Madeira: Às ordens da natureza
Mas ainda assim, no fim de tudo, temos de aceitar a inevitabilidade. Quem conheça bem a Madeira sabe que a construção humana, ali, é uma aventura digna de admiração. Sabe que as suas características topográficas e orográficas fazem tudo parecer instável. Em muitos lugares, vive-se literalmente à beira do abismo. Quem conheça a Madeira sabe que a densidade populacional de uma ilha quase sem áreas planas (alguém se oferece para viver no Paúl de Serra?) não ajuda. Que ela, associada ao relevo, leva à dispersão no território (pelo menos em toda a costa sul), onde há casas e casinhas em todo o lado, mesmo nos lugares aparentemente menos recomendáveis. Que ela contribuiu para desflorestação da ilha. Que os acessos modernos seriam difíceis de garantir sem esventrar a terra e assim criar barreiras à chegada da água ao mar. Que o Funchal cresceu para onde podia crescer.
Quem saiba isto tudo saberá que mesmo com todos os cuidados, os que nunca existiram ou os que não podiam existir, a tragédia na Madeira seria inevitável. Talvez com um pouco menos de vítimas, mas era inevitável. Porque nós, os humanos, vivemos em lugares hostis. Em que a natureza nos diz que ali não vai poder ser. E nós insistimos. A Madeira é um desses lugares. Lindos, férteis, mas improváveis para fazer cidades. Como muitos outros no planeta. De vez enquanto a natureza vai lembrar-nos de novo quem manda. Podemos melhorar as coisas. Mas às vezes não podemos mesmo resistir-lhe.


