Massagens em Manila
Não acredito em bruxas, mas existem e esta é uma delas. Agarra-me o braço com fervor e sorri sem dentes. "I do good magic for you, sir". Aponta os seus instrumentos: cartas de jogar, saquinhos com ervas, poções, quadros de santos e um livro velho. Estão dispostos ordenadamente num banco do passeio. Como num consultório. Ao ar livre.
Agradeço e recuso. Continuo a caminhar pela marginal de Manila, recusando outras coisas: gelados artesanais; retratos instantâneos em velhas polaroids; balões e papagaios; mexilhões crus e, esperemos, frescos; fatias de mango pulverizados com sal e malagueta; espetadas de uma carne qualquer a assar na brasa. Outras centenas de bancos alinham-se na direcção do pôr-do-sol e cada um tem o seu negócio.
Estou numa das cidades mais congestionadas, caóticas, poluídas, desumanizadas do planeta. Ou melhor: uma das mais humanizadas. Repleta em excesso de seres humanos. Ao fim de cada tarde, uma pequena parte deste excesso baixa à marginal de Manila para assistir ao pôr-do-sol. É um espectáculo simples e acessível, nunca monótono. As nuvens a estas latitudes prestam-se a isso e na linha do horizonte um par de vulcões dá-lhe o toque exótico.
Há muitas gerações, talvez antes da Guerra, diz-se que Manila tinha fama de ser um dos melhores lugares do mundo para ver um poente. Os cruzeiros procuravam-na. Hoje, que fama tem Manila? Fama de dinheiro fácil. Não muito, uns trocos, uma miséria. Mas para as povoações do mundo rural, ainda fora de uma economia monetária, uma temporada na cidade pode mudar a vida de uma família. Talvez aproveitem entre cada época de colheita do arroz para descer à cidade à procura de qualquer coisa que encontrem. O que quer que seja.
Os bancos da marginal de Manila são a casa de gente assim. De noite continuam aqui. Se vem o aguaceiro ocasional não sei o que fazem, talvez envolvam os seus pertences num plástico impermeável e esperem molhados que a chuva passe. Se querem um quarto de banho, não sei onde vão, talvez se agachem entre os blocos de protecção da marginal. Se têm uma gripe, uma pedra nos rins, uma apendicite, não sei quem os trata, quem os salva. Não sei nada deles, entreolhamo-nos e entre cada olhar ergue-se um muro de silêncio e incompreensão.
A verdade é que o pouco que sei das pessoas do mundo vem da coincidência de uma ferramenta comum: o uso do inglês. Se essa coincidência não acontece, as minhas suposições sobre elas têm o mesmo valor das de um Pigafetta sobre os Patagões: tantos séculos depois, continuamos no campo da pura fantasia. Mas, quase sempre, as pessoas do mundo que falam inglês pertencem a um estrato social médio-alto, que pode dedicar-se a estudar idiomas estrangeiros. E, assim, o que eu encontro é o que já conheço: gente do século XXI, de uma sociedade global que vê os mesmos filmes de Hollywood, que escuta as mesmas bandas de rock clássico, que tem a mesma opinião sobre Bush e a guerra do Iraque, que distingue claramente ethnic food de junk food e que sabe a mesma versão da História Mundial: a versão dos vencedores.
Na marginal de Manila passo ao lado da outra gente do século XXI, chamemos-lhe a maioria silenciosa. Não compro, nem sequer quero oferecido, nada do que a maioria silenciosa tem para vender. Seria deliciosa essa espetada na brasa em Portugal, cheira bem, está preparada com dignidade e profissionalismo, mas aqui que garantias de higiene tem? Nenhumas. Se calhar também comia um desses gelados artesanais, os sabores que para nós são exóticos, num gelado aqui são o quê, tradicionais? Mas com que gelo foram feitos? Com que água? Bem me apetecia umas fatias desses mangos já preparados, renunciando no entanto às emoções fortes da malagueta em pó. Afinal, os mangos de Manila têm fama de ser dos melhores do mundo.
No entanto, acabo por comprar uma das coisas que se vende na marginal de Manila. Um serviço. Uma massagem. Pelos vistos entro na zona das fisioterapias de rua: vários massagistas esperam ou servem clientes. Dirijo-me a um que se despede de um senhor em fato e gravata, um executivo, que entra para um táxi. É esta a sua melhor credencial para mim: faz massagens à minoria altifalante fluente em inglês.
Sento-me no banco, e concordamos o preço. Em inglês. Espanto-me: "You speak english?" Fala, e bem. Explica que é um "indigente", palavra difícil, de um nível elevado de vocabulário. Explica-me como vive, de onde vem, o que espera da vida e o que levou dela para chegar aqui, para falar assim. É uma das massagens mais profissionais e eficazes que jamais recebo. Pelo preço de uma cerveja em Portugal.
A massagem inclui dois extras: comunicação com essa alusiva, incompreendida maioria silenciosa; e vista sobre um pôr-do-sol que há umas gerações atrás, diz-se, era um dos mais afamados do mundo.


