Diz-se que, durante a III Invasão Francesa, Lorde Wellington teve que travar a batalha do Buçaco (27 de Setembro de 1810) para conseguir uma vitória capaz de convencer o parlamento britânico a continuar a financiar as suas campanhas em Portugal. Quase 200 anos depois, alguns dos seus sucessores na Câmara dos Lordes vieram a Portugal para estudar formas de apoiar, já não a construção das Linhas de Torres Vedras - determinantes para a derrota dos exércitos de Massena, em 1810 - mas a sua conservação.
Depois de reunir na Assembleia da República com deputados portugueses e de ter um encontro com a plataforma dos seis municípios empenhados na salvaguarda daquele património histórico, os representantes da câmara alta do parlamento britânico visitaram alguns dos locais mais significativos das Linhas de Torres Vedras.
Um dos pontos altos da visita, levada a cabo há dias, foi o desfraldar de bandeiras de sinalização no alto da Serra do Socorro. Era aqui que há 200 anos funcionava o centro de comunicações do dispositivo militar anglo-luso que defendia Lisboa. Um mastro com uma verga permitia içar um conjunto de bandeiras e bolas, cuja combinação formava mensagens codificadas. Estas, eram avistadas à distância noutros montes e retransmitidas para a rede de fortificações pelo mesmo processo.
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| Réplica do mastro de sinalização da Serra do Socorro
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| Alberto Frias |
Uma réplica do sistema original foi reconstruída na perspectiva das comemorações do bicentenário das Invasões Francesas. E coube aos parlamentares britânicos a tarefa de puxar os cabos que fizeram subir a mensagem codificada 902 (duas bolas e uma bandeirola vermelha) que significava, justamente, "vitória!". Como explicou Ana Catarina Sousa, arqueóloga da Câmara de Torres Vedras, "é uma das poucas mensagens cujo significado conhecemos, já que o livro com os códigos originais está em Southampton num museu militar britânico".
Lorde Alfred Dubs, que chefiava a delegação britânica, disse ao Expresso ser importante arranjar formas de apoiar o trabalho levado a cabo em Portugal de celebração do bicentenário. "É irónico que sendo britânica a maior parte dos historiadores que descreveu as campanhas em Portugal, o tema seja tão pouco conhecido no Reino Unido". Esse apoio poderá passar pela sensibilização de potenciais patrocinadores britânicos para os trabalhos em curso.
A história é tema ao qual lorde Dubs é sensível. De origem judia, foi salvo, aos seis anos, do envio para o campo de concentração, quando os alemães invadiram a Checoslováquia, em 1938. "Lembro-me de ser obrigado, na escola, a rasgar do livro a fotografia do presidente checo, para a substituir pelo retrato de Hitler". O salvador de Dubbs e outras dezenas de crianças checas foi o milionário britânico Nicholas Winton, ainda vivo, que organizou o "comboio das crianças" para levar para o Reino Unido, em vésperas da II Guerra Mundial, jovens sob quem pesava a ameaça do extermínio.