chegar. Porquê? "Os fornecedores podem estar a optar por vender a matéria-prima nos mercados onde os preços estão mais altos", equaciona Miguel Geraldes.
Kraft Foods calada, Nestlé e Unilever atentas
Os portugueses vão ter de pagar mais por todos os produtos que dependam destas matérias-primas. As bolachas, por exemplo, são dos produtos que mais dependem dos cereais. Na maior fabricante nacional, a Kraft Foods (que inclui a Triunfo e Proalimentar), a administração optou por não prestar comentários.
Na Nestlé, o cenário é explicado pelo responsável pelo Serviço de Compras, Luís Zósimo. "Estes custos são apenas uma das variáveis da conta de exploração de um produto, por isso o impacto pode ser bastante diversificado, dependendo da taxa de incorporação da matéria-prima "X" no produto final e da disponibilidade que exista para trabalhar sobre outras das variáveis que contribuem para o preço final do produto."
Contas feitas, "em última instância, uma perda de rentabilidade significativa pode implicar a necessidade de revisão do preço praticado", admite este fabricante altamente dependente de farinhas, cacau e café.
Na Unilever Jerónimo Martins, proprietária de marcas alimentares como a Olá, a Knorr ou a Vaqueiro, fonte oficial esclarece que "a empresa tem conseguido absorver o acréscimo através de políticas de melhoria de eficiência". Mas avisa que "tal poderá não continuar a ser possível."
Nos supermercados, paradoxalmente, os portugueses gastaram menos 3,4% no primeiro semestre deste ano face ao mesmo período do ano passado, segundo dados da empresa de estudos de mercado Kantar Worldpanel.
Os preços caíram devido às permanentes promoções. Além disso, compraram-se cada vez mais marcas próprias da distribuição, que são mais baratas e já representam 33,5% das vendas do retalho alimentar.
Mas até estas têm um lado negro. Os fabricantes vêem as suas margens estreitar o que, a prazo, coloca em causa a sustentabilidade de alguns setores.
Alguns dos "mistérios" relacionados com os preços dos produtos de grande consumo serão revelados quando a AdC apresentar o relatório "Relações comerciais entre a grande distribuição agro-alimentar e os seus fornecedores", em Setembro.
Amanhã a União Europeia publica as suas previsões sobre produção e consumo mundial de produtos agrícolas, que permitirá tomar o pulso ao sector.
Também amanhã, em Portugal, o Instituto Nacional de Estatística (INE) divulga o Índice de Preços no Consumidor relativos a Julho. Os últimos dados, de Junho, apontaram para uma inflação de 1,2% relativamente ao período homólogo do ano passado.
Os bens alimentares estiveram estáveis, enquanto as despesas com habitação (incluindo água, luz e gás) sobressaem com uma subida de 4,2%. Depois surgem os transportes (3,3%) e a educação (3%). A descer estiveram os preços das comunicações (menos 2,6%) e do vestuário e calçado (menos 1,7%).
No ano passado, os bens alimentares tinham descido, por esta mesma altura, 5,1%, tal como os transportes. Todavia, em 2008, no pico da crise alimentar, os preços da comida subiram 5,8%.
Os preços, no geral, estão aquém dos praticados há dois anos. Mas as despesas dos portugueses estão num crescendo desde Janeiro. Primeiro foi a fatura da luz (mais 2,9%), depois, em Julho, foram os transportes públicos (1,2%), o gás natural (3,2) e os manuais escolares do ensino básico (1,5%).
Isto na altura em que todos os bens de consumo passaram a pagar mais um ponto percentual de Imposto sobre Valor Acrescentado (IVA). Além do aumento dos impostos de rendimento pessoal (IRS). Nos próximos meses, tudo pode acontecer no estranho mundo dos negócios alimentares. Para o bem ou para o mal dos consumidores.



Tiago Miranda
A 06 de agosto, o trigo atingiu o valor mais alto em 23 meses
