1 de outubro de 2014
Página Inicial   >  Opinião  >   Manuel S. Fonseca

Insultos

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Tiros de canhão ou finos punhais, os insultos, na velha e clássica Hollywood, deram histórias saborosas. Conto.

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O vício é que educa

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Os filmes só amam os livros quando os amam com segredo e reserva. Não me venham falar do "Clube dos Poetas Mortos", execrável exibição circense do acto e do prazer da leitura. Confesso que tenho uma aversão parecida às sessões de leitura de poesia. Lido em público, com a compungida voz de quem tem as cuecas apertadas, o poema mais sublime aperta o nariz constrangido. O poema, na minha visão misantropa, tem aversão à plateia. Em voz alta, o poema pede para ser lido de boca a ouvido, numa intimidade que se torna ridícula se for descoberta.    

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Esta mãe morta parece apenas que dorme

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Quando vemos, num filme, uma personagem que dorme, sabemos que estamos a ver um actor a fingir que dorme. Em "A Palavra", de Dreyer, há uma mãe morta, num caixão aberto. Está morta, dizem, mas para a filha, criança inocente, e para o tio louco, esta mãe morta parece apenas que dorme.    

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O homem que vai morrer

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Toda a morte no cinema tem os paroxismos do "Adagio" de Albinoni. Um aviso: estou a pensar na morte dos actores, na verdadeira morte de cada um deles, queé o último filme que fazem. John Wayne morreu como quis. Tinha um cancro e fizeram um filme para ele morrer na glória do mito com que a mente, o coração e o corpo dele já se tinham fundido.  

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Um bocado bruto de realidade

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Ainda hoje, a meio de um filme, quando acordo sobressaltado do delicioso embalo de sono de um minuto, fico ali a pensar que estou a ver no ecrã a mais pura realidade, que aquelas sombras não são actores mas sim pessoas a viver mesmo o que, por isso, tão bem representam. Vi "The Hustler" nos anos 60. Não fazia a mínima ideia do que era o film noir e ainda menos o que era um realizador, um argumentista. 

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Não era rico, era monopolista

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O cinema não me deu tudo. O tempo que julgo ver nos filmes talvez seja a ideia de tempo que lhes dou eu por já a levar da vida. Dos 10 aos 15 anos, no liceu, com excepção das aulas, todo o tempo foi meu. De um total anual de 8760 horas, 7880 gozei-as como e quando quis, senhor e dono de 90% do meu tempo. Não era rico, era monopolista. Tempo sumptuário: as horas a escorrer devagar, como vi depois no "Hot Spot", de Dennis Hopper, o ardente clima de deuses, liberdade de ruas, jardins, barrocas selvagens, praias e duas ilhas. Ninguém nos disse a palavra "perigo". Inventámo-la em bando.  

 

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Os tiros fizeram do carro um passador

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Quando a conheci, já ela morrera há sessenta anos. Conheci a Bonnie que Clyde amou, em 1994, na mansão de um big shot do cinema, em Beverly Hills. Sábado e sol de maio, duas bandas de jazz, vastos relvados, as mesas sob toldos protectores. Podia ser a festa do crisma do filho de Michael Corleone, no "Godfather part II".   

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O Al Capone que Brian De Palma não filmou

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Entrou em Alcatraz e o director da prisão não voltou a ter sossego. Choviam telefonemas e visitas. Al Capone era, em 1934, o que ontem foi um O. J. Simpson e hoje é o caso BES. Prenderam-no por minudências fiscais que uma notória inveja social sobrevalorizou.  

 

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O charlatão gentil

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Foi um charlatão, ápodo que se dá a certos homens de talento. Orson Welles, deslumbrado, filmou-o em "F for Fake". Chamemos-lhe, como ele se autobaptizou, Elmyr de Hory.  Nasceu na Hungria, em família aristocrática - e é mentira.

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Ninguém é profeta na sua terra

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Fui um libertário. Não era só pôr flores na cabeça como vinha nas fotografias autorizadas de Woodstock.

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Edição Diária 17.Abr.2014

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