Nada como uma vitória eleitoral para dar confiança aos políticos e Manuela Ferreira Leite transmitiu, finalmente, uma imagem de segurança na entrevista que aceitou dar à SIC/Notícias uma semana depois do primeiro-ministro.
Com o discurso mais articulado do que antes e bastante mais à vontade do que José Sócrates
no registo da entrevista em causa - sereno e o menos de combate possível -, a líder do PSD agarrou de forma contundente o tema do dia (a entrada da PT na TVI
) e acusou indirectamente Sócrates de mentir. "Ele disse que não sabe mas sabe de certeza", afirmou Ferreira Leite, lembrando que, detendo o Estado uma golden share na PT, é impossível que o Governo não tenha sido informado.
"Se José Eduardo Moniz for afastado será escandaloso e gravíssimo", avisou a líder do PSD. "Se eu fosse accionista da PT ficava muito desconfiada porque a comunicação social não é a área de negócio da PT e a experiência anterior que fez no sector não correu bem", afirmou, vislumbrando "a intenção do Governo de intervir na TVI".
No resto, a entrevista foi muito focada na situação económica e financeira do país, território onde Ferreira Leite se movimenta mais à vontade e onde acusou José Sócrates de nunca pronunciar a palavra que para ela melhor define os problemas nacionais - a dívida ao estrangeiro. É por ela que Manuela mantém a recusa de avançar com grandes obras públicas - deixou claro que se ganhar as eleições suspende o TGV
e a terceira travessia do Tejo, pelo menos, e acusou Sócrates de não ter a apoiá-lo "nem um economista" -, e é por ela que diz que a sua prioridade será "apoiar as empresas e apostar no enriquecimento do país".
Ferreira Leite garantiu que não aumentará os impostos, duvidou dos anúncios que acusa o PM de continuar a fazer sem ter dinheiro previsto no Orçamento de Estado para os cobrir, e acusou o Governo de ter "falhado rotundamente" na solução que encontrou para o BPP - "deixou as contas congeladas oito meses e depois lavou as mãos".
Diplomaticamente crítica de Vítor Constâncio - "ficava-lhe bem assumir que a supervisão falhou" -, Ferreira Leite mostrou-se menos à vontade no caso BPN
/Dias Loureiro que disse não lhe ter provocado incómodo.
No que toca à política pura, a líder do PSD defendeu que tanto há bons exemplos de governos de maioria absoluta como de governos minoritários e por isso não pedirá a maioria absoluta como condição para governar. Mas assumiu que, se a tiver, "obviamente não é algo que (a) repugne". Diz que "falar verdade" será a sua arma principal contra Sócrates, quanto ao PSD acredita que a estratégia que definiu está certa e antecipa uma renovação nas listas de deputados: "nós temos 50 mil militantes mas para ganhar precisamos de um milhão de votos. É absolutamente essencial termos gente credível na sociedade civil", afirmou. De Passos Coelho, o seu principal adversário neste ano, disse que ele "com certeza daria um bom deputado" mas lembrou que Passos "já deu as suas provas". Não é certo que a renovação passe por aí.
O seu maior sinal de confiança terá sido dado já depois da entrevista quando afirmou à SIC, já fora dos estúdios, que espera ter "não um mas vários debates com José Sócrates".