Macau deve preservar a grafia do português anterior ao novo Acordo Ortográfico, por falta de interesse das autoridades chinesas em introduzir as novas regras, prevê o especialista Joseph Levi, da universidade norte-americana de George Washington.
Ex-professor da Universidade de Macau e diretor do centro de línguas da Universidade de Hong Kong, Levi acredita que a administração chinesa vai preferir o status quo a fazer "mudanças bruscas" no ensino do português, língua oficial da região administrativa, a par do chinês.
"Não faz sentido mudar, segundo o Governo central, porque há manuais já prontos, professores formados que vieram de Portugal. Não há este interesse em usar o acordo", disse à Lusa o professor de Filologia Portuguesa, que regressou este ano da Ásia.
Preservação da antiga grafia é fator de enriquecimento
Macau é oficialmente uma zona bilingue até 2049, com opção de continuar mais 50 anos.
Para Levi, formado na Universidade de Lisboa, a preservação da grafia anterior ao acordo é um fator de enriquecimento do português.
"É bonita esta diversidade, mostra a riqueza da nossa língua e culturas. Concordo com o que se está a passar em Macau. Se faz parte da cultura e da identidade, bem-haja", disse em entrevista à Lusa, à margem da Conferência sobre o Ensino do Português e Culturas Lusófonas, que decorreu sexta-feira em Fall River, nordeste dos Estados Unidos.
"Pessoalmente, prefiro a maneira antiga, mas percebo que temos de ir para a frente, tudo bem. Agora não estou de acordo, e algumas das palavras que foram modificadas... foi uma violência porque as letras estavam ali por uma razão, para abrir ou fechar uma vogal, por exemplo", adiantou.
Decisão ainda não é concreta
Numa recente passagem por Macau, a presidente do Instituto Camões, Ana Paula Laborinho, reuniu-se com a secretária para a Administração e Justiça, Florinda Chan, para discutir a introdução do novo Acordo Ortográfico.
Após o encontro disse à Lusa estar convicta de que Macau irá aderir, mas sublinhou não haver, para já, nenhuma informação concreta sobre uma decisão das autoridades da região em relação ao acordo.
O Instituto Português do Oriente (IPOR) já iniciou em Macau a formação para a introdução do novo Acordo Ortográfico no ensino do português na região a partir de 2011, quando os manuais escolares adotarem as novas regras.
Ensino do português é muito procurado na China
Os manuais para o ensino do português no estrangeiro adotarão as novas regras ortográficas a partir de 2011, garantiu a responsável, salientando que, para já, existem conversores ortográficos que podem servir de base à formação em Macau e que foram disponibilizados às instituições locais, a par da formação online do Instituto Camões.
A China é atualmente um dos países onde é maior a procura do ensino do Português, segundo dá conta Joseph Levi.
"Muitos estudantes querem aprender o português, por razões políticas e económicas, e para nós é sempre um motivo de alegria, enquanto professores de culturas lusófonas, ver este interesse", afirma.
"Angola é uma prioridade para Estados Unidos e China, o Brasil vai sempre ser um gigante, mas se pensarmos não só no número de habitantes, mas de países e opções, temos é um leque vastíssimo (na lusofonia)", adianta Levi.