29 de março de 2015
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Morreu Lenine

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Os mortos estão a ver tudo. Essa ciência dos mortos, do que eles observam e gostam, aprende-se no cinema. Os mais cépticos deixam-se levar pelas prosaicas lições da vida e não acreditam em nada. Enganam-se. O morto que me convenceu foi William Holden. Está morto e flutua na piscina de "Sunset Boulevard". Virando-se para uma sala escura, virou-se também para mim e disse: "Tem piada como as pessoas se desfazem em gentilezas connosco, depois de estarmos mortos." Já podem ver que eles ouvem tudo. 

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A mulher autónoma

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Éramos só homens, centenas, e apareceu a mulher autónoma, senhora de si. Descobri a mulher autónoma, a que decide sobre a sua vida e sobre a sua solidão, aos 16 anos.Chamávamos-lhe o cinema dos sargentos e era num quartel, perto do colégio dos Maristas. Mesmo com pais civis e desarmados, a tropa deixava-nos entrar. Nessa noite, ao ar livre, num cinema que, se não fossem as filas e as cadeiras, podia muito bem ser um drive-in americano, apareceu na tela uma mulher. Conduzia uma dessas indiferentes stations yankees.    

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Não há beijos no rabo em Michelet

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Não foi por ter ido a Copenhaga de propósito escolhê-lo, mas o mais bizarro "melhor filme" que já vi foi "Heksen", um filme mudo dinamarquês, realizado pelo sueco Benjamin Christensen. "Heksen" é mais conhecido pelo subtítulo "A feitiçaria através dos tempos", e só não digo que foi um amor à primeira vista porque já o tinha visto, letra a letra, num livro que é o "mais estranho melhor livro" que já li.   

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Playboy

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O mau feitio nasceu com ele, mas Francis Coppola emprestou-lhe as cores da lenda. Falo de James Caan, que foi, no "The Godfather", o filho primogénito de Don Corleone, herdeiro de um império em que o crime e o amor à família se beijam na boca. Caan era Sonny, filho mais velho de Marlon Brando. E era um poço de virilidade e energia física que mal cabia nos três centímetros apertadinhos do seu cérebro, insofismável prova de que o tamanho conta.  

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O homem de Marilyn

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Na altura, roubava-se. Johnny Hyde roubou Marilyn Monroe a outro agente que nem desatava nem saía de cima. Foi Marilyn quem se pôs nas mãos de Hyde. Pôs-lhe nas mãos a nua perna direita. Hyde gozava as delícias epicuristas de 1947, no Racquet Club, em Palm Springs, e ouviu um loiríssimo grito vindo da piscina.    

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Minto com os dentes todos

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Por um bom sorriso, minto com todos os dentes que tenho na boca. Não sou só eu: a esquerda derrete-se por um pensamento mágico, a direita para se exaltar precisa de uma orgulhosa e solitária epopeia. E eu preciso de Garson Kanin. Kanin escreveu, filmou, fez o pino numa Hollywood de festas e piscinas, pernas a roçarem-se por baixo da mesa, Hollywood de muitas camas. Num livro, "Moviola", mistura tão bem a ficção e os factos que, no fim, já só pode ser tudo verdade.  

 

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A Dama de Xangai

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Honesto à sua maneira, bruto como as casas, Harry Cohn era o boss da Columbia, o estúdio de Rita Hayworth. A falsa ruiva era a sua pérola. Tinha aquela cabeça rubra toda em fogo, um corpo de fazer Nosso Senhor sair da cruz e uma forma de dançar que fazia de qualquer homem um Herodes. 

 

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Nunca houve portugueses carecas

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Não gosto de tipos que se levam muito a sério, tipos de ar compungido a quem, certamente, mas também não quero ir ver, não cabe um feijão no apertado lugar onde o sol não brilha. Do cabotino e insuportável Jack Nicholson, gosto. Gosto desde que o vi em "Easy Rider", eram os meus 15 anos um poço de "paz e amor, iá, meu!".  

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O banho nem sempre é uma limpeza

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O assassínio no banho é uma invenção de Hitchcock. No século XVIII, o pintor David imortalizara o revolucionário Marat, mostrando-o a sangrar na banheira onde sossegava a comichão de um eczema contra-revolucionário. Marat está no banho, bem morto e esfaqueado. Menos de duzentos anos depois, num filme, "Psycho", a violenta morte no banho voltou a ganhar as cores perversas da obra-prima.  

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Uma cadeira no meio das pernas

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Claro que a carreira de Marlene Dietrich tinha pernas para andar. Foi com uma cadeira no meio dessas pernas que Josef von Sternberg lhe construiu a imagem. Quem viu, dizia: "Ah, aquelas pernas." Eram suspiros de 1930. Começava-se a suspirar na Alemanha e continuava a suspirar-se pelos Estados Unidos da América dentro.

 

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