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Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta feira, 23 de fevereiro de 2011
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Precisamos de vilões mais do que de heróis, de culpados muito mais do que de inocentes. Nem que seja só para preservar o autorrespeito da espécie.
Adolph Hitler quase se foi tratar com Sigmund Freud. Os seus pais teriam sido aconselhados a levá-lo para uma consulta com o doutor, presumivelmente para curá-lo daquela compulsão de dominar o bairro. Não houve a consulta, Hitler cresceu sem tratamento e, quando a crítica sugeriu que ele trocasse a pintura pela sua segunda vocação, fosse ela qual fosse, lembrou-se da megalomania da infância - e o resto é História.
A História teria sido diferente sem Hitler ou com um Hitler no poder mas tratado por Freud? A ideia do nazismo como uma anomalia patológica, como coisa de loucos, é uma ficção conveniente que absolve boa parte do pensamento cristão europeu de direita da sua cumplicidade. Mas a ideia de um determinismo neutro, independente de qualquer escolha moral, também é assustadora. Precisamos de vilões mais do que de heróis, de culpados muito mais do que de inocentes. Nem que seja só para preservar o autorrespeito da espécie.
Karl Kraus escreveu que a Viena do começo do século era o campo de provas da destruição do mundo. A derrocada do império austro-húngaro foi o fim de um certo mundo, mas Kraus quis dizer mais do que isto. Para ele, as revoluções do pensamento postas em movimento na Viena da sua época trariam o fim do longo dia do humanismo europeu, que durara desde a Renascença, e o século restauraria a idade das trevas. O encontro que não houve entre o intelectual judeu que radicalizou o estudo da consciência e o homem que quis eliminar as duas coisas - o judeu e a consciência - da História simboliza este prenúncio ou esta intuição de Kraus. O século XX foi o do desencontro entre duas formas de modernidade, a que liberava o pensamento pela investigação científica e a que o aprisionava pelo mito do estado científico.
A questão é até onde coisas vagas como o clima intelectual de uma cidade ou clínicas como a maluquice de alguém influenciam a História, ou até que ponto uma boa terapia pediátrica teria evitado o Holocausto. O materialismo histórico rejeita a ideia de sujeitos regendo a História, e marxistas ortodoxos reagem a qualquer sugestão de que as ideias justas venham de um discernimento moral inato. E como os liberais nos dizem que o mercado não é ético nem aético, é apenas inevitável, a História como um relato de mocinhos providenciais em guerra com bandidos doentes sobra para a literatura ou essa categoria de ficção sentimental que é a História convencional. Precisamos pensar não só que são iniciativas humanas que movem a História, e que os seus objetivos, mesmo que tarde, sejam morais e justos, mas que elas tenham cara e biografia.
A História feita por indivíduos tem o atrativo adicional da conjetura, de infindáveis variações sobre o 'se'. O que teria acontecido se Napoleão se tivesse contentado em ser instrutor de tiro ou se os pais de Estaline nunca se tivessem encontrado? E podemos sonhar à vontade sobre o efeito na nossa vida pública se certas mães brasileiras pudessem ter optado, patrioticamente, por não ter os filhos que tiveram.
Texto publicado na revista Atual de 19 de fevereiro de 2011
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Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta feira, 16 de fevereiro de 2011
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Nunca tive uma sensação de poder parecida com a de segurar uma forquilha, estender a tira de borracha com uma pedra colocada na plaquinha de couro, soltar a plaquinha e derrubar, não um presidente, mas um passarinho.
Dois velhinhos.
- O que você está fazendo?
- Tirando a camisa.
- Olha que a enfermeira não vai gostar...
- Só quero ver se eu ainda sei fazer.
- O quê?
- Isto.
Pfaf.
- Como se chamava isso, no seu tempo?
- Pum sovacal.
- Eu chamava de trombone axilar.
- Trombone? Não tem nada a ver com trombone. Parece pum.
- Eu não podia dizer pum.
- Porque não? Na sua família não davam pum?
- Davam, mas não se falava a respeito.
- Incrível. Uma infância sem pum. Aposto que também não botavam o dedo no nariz. Tiravam meleca com cotonete.
- Dedo no nariz podia, mas não na frente dos outros.
- Como é que a sua mãe chamava tirar meleca do nariz? Limpar o salão?
- O assunto não era abordado na nossa casa.
- Bodoque. Você sabia fazer bodoque?
- Acho que...
- Bodoque. Funda. Atiradeira.
- Acho que não.
- Era preciso encontrar uma forquilha perfeita. Depois prendia-se uma ponta de uma tira de borracha numa das pontas da forquilha, enfiava-se uma plaquinha de couro na tira de borracha e prendia-se a outra ponta da tira na outra ponta da forquilha. E estava pronto o bodoque. Nunca mais me esqueci da sensação de ter um bom bodoque feito por mim nas mãos. Quer saber de uma coisa? Nunca mais tive a mesma sensação de poder. Eu já lhe contei que fui um executivo importante, não contei?
- Várias vezes.
- Já comandei 600 empregados. Já tive a vida de mais de mil pessoas nas minhas mãos, ou na mão que assinava os cheques. Fui um dos pró-homens da república. Aconselhei presidentes. Podia derrubar presidentes, se quisesse. E, no entanto, nunca tive uma sensação de poder parecida com a de segurar uma forquilha, estender a tira de borracha com uma pedra colocada na plaquinha de couro, soltar a plaquinha e derrubar, não um presidente, mas um passarinho.
- Você matou muito passarinho?
- Matei, mas isso não interessa. O importante é que eu daria tudo, tudo o que eu fiz, tudo o que eu ganhei na vida, para ter um bom bodoque, de novo, nas minhas mãos. Para ter o mesmo poder.
- Porque não procuramos uma forquilha perfeita?
- Como?
- Esta tarde, quando nos levarem para passear no jardim.
- Não, não. Você acha que uma forquilha perfeita se encontra assim? Ainda mais de cadeira de rodas? Não, não. Esquece.
- Olha, a enfermeira está vindo. É melhor botar a camisa.
- Vamos recebê-la com um dueto de puns sovacais.
- Você acha?
- Vamos, vamos. Tire a camisa!
Texto publicado na revista Atual de 12 de fevereiro de 2011
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Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta feira, 9 de fevereiro de 2011
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"Lolita" está cheio de jogos de palavras, imagens preciosistas, símbolos obscuros, referências literárias - toda a parafernália da ostentação intelectual mobilizada para um só fim, o de justificar uma paixão incomum.
O Vladimir Nabokov certa vez deu uma curiosa explicação sobre a origem do seu romance "Lolita". Disse que a sua inspiração fora a notícia que lera em algum lugar sobre uma experiência feita num jardim zoológico em que ensinaram um gorila a desenhar, e o primeiro desenho feito pelo gorila foi o das barras da sua jaula.
Se Nabokov não estava deliberadamente tentando enlouquecer um entrevistador - afinal, o que é que o gorila entre grades tem a ver com a história da paixão de um homem mais velho por uma menina de 12 anos e o seu trágico desfecho? -, a sua resposta pode ter vários significados. Um deles é o confinamento dentro do próprio texto, que é a sina de todo o autor, mais evidente no caso do narrador de "Lolita", um prisioneiro do seu estilo tanto quanto da sua obsessão por ninfetas. Como o gorila artista dentro da sua jaula, o narrador escreve sobre os seus limites. O seu verdadeiro assunto é a linguagem.
Humbert Humbert, o narrador de "Lolita", escreve em vários níveis de paródia. Parodia a vulgaridade americana do ponto de vista de um intelectual europeu, mas também faz uma paródia do intelectual europeu deslocado e ridicularizado no Novo Mundo, em que o autodesprezo pela sua impostura cultural se mistura com a culpa. Mas ele não pode se livrar nem do seu pedantismo nem da sua obsessão. "Lolita" está cheio de jogos de palavras, imagens preciosistas, símbolos obscuros, referências literárias - toda a parafernália da ostentação intelectual mobilizada para um só fim, o de justificar uma paixão incomum. Tanto o gorila quanto o Humbert Humbert descrevem o que os separa do mundo.
No livro "A Última Tentação de Cristo", de Kazantzakis, há um diálogo em que um personagem diz a outro que os seus olhos não entendem a mensagem de um profeta porque não veem nada além das palavras. "Mas o que as palavras podem dizer? Elas são as grades negras de uma prisão onde o espírito grita para ser ouvido." No seu livro "Speak, Memory" ("Fala, Memória"), o próprio Nabokov diz que está "cativo num zoo de palavras". A ideia das palavras como grades que impedem a expressão do espírito ou como uma insatisfatória seleção sem alternativas de animais atrás das cercas de um zoo deve ter ocorrido a muitos autores. Em toda a fascinante literatura da Clarice Lispector, por exemplo, se repete este choque com o limite da linguagem, esta incapacidade angustiante de dizer o indizível, de ultrapassar as grades. O que se quer dizer está sempre lá fora, além das palavras.
"A glória de Deus é encobrir, mas a glória dos reis é tudo investigar", disse Salomão ("Provérbios", 25:2). Substitua-se "reis" por escritores e artistas e a sua busca de glória pela investigação de toda a experiência humana e os seus mistérios e chegamos ao Nabokov e ao seu gorila. Nunca ultrapassaremos as grades. Podemos no máximo sacudi-las com mais ou menos talento ou vigor, mas resignados à ideia de que a verdadeira glória de Deus começa onde termina a linguagem. Pois trata-se de um Deus ciumento, senhor de todas as nossas paixões e indisposto a compartilhar a sua glória, ou a sua literatura, com quem quer que seja. Mesmo com o Nabokov ou a Clarice.
Texto publicado na revista Atual de 5 de fevereiro de 2011
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Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
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O silêncio voltou à mesa. O jogo continuou. O natalino tinha um par de rainhas. Perdeu para dois pares. O baralho andou. Nova rodada. Todos fizeram o seu jogo.
Estava ficando tarde. Tinham começado a jogar às nove, eram duas da manhã. Cinco horas de póquer. E ainda por cima o Natalino perdia feio. Passara a noite inteira perdendo feio. E ficando cada vez mais irritado.
Não se ouvia mais nada na mesa, além dos ruídos naturais do póquer. O clicar das fichas. Frases curtas: "Dou cartas", "Vou", "Não vou", "Pago pra ver", "Não é possível" (o Natalino), etc. Um ou outro gemido. E alguns bocejos. Estava ficando tarde.
Foi quando o Eraldo disse "Não vou" e jogou fora as suas cartas. Não iria naquela rodada. Espreguiçou-se. E depois disse a frase:
- Os pêssegos estão ruins, este ano.
O Natalino olhou em volta, com cara de espanto. Depois perguntou:
- O quê, Eraldo?
- Os pêssegos. Não estão bons, este ano.
- E o que é que os pêssegos têm a ver com o jogo, Eraldo? Ou com qualquer coisa?
- Nada. Foi só um comentário.
- Não é metáfora? Os pêssegos não querem dizer outra coisa? Pêssegos ruins são um mau presságio, é isso? Como pássaros caindo mortos do céu? Um prenúncio do fim dos tempos? Ou o quê?
- Não. Nada. Eu só comentei que...
- Está bom, Eraldo. Nós já ouvimos. Agora deixa eu me concentrar na minha mão. Que, como sempre, está uma porcaria.
O silêncio voltou à mesa. O jogo continuou. O Natalino tinha um par de rainhas. Perdeu para dois pares. O baralho andou. Nova rodada. Todos fizeram o seu jogo. E o Eraldo falou:
- E olha que é tempo de pêssegos...
O Natalino avisou ao resto da mesa:
- Eu vou matar esse cara.
- Calma, Natal. Calma.
- Eu vou matar esse cara!
O Eraldo tentou se defender:
- Eu só estava...
- Me faz um favor, Eraldo - interrompeu o Natalino. - Não diz mais nada. Eu não quero mais ouvir a palavra "pêssegos" esta noite. Está bem?
- Óquei, óquei.
Três rodadas silenciosas depois, novamente o Eraldo:
- Quem é o tal de Holden, afinal?
- Quem?
- Texas Holden. O nome desse tipo de póquer que o pessoal está jogando...
- Não é Holden. É "hold'em". "Texas hold'em". Eme no fim.
- Ah...
Novo silêncio, e de novo o Eraldo:
- Será parente do William?
- Quem?
- O William Holden. Aquele ator americano que fez...
O Natalino se atirou por cima da mesa para agarrar a garganta do Eraldo. Espatifou a mesa. Tiveram dificuldade em arrancar o Natalino de cima do Eraldo, que ele tentava esgoelar. Todos concordaram que o Natalino tinha razão para se irritar daquele jeito, ainda mais perdendo como estava. Mas também desconfiaram que havia estratégia na sua explosão. Com o seu salto espetacular, as fichas tinham se espalhado para todos os lados. Seria impossível saber quem estava ganhando ou perdendo. De qualquer jeito, decidiram acabar o jogo. Estava ficando tarde.
Texto publicado na edição do Expresso de 29 de janeiro de 2011
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Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta feira, 26 de janeiro de 2011
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Naquele dia, estava mais ou menos na metade do livro quando notou que um homem se sentara na areia perto dela. Perto de mais. Bárbara não gostou da sua proximidade.
Bárbara levava para a praia um guarda-sol, uma cadeira portátil (na verdade, meia cadeira, apenas um encosto para poder sentar-se confortavelmente na areia), óculos escuros, chapéu e uma bolsa de pano com protetor solar, batom humidificante, telefone celular, lenços de papel e um livro policial. Sempre um policial. Gostava de ficar lendo em baixo do guarda-sol.
Naquele dia, estava mais ou menos na metade do livro quando notou que um homem se sentara na areia perto dela. Perto de mais. Bárbara não gostou da sua proximidade. Viu que era um homem mais moço do que ela, bonito, e que - ao contrário dela - viera para a praia apenas com uma sunga e nada mais. Nem chapéu, nem óculos, nem protetor, nem celular. Nada. E ele a examinava com divertida curiosidade. Como um nativo nu examinando as vestes pesadas e os paramentos de um explorador recém-chegado ao Novo Mundo.
Fora devolver às crianças uma eventual bola que invadisse o seu território, Bárbara não tinha nenhum contacto com os outros frequentadores da praia. Preferia assim. Não queria falar com ninguém. Queria ficar sozinha. Com os seus livros policiais.
- Geoffrey - disse o homem.
- O quê? - perguntou Bárbara.
- O assassino. No livro que você está lendo. O assassino é o Geoffrey.
- Mas, mas...
Bárbara não se continha de indignação.
- Você estragou a minha leitura! Você é um, um...
Bárbara não encontrava a palavra certa. Onde já se vira aquilo? Alguém entrar na vida de outra pessoa assim e, deliberadamente, estragar a sua leitura...
O homem estava sorrindo. Disse:
- Desculpe. Eu só quis poupar você de ter que ler o resto do livro. Assim você já sabe como termina e pode parar de ler para conversar comigo. Podemos começar um relacionamento. E quem sabe dizer como termina um relacionamento? A sua vida pode ser muito mais excitante do que um livro policial. Jogue fora o livro e fale comigo. Pare de ler e descubra a vida.
Mas Bárbara estava inconsolável.
- Só porque já leu o livro não tem o direito de...
- Eu nunca li esse livro.
- Mas, então, como...
O homem estendeu a mão para Bárbara apertar e disse:
- Eu sou o Geoffrey.
Uma bola rolou para baixo do guarda-sol e bateu na perna de Bárbara, que acordou. Por uns instantes, ficou atordoada. Onde estava? Na praia, claro. O livro caíra das suas mãos e pousava, aberto, sobre o seu peito. Ela chutou a bola de volta para as crianças e pegou o livro. Que sonho estranho, pensou. E ficou indecisa. Deveria olhar o fim do livro, para saber se Geoffrey era mesmo o assassino, ou continuar a leitura sem espiar o final, agora com o suspense redobrado? A história do livro se passava em Londres. Geoffrey era um personagem fascinante, um cavalheiro. Bárbara jamais imaginaria que o assassino fosse ele. Mas também nunca o imaginaria de sunga numa praia. Decidiu continuar a leitura sem olhar a última página. A leitura teria outro sabor, agora que conhecia Geoffrey, por assim dizer, pessoalmente. A vida podia esperar.
Texto publicado na revista Atual de 21 de janeiro de 2011
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Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta feira, 19 de janeiro de 2011
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Herculano enumerou todas as vantagens de ter a sua mão direita como esposa. Ela jamais lhe seria infiel. Ela jamais se recusaria, com um gesto que fosse, a fazer amor com ele.
O Herculano era um homem sério, o que tornava as suas esquisitices ainda mais divertidas para o grupo. Mesmo quando não estava na roda, o Herculano era assunto da turma. Volta e meia alguém chegava com uma história nova do amigo, sempre prefaciada com a frase:
- Sabem a última do Herculano?
Pois a última do Herculano ele mesmo anunciou, um dia, ao chegar no bar:
- Pedi a minha mão em casamento.
- O quê?!
- Você vai casar com você mesmo?
- Não, só com a minha mão. Esta.
E Herculano levantou a sua mão direita. A noiva abanou para todos na mesa.
Herculano explicou que não tinha sido uma decisão súbita e impensada. Ele e a sua mão eram ligados desde pequenos. Tinham se criado juntos. A partir da puberdade, haviam começado a fazer sexo regularmente, mas nada sério. Coisa de adolescentes. Com o tempo, no entanto, o relacionamento mudara. Crescera uma real afeição entre os dois, que aos poucos se transformara em amor. A verdade, contou Herculano, era que encontrara na sua mão direita o que nunca encontrara numa mulher. Além de ser uma companheira constante que jamais o contrariava e fazia todas as suas vontades, era uma amante perfeita. Nenhuma mulher conseguia satisfazê-lo como a sua mão direita.
- Me apaixonei, pronto - disse Herculano.
Herculano enumerou todas as vantagens de ter a sua mão direita como esposa. Ela jamais lhe seria infiel. Ela jamais se recusaria, com um gesto que fosse, a fazer amor com ele. Estaria sempre pronta para o sexo, incapaz de alegar dor de cabeça, tendinite ou o que fosse. E não esperaria que ele fizesse conversa de neném antes e depois do ato, como algumas mulheres exigem. A sua mão direita não esperaria nada, não exigiria nada, seria uma amante - além de exímia nas artes do amor - silenciosa.
Não era brincadeira. Herculano levou adiante o plano de casar com a sua mão direita. Durante algum tempo - o tempo do noivado -, a noiva usou duas alianças no seu dedo anelar, uma dela e a outra do Herculano. Depois do casamento, a aliança do Herculano passou para a sua mão esquerda. Todos na roda queriam saber quando seria o casamento, quem seriam os padrinhos, etc., mas Herculano informou que a cerimónia seria simples e sem testemunhas. Ele sabia que não seria difícil arranjar alguém para oficializá-la. Hoje em dia, como se sabe, tem até padre casando surfistas em cima da prancha e pegando onda. Mas Herculano preferiu a discrição. A lua de mel foi em Cancún.
E aconteceu uma coisa que ninguém poderia prever. O Herculano, que nunca fora disso, se revelou um grande ciumento. Continua frequentando a roda, mas, se desconfia que alguém está dando muita atenção à sua esposa, põe a mão no bolso.
Texto publicado na revista Atual de 15 de janeiro de 2011
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Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta feira, 12 de janeiro de 2011
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Está decidido, este será o ano da minha independência. Vou sair de casa, cortar todos os laços que me prendem à família e viver pelos meus próprios meios, desde que o velho concorde em dar uma ajuda.
Vou usar fio dental depois de cada refeição e esforçar-me para promover a paz mundial, não necessariamente ao mesmo tempo. Vou organizar os meus livros e LP em ordem alfabética, jogar fora a minha coleção de minhocas e parar de ligar o chuveiro para a mãe pensar que eu estou tomando banho enquanto fico sentado na tampa da privada lendo Gibi. Vou...
Espera um pouquinho. Esta é uma lista de resoluções de ano novo antiga. Onde está a lista deste ano?
Vou tomar coragem e pedir a D. em namoro. Vou contar para ela o que eu faço todas as noites antes de dormir só pensando na pintinha que ela tem em cima do lábio, mas com todo o respeito. Vou desenterrar as minhas revistas de nudismo suecas e tocar fogo para não ficar tentado a trair a D. com nenhuma outra mulher, nem na imaginação. Vou tentar melhorar em matemática, comer mais verdura e...
Também não é esta!
Está decidido, este será o ano da minha independência. Vou sair de casa, cortar todos os laços que me prendem à família e viver pelos meus próprios meios, desde que o velho concorde em dar uma ajuda. Plano para o ano novo: aperfeiçoar-me no twist. Ler mais. Deixar o Gibi.
Também não.
Devo tornar-me uma pessoa mais interessante. Talvez deixar crescer o cabelo e usar jeans apertados. Sair de casa, desta vez para valer. Dedicar-me a assuntos sérios, como geopolítica ou perceção extrassensorial. Escolher um. Adotar uma atitude mais serena e filosófica diante dos infortúnios e dos comentários jocosos, afinal futebol não é tudo na vida. Controlar o peso.
Também não é a lista deste ano!
Ler Marx para pelo menos saber do que se trata. Decorar algumas frases, como "É preciso ver isso holisticamente...", para usar em conversas. Tentar encontrar Deus, ou pelo menos uma mulher que preencha os mesmos requisitos. Cuidar o açúcar, o colesterol e as más companhias.
Esta também não.
Finalmente, encontrei! A minha lista de resoluções para o ano de 2011. São dez.
1 - Chegar ao ano de 2012.
2 - Tentar, mais uma vez, ler "A Montanha Mágica".
3 - Fazer exercício.
4 - Encontrar maneiras originais de justificar a falta de exercício.
5 - Sair da frente da televisão e redescobrir que há vida além do controlo remoto.
6 - Só acreditar na vitória do Internacional no próximo Mundial de Clubes quando ele estiver vencendo a final por três golos e faltando um minuto para terminar o jogo.
7 - Contactar a Soledad Villamil para discutir maneiras de estreitarmos os laços Brasil-Argentina sem dar muito nas vistas.
8 - Aprender a dançar tango, se não for tarde de mais.
9 - Ouvir mais Gustav Mahler e Guinga.
10 - Usar fio dental depois de cada refeição e esforçar-me para promover a paz mundial, não necessariamente ao mesmo tempo.
Texto publicado na revista Única de 8 de janeiro de 2011
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Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta feira, 5 de janeiro de 2011
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Eu (...) E todos os milhares, milhões de papais noéis que surgem nesta época do ano somos apenas caras diferentes do mesmo ente reincidente que traz presente ou castigo, representando uma cosmogonia moral que rege o comportamento humano.
O garoto me pediu um cavalo. Eu perguntei: "Um cavalinho de brinquedo?" Ele disse: "Não, um cavalo de verdade." Eu disse que ia ver, mas que seria difícil carregar um cavalo de verdade no meu saco.
Ele ficou me olhando. Depois disse:
- Você não é o Papai Noel de verdade, é?
- Claro que sou. Porque você pergunta?
- Porque no outro shopping tem um Papai Noel igual a você.
- E você pediu um cavalo pra ele?
- Pedi. E ele disse que ia me dar.
- Bom, talvez o saco dele seja maior do que o meu.
- Mas o Papai Noel de verdade é ele ou é você?
O que dizer para o garoto? É que nós temos o poder da ubiquidade, entende? Ubiquidade. A capacidade de estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Omnipresença. Pergunte à sua mãe. Só existe um Papai Noel, mas ele está por toda a parte. Está em todos os shoppings do mundo. Cada Papai Noel é a manifestação de uma mesma e única entidade superior. Só muda o nome e o tamanho do saco. Eu sei, é um conceito difícil de entender. Ainda mais na sua idade. Há anos, séculos discute-se a natureza desta entidade multipartida. Existiu um Papai Noel histórico, que viveu e morreu, mas o seu espírito perdurou, e perdura até hoje, porque a sua essência transcendia a sua materialidade. Sua sobre-existência supratemporal e a-histórica, como a definiria Kierkegaard, depende de uma predisposição da Humanidade para ver na sua figura a idealização de um paradigma infantil de bom provedor e a eternização da infância num 'pai' amável que nunca morre e volta, ciclicamente, todos os anos, ano após ano, na mesma data. No resto do ano, ele reassume a sua imaterialidade, mas mantém-se introjetado nos que acreditam nele, controlando as suas ações e pensamentos, que serão premiados ou punidos quando da sua rematerialização anual, numa espécie de Juízo Final parcelado. Eu, o Papai Noel do outro shopping e todos os milhares, milhões de Papais Noéis que surgem nesta época do ano somos apenas caras diferentes do mesmo ente reincidente que traz presente ou castigo, representando uma cosmogonia moral que rege o comportamento humano. Há quem diga que esta entidade que recompensa e pune não passa de um mito infantilizante que aprisiona a razão numa superstição obscurantista. Que Papai Noel não existe. Que eu sou uma fraude. Que o Papai Noel do outro shopping é uma fraude. Que todos os outros Papais Noéis do mundo são impostores, que por trás das suas barbas falsas há apenas pobres coitados tentando faturar alguns trocados sazonais com a crença alheia e enganando criancinhas. Não é verdade. Pode puxar a minha barba. Eu existo, eu...
Nisso, o garoto fez xixi no meu colo. Foi levado pela mãe, com pedidos de desculpa. Melhor assim, pensei. Minha explicação só iria assustá-lo. E eu só estaria tentando convencer a mim mesmo. Sou gordo, tenho uma barba naturalmente branca, sou quase um predestinado para ser Papai Noel de shopping. Mas todos os anos preciso combater as minhas dúvidas. Como em qualquer caso envolvendo crença e fé, o pior são as dúvidas. Com a ameaça constante do xixi eu até nem me importo.
Mas veja como crer é importante. Em seguida sentou no meu colo um homem dos seus 40 anos. Não queria me pedir nada, só queria colo. Tinha estourado o limite do seu cartão de crédito nas compras de Natal e precisava de alguém que o consolasse.
Texto publicado na revista Atual de 30 de dezembro de 2010
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Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta feira, 29 de dezembro de 2010
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Personalidade do Ano - Paul, o polvo alemão que previu todos os resultados da Copa.
Lázaros do Ano (ou "Eu também estou louca de saudade, querido, mas antes vá tirar essa roupa e tomar um banho") - Os mineiros soterrados do Chile.
Troféu "Ovo no fiofó da galinha" do Ano - A discussão no Brasil sobre o que fazer com os royalties do pré-sal antes que uma gota do petróleo tenha sido extraída.
Anticlímaxes do Ano - A revelação do WikiLeaks de que o que os diplomatas dizem e fazem em segredo não se parece nada com o que eles dizem e fazem em público e a do Ricky Martin, que é gay.
Argentinos do Ano - Messi e Cristina Kirchner, que também concorreu ao prémio de melhor viúva.
Maradona do Ano - Maradona.
"Olé" do Ano - Espanha campeã do mundo.
"O quê?!" do Ano - O Papa admite o uso de camisinha em ocasiões especiais.
Figura Emblemática do Ano, talvez do século - Lady Gaga.
E quando você pensava que o ano terminaria sem que a justiça brasileira fizesse mais uma das suas... - Ficha limpa para o Maluf.
Inês
(Da série "Poesia numa hora destas?!")
Ela tinha as unhas do pé
pintadas de dourado
- Eu deveria ter me flagrado.
Ela tinha uma flor de Lys tatuada
nas costas apontando para o rego
- Pra onde iria meu sossego?
Ela gostava da Camille Paglia
e esportes radicais
- Como eu não vi os sinais?
Agora é tarde, Inês está aí
e eu é que morri.
Pressupostos
Em poucos dias, duas certezas científicas tiveram que ser abandonadas. Pesquisadores da NASA descobriram que pode haver vida sem os componentes químicos até hoje considerados indispensáveis para a sua formação, e astrónomos descobriram que há muito mais estrelas além da Via Láctea do que se imaginava. Ou seja: aumentou a possibilidade de haver formas de vida desconhecidas em outros planetas e aumentou (triplicou, dizem os astrónomos) a quantidade de planetas em que elas podem existir.
Os novos cálculos sobre a quantidade de estrelas, se entendi bem, o que eu duvido, parte da constatação de que muitas das outras galáxias são elípticas, e não espirais como a Via Láctea, e que a proporção de estrelas-anãs para estrelas grandes, ou sóis, que é de cem anãs para cada sol na nossa galáxia, e de 2 ou 3 mil para cada sol nas galáxias elípticas. As estrelas-anãs de galáxias distantes não são vistas, são inferidas, mas calculam que haveria pelo menos um trilhão de estrelas a mais do que se supunha no Universo. O que significa mais alguns trilhões de planetas em volta dos sóis e quatrilhões de satélites em volta dos planetas. Isso sem levar em conta - para não enlouquecer - que o Universo visível talvez seja só uma fração do Universo real, cuja luz ainda não chegou até aqui.
O que as duas revelações significam é que pressupostos básicos como o de que só a uma determinada composição química permitia a vida e que todas as galáxias se comportavam como a Via Láctea não eram mais do que presunções nossas. Sua desmoralização é mais um capítulo no lento afastamento da Humanidade das suas certezas que começou com Copérnico e a prova de que a Terra circundava o Sol, e não o contrário. O que virá agora? Quando descobriram o comportamento esquizofrénico das partículas subatómicas, há alguns anos, foi um aviso para desconfiar de todos os pressupostos até aqui, das bactérias ao cosmo. Aguardam-se novas surpresas.
Quanto à vida em outros planetas, ainda é cedo para imaginar a FIFA organizando o primeiro campeonato interplanetário. Mas já dá para prever problemas com o antidoping: o que é tóxico para o time do Brasil pode ser vital para a seleção de uma lua de Saturno, por exemplo.
Texto publicado na revista Atual de 23 de dezembro de 2010
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Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)
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0:00 Quarta feira, 22 de dezembro de 2010
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O doutor Alberico tinha pedido para ser cremado. Ainda no velório, a família discutiu o que fazer com as cinzas. A viúva sugeriu aos filhos que as espalhassem no sítio onde o Alberico gostava de passar os fins de semana quando não estava viajando. Até se lembrava vagamente de tê-lo visto apontar para uma colina e dizer que queria que as suas cinzas fossem lançadas ao vento dali, bem dali. A viúva não se lembrava qual era a colina, exatamente - o pedido do marido fora feito anos antes, quando ele ainda estava ativo, ainda viajava quase todas as semanas para Curitiba -, mas o vento saberia para onde levar as cinzas do Alberico.
Todos concordavam? Todos concordaram. As cinzas seriam espalhadas ao vento de uma colina no sítio. A que Alberico dera o nome da sua mulher, Florinda. Campos da Florinda. Ali onde ele encontrava a paz longe da cidade e das viagens, as suas cinzas também encontrariam a paz, para sempre.
Uma mulher aproximou-se da viúva, no velório. Florinda preparou-se para receber um abraço, mas a mulher não lhe deu um abraço. Era mais moça do que Florinda, mas não muito. Em vez de dizer "Meus pêsames", disse:
- Eu sou Curitiba.
- O quê?
- Quando o Alberico ia para Curitiba, era para se encontrar comigo.
- O QUÊ?!
- Não faça escândalo. Você desconfiava, não desconfiava?
- Eu sabia que ele aproveitava as viagens para se soltar. Para ter mulheres. Muitas mulheres. Mas não uma. Várias Curitibas, não uma Curitiba só.
- Eu era a única. Ele sempre foi fiel.
Quando o marido viajava, Florinda dizia, brincando: "Vê lá como você vai se comportar em Curitiba, hem?"
E ele: "Meu bem, Curitiba é a cidade mais bem comportada do Brasil."
Também brincando.
- O que é que você quer?
- Cinzas.
- Como, cinzas?
- Tenho direito a metade das cinzas dele.
- Eu não acredito! Legalmente, você não tem direito algum.
- Legalmente, não. Moralmente, sim. Ele passava metade do tempo comigo.
- E o que você faria com as cinzas dele?
- Ele pediu que as jogasse da janela do nosso apartamento em Curitiba, ao pôr do sol, ao som de um adágio de Albinoni.
- Albinoni?
- Ele dizia que o nosso apartamento era o único lugar em que encontrava a paz.
- ALBINONI?!
Concordaram em um terço das cinzas para Curitiba, dois terços para Florinda. Que durante toda a viagem de carro para o sítio, com a urna ao seu lado, foi pensando: "Albinoni, Albinoni... Como a gente não conhece as pessoas..." Só quando chegaram no sítio ela se deu conta que deixara a urna com as cinzas do Alberico no banheiro da churrascaria em que tinham parado no caminho.
Texto publicado na edição do Atual de 18 de dezembro de 2010
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