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Pedro Mexia: "Sou conservador, ma non troppo"

Aos 36 anos, diz que só agora chegou à idade adulta. Deslocado na sua geração, o escritor aproveita ao máximo o que os novos suportes lhe dão. Há um ano director interino da Cinemateca, Pedro Mexia ainda não sabe o que lhe irá acontecer. Fala com grande à-vontade sobre as mulheres, mas mantém a sua vida em segredo. Clique para visitar o canal Life & Style.

Ana Soromenho e Christiana Martins (www.expresso.pt)

Escolheu ser Pedro Mexia, o apelido da mãe, uma professora universitária. Não quis ser Pedro Chorão, filho do escritor e ex-director da editora Verbo, João Bigotte Chorão. Tudo porque percebeu que o nome não funcionava para um escritor. Usa as ferramentas do seu tempo, mas afirma ter uma cultura velha. Gosta de clássicos e de mulheres sem traços de vulgaridade. Tem 36 anos e diz que só agora chegou à idade adulta. Protege a sua vida privada, mas expõe com abundância a sua vida íntima. Convidado para intervir na cena política, optou por ocupar um espaço mediático, tendo uma voz. Conservador. Mas não muito.

Considera-se um intelectual? Não me revejo nessa palavra, de maneira nenhuma.

Mas não é considerado como tal? "Em terra de cegos..." Eu sou um literato: uma pessoa que lê muito, que escreve e que reflecte sobre o que lê.

O que é hoje um intelectual? Foi desde sempre alguém capaz de fazer duas coisas importantes: uma grande síntese do pensamento do momento - o Eduardo Prado Coelho era um intelectual deste tipo, um especialista instantâneo, e digo isto sem nenhuma intenção pejorativa - ou então pessoas que têm um pensamento próprio e novo e que contribuem para a área de conhecimento a que se dedicam. É o caso do Eduardo Lourenço.

Quem ocupa esse papel na sua geração? Na minha geração, o intelectual perdeu essa função. É uma palavra que vale pouco. Para utilizar uma expressão burocrática: não consta do mapa de pessoal. O intelectual transformou-se num opinion maker, o que é uma degradação. Porque é que uma pessoa que ganha crédito numa área depois pode opinar sobre coisas das quais não sabe nada? Por exemplo, nos blogues, a palavra 'intelectual' é muitas vezes usada como injúria. Embora haja escritores que eu considero intelectuais. Gonçalo M. Tavares é um deles, assim como José Tolentino de Mendonça e José Quintais - não tenho dúvidas de que o são.

Quando começou a sua relação com a escrita? Não me lembro bem, mas nunca antes dos 16, 17 anos.

Os livros já lá estavam? Não me recordo de um momento pré-livros. O meu pai escrevia em jornais. Sempre tive livros em casa e conheci pessoas que escreviam. Gostava de ler, mas não era óbvio que seria a minha vida.

E a música, quando entrou na sua vida? Foi mais tarde. Aos 18 anos. Até lá, o meu gosto em música não estava estruturado. Ouvia coisas estranhíssimas, dos meus pais, como tangos, canções russas, francesas, italianas... A minha primeira revelação pop foram os Velvet Underground, em 1990. Ainda antes dos Smiths, a minha banda de culto. Com os clássicos só comecei depois. E, ainda hoje, Schubert vem em primeiro, segundo e terceiro lugares. Mas posso dizer que gosto tanto de Schubert como de Leornard Cohen.

Nesta fase da sua vida, que futuro imaginava para si? Provavelmente, até muito tarde, seria advogado. Fui para Direito por exclusão de partes. A única disciplina no liceu em que era realmente bom era Filosofia. Nas outras tinha notas médias. Nunca fui bom em Matemática ou em Ciências. Como não queria dar aulas, excluí todas as opções de que gostava... Optei por Direito. Não foi de todo por influência do meu pai, que era advogado mas nunca exerceu. No terceiro ano do curso, disse aos meus pais que ia desistir.

E eles? Acharam um disparate eu deixar um curso em que me faltavam poucas disciplinas para acabar e onde nunca chumbei. Acabei por não desistir. Fiz o curso até ao fim, fiz o estágio, mas chumbei no exame da Ordem. Pensei: "É o Direito que não me quer mesmo." Tenho a inscrição suspensa ad aeternum.

Quem o conhece bem diz que é extremamente cuidadoso com a sua privacidade. A forma como escreve sobre si é enganadora, fala muito, mas mantém sempre um perímetro de segurança. Há quem discorde. Sobretudo pessoas próximas dizem que eu devia ter uma distância de segurança que não tenho.

Escrever sobre coisas íntimas não significa que esteja a escrever sobre a intimidade. Pois não. E, nesse aspecto, tenho absoluto controlo sobre a escrita: falo da minha vida íntima - com excepção da religião, que é um assunto íntimo do qual não falo - e não falo da minha vida privada, que não tem interesse nenhum.

Porque não escreve sobre a sua religiosidade? Não é um assunto com o qual eu tenha qualquer constrangimento, mas por ser um tema precisamente íntimo é demasiado privado para escrever sobre ele. Não me parece que a fé seja um assunto de discussão pública. Nessa matéria, sou muito protestante.

A entrevista é interrompida. Pedro Mexia não hesita quando a secretária da Cinemateca bate à porta da sua sala de director para entregar uma vintena de livros: a nova obra. Os livros recém-editados "estão quentinhos", como diz. O entrevistado distrai-se. Abre um exemplar, apalpa-o, folheia-o, confirma se era mesmo o que ele esperava. Perguntámos o que acha. Diz que sim, que está satisfeito. Trata-se de uma nova peça de teatro: "Nada de Dois". Para quem olha de fora, mais parece o pai de um recém-nascido a contar os dedos dos pés e das mãos. A ver se não falta nada. Afinal, está tudo bem. Podemos continuar a entrevista. A falar da vida. Do que há para lá da literatura.

Alguma vez teve crises de fé? Não, curiosamente nunca tive.

Sendo uma pessoa do discurso e das palavras, certamente não lhe será indiferente quem diz a missa. Escolhe o padre que ouve? Há uma velha expressão, que é a 'fé do carvoeiro', a fé simples, e sempre tive dificuldade com ela. É evidente que sou sensível à dimensão do discurso e da linguagem. Felizmente, tenho a sorte de haver, e só para citar duas pessoas mais que públicas, Tolentino de Mendonça, que conheci quando era capelão da Católica e que tem uma opção interessante, que é não tomar o mundo moderno como adversário, e D. Manuel Clemente, que dentro da Igreja portuguesa me parece ser o bispo com um discurso mais articulado e atento.

Confessa-se? A isso não vou responder. Faz parte da intimidade da minha vida religiosa.

Mas também diz muito sobre a maneira como se entrega à instituição e à prática. Posso dizer que a minha relação com a prática tem sido flutuante. Mais do que isto parece-me de mais.

Já as mulheres são o seu tema recorrente. Porque é que escreve e fala tanto sobre este assunto? Não percebo qual é a questão, parece-me um tema óbvio e não é nenhuma particularidade minha. Não há outro tema!

Acusam-no de misógino... E eu fico horrorizado. Mas percebo o que querem dizer. Tem a ver com a questão da valorização física. Mas que relação é que posso ter com uma estrela de cinema se não como objecto?

O que o atrai tanto nas mulheres? Do ponto de vista existencial, a um homem heterossexual, a mulher é o que mais interessa. É claro que há um mistério. Não foi à toa que Freud, o homem que estudou a mente humana, perguntou o que querem as mulheres. Porque o que os homens querem sei eu bem, e é melhor nem falar nisso.

E o que é? É uma coisa primária.

Sexo? São todas as formas de domínio. O sexo é apenas uma delas. O que os homens querem é bater no peito.

Como pode ter a certeza? Constata-se em tudo. O mais estranho é chamarem-me misógino quando as coisas mais violentas e ofensivas que já escrevi foram sobre os homens.

E o que as mulheres querem não se sabe? Pelo menos, não querem todas a mesma coisa. Logo isso desestabiliza bastante. Por exemplo, discutir o que é um homem giro é impossível. Não há acordo. Já os homens gostam todos do mesmo nas mulheres.

É assim tão consensual? Praticamente.

E considera a amizade masculina diferente da feminina? Sim. Prezo muito a amizade masculina. É um valor muito importante.

A camaradagem é uma coisa exclusiva da amizade masculina? Na minha experiência, é. Numa relação com uma mulher, num momento qualquer, passou aquela sombra sexual. Sempre.

Mesmo com uma amiga de escola? Sempre, a não ser que seja uma senhora de 80 anos. Houve um momento qualquer em que se pensou nisso. Não é possível não ter pensado. Isso constrange um bocado. A relação com os homens é boa, porque é natural. Somos animaizinhos.

Adora ouvir as conversas das mulheres? Gosto de ouvir as conversas todas, não mais do que as dos homens.

Escreveu uma vez que o gordo era sempre o bom tipo. Criou esta personagem? Acho desonesto ser crítico sem ser autocrítico. Não é uma personagem, mas acho graça. Nem é sequer a mais severa das autocríticas que faço. É uma espécie de disco pedido, na medida em que as pessoas acham graça. Mas fiz e faço autocríticas muito mais duras que passam desapercebidas. Essa é mais teatral.

Nunca pensou em fazer dieta? Não, e não é para não estragar o número. Não tenho paciência.

Escreve muito sobre a impossibilidade do casal. Não se casou. Este papel não lhe assenta? Não me assenta em que sentido? Há aquela exigência estapafúrdia que a lei faz do mútuo consentimento. Tenho tido alguns problemas com isso, mas não tenho nada contra o casal. Tenho muitas suspeitas, mas nada contra. Pelo contrário.

Nunca experimentou. Mas observo. Acho nomeadamente que a monogamia é uma conquista árdua, é uma disciplina.

Teria essa capacidade? Não faço ideia, nunca me casei. Nem é coisa que me preocupe muito. O casamento não é a única solução do casal. Sou conservador, ma non troppo. Não tenho nada contra a conjugalidade.

Gostaria desta experiência? De quê? Constituir família?

Sim! É normal, faz parte das aspirações normais da espécie.

Faz distinção entre conjugalidade e casamento? Socialmente, sim.

Na prática, não? O casamento religioso, para mim, é outra coisa. De resto, as fórmulas conjugais são irrelevantes.

Está a falar da sacralização do casamento? Sim. Isso levo muito a sério.

O casamento civil é um contrato como o leasing, não tem nenhum valor especial na minha cabeça.

Consegue dividir o seu espaço com alguém? Sem dúvida nenhuma.

Com certeza que terá as suas partilhas... Acontece. Mas nem a minha mãe se preocupa com isso dessa maneira.

Também tentou a vida política. Teve uma passagem efémera pelo CDS. Foi atrás do imaginário associado ao Independente? Foi exactamente isso.

Saiu do CDS-PP porquê? Como deixei qualquer tipo de militância política. Foi quando percebi que não havia diferença significativa entre o que os jornais chamavam de Nova Direita e o que eu conhecia bem, que era a Velha Direita. Achei que era perder tempo, ter intervenção política.

Mas tem um programa de rádio político ("Governo Sombra", na TSF)... Falo muito de política, mas num registo mais satírico. As ilusões políticas que eu tinha acabaram.

Quais eram? Era intervir no espaço mediático. Ter uma voz.

Mas convidam-no? Convidam, sim. Mas eu só aceito coisas laterais, como o lançamento do Paulo Rangel, porque tenho-lhe muito apreço intelectual e, na altura, ele ainda nem era cabeça de lista às Europeias.

O que é isso da Nova Direita? Alguém relativamente pacificado com o mundo em que vive.

O que os Gato Fedorento fazem é política? No sentido amplo, é, porque critica a linguagem. Não há nada mais político. Se os Gato têm uma obsessão é por analisar o uso da linguagem pública, do português e das frases feitas. Ninguém tinha feito isso como eles fizeram.

Mas também é muito à portuguesa... Muito brando, comedido... Não sei. Essas críticas vêm de pessoas que têm um agitprop sobre o humor. Acho mais interessante a forma como os Gato desmontam os mecanismos da retórica do que estar a interromper um comício com um megafone. Pode-se admirar a coragem física, mas não tem muita graça, e os Gato têm muita graça.

O que não quer dizer que a desconstrução da linguagem não pudesse ir mais longe... Os Gato nascem em grande medida no Herman, no coração da sociedade do espectáculo, e não a rejeitam em nenhum momento. Praticamente não houve recusas em ir ao programa deles. O que quer dizer que eles estão lá dentro e é lá que querem estar. O que me interessa é o trabalho que fazem. Até porque o dentro é falso, como a falsa graça que os convidados acham naquilo. Tem é mais efeito do que o humor, dito radical, que me parece pouco eficaz.

Tem vaidades? Acho que não tenho. Ser lido é uma ambição. Gosto da assinatura e do feedback. Mas não que me reconheçam na rua. Vaidade não é uma palavra que me ocorra.

Não tem vícios? O meu maior defeito é ser muito preguiçoso. Já fiz muita coisa, mas não fiz nada.

É a sua angústia? É. Deixar obra na área em que trabalho. Até agora só fiz tentativas. Não escrevi nenhum poema importante, nenhum texto que sobreviva à minha existência física.

Porquê essa preocupação? Parece-me um impulso básico. Mas só tenho essa ambição da obra desde que comecei a escrever.

O seu pai, um homem de cultura, que publica, acha que escreve futilidades? O meu pai não acompanha com o mesmo entusiasmo que eu o mundo moderno. Há aspectos do mundo e da linguagem moderna que ele não partilha.

Lê os seus blogues? Não. Eu não deixo.

Como? Basta ir ao computador... Não, o meu pai é info-excluído. A minha mãe, sim, mas eu dissuado-a sempre. Eles são as únicas pessoas que me poderiam fazer sentir constrangido no que eu quero escrever.

Porque é que os proíbe? O olhar dos pais! Nunca consigo ser lido apenas literariamente, há sempre uma curiosidade biográfica, e os pais nunca lêem o que o filho escreve como literatura. Uma vez, um senhor num lançamento disse: "A sua vida não me interessa nada, mas gosto muito do que escreve." Foi o melhor elogio que me fizeram. É isto que quero. Quanto mais as pessoas se interessam pela minha vida, mais constrangido fico.

Concorda com a frase de Clara Ferreira Alves de que a persona criada por Pedro Mexia foi a sua melhor criação? Vamos lá ver. Há uma persona enquanto artifício necessário da criação literária. A pessoa não está ali exactamente como é. Nem pode estar. Esta é uma dimensão. A outra é aquilo que pode ser confessionalismo da minha parte e voyeurismo das pessoas que lêem. Isso incomoda-me.

Há uma persona que é a construção de uma personagem pública que se chama Pedro Mexia? A literatura é literatura. Não tenho gosto em gerar qualquer espécie de curiosidade sobre a minha vida. A persona que está ali é uma construção literária, como é óbvio.

Em que você é personagem de si próprio? Sim.

Fá-lo com os meios que existem agora, mas essa estratégia sempre existiu na literatura. Claro. Os blogues, para mim, são uma forma de eu retomar a tradição essencialmente romântica da literatura autobiográfica.

É a sua escolha, mas pode gerar confusão. Não só pode como gera quase sempre. Mas fico à espera de pessoas que percebam. Assumo o risco.

Quando é que decidiu escolher este caminho literário? Em 2002 comecei a escrever o blogue e em 2003 as crónicas. A partir desse momento, tive de criar uma voz, um registo, que se foi impondo. Não foi espontâneo, mas também não foi deliberado. Fui aprendendo enquanto fazia. Mesmo este registo que tenho agora nas crónicas, provavelmente, não dura muito mais.

Qual o registo em que se sente no seu elemento? Se eu pudesse escolher uma coisa que sobrevivesse, ainda que pouco, seria a poesia.

Esse "ainda que pouco"... Lá está a sua persona outra vez. Não, é um cepticismo natural. A maioria dos escritores, quase todos, desaparece. E, quando escolho o que quero que fique, não me refiro à poesia já escrita, mas sim à que espero vir a escrever.

Porque não se dedica só à poesia? Porque gosto de experimentar. Agora, por exemplo, deu-me para escrever teatro. Mas os meus escritores fundamentais são poetas.

Disse há pouco que achava que o registo actual das suas crónicas no "Público" estava esgotado. Vai deixar de as fazer? Só se o jornal quiser. Este registo está planeado à volta de figuras históricas, artistas. Comecei em 2007, mas gosto de mudar de registo.

Já está a pensar no próximo formato? Tenho

um caderninho em que vou anotando ideias e temas possíveis e, se calhar, qualquer dia...

Mas não está a pensar acabar com a crónica? Não, gosto desse registo de escrita e, em termos etários, é o que chega a mais pessoas.

Quem são os seus leitores? Na crónica, recebo mails de todo o tipo de pessoas e de todas as idades, até estrangeiros. Sobretudo brasileiros. No blogue, não. São pessoas da minha geração.

Os seus amigos são sobretudo escritores e jornalistas? Nem todos são jornalistas. Mas quase todos passaram pelos jornais. Entre jornalistas, colunistas, gente da política, quase todos tiveram, ou têm, uma coluna nos jornais. É um facto. Não gosto especialmente de conviver com o mundo literário, portanto, não tenho muitos amigos escritores.

Porque é que não aprecia o mundo literário? É horrível. É a mesma forma sofisticada de bater no peito de que eu falava há bocado.

Os escritores consideram-no um deles? Depende. No mundo universitário, seguramente não. Há uma recusa mais forte. No meio literário, em geral, penso que sim. Também não procuro ser um deles. Não é um clube a que me tenha candidatado. Publico livros, as pessoas gostam ou não, mas há sempre o problema ideológico, inevitável. Tirando isso, não tenho razões de queixa.

Escreveu que "acabar com as expectativas é uma forma de acabar com as desilusões"... Impressiona tal cepticismo numa pessoa tão nova. Por acaso, escrevi-a no contexto de uma crónica a propósito dos jornalistas. Mas o pessimismo tem sido, na minha vida, uma espécie de doutrina infalível.

Também se refere sempre ao seu pessimismo crónico. É uma cautela. Mais vale sermos pessimistas e estarmos enganados do que o contrário. Mas nada disto é deliberado. É uma marca muito forte da minha personalidade.

O seu pessimismo é uma espécie de ideologia? Sim, no sentido em que é um programa de vida. Todas as vezes em que me enganei clamorosamente na vida foi porque fui optimista. O contrário nunca aconteceu. Nunca.

Mas a vida não lhe corre mal. Quando me referi às vezes em que me enganei porque fui optimista estava, sobretudo, a referir-me a situações pessoais em todas as dimensões. Mas já tive acessos de optimismo violento. Alguns até documentados em livro, para minha vergonha.

A Cinemateca foi o seu primeiro emprego. Foi difícil a transição de uma vida de escritor para um emprego com horários fixos? Curiosamente, não. Tive de me adaptar. O meu sono é que se ressentiu. Escrevo e leio pela noite dentro.

E transformar-se em chefe foi complicado? Não tenho nenhum gosto especial pela hierarquia. Espero não ter a postura de chefe. Talvez por ser muito individualista, faço o que me cabe: não me meto na vida das pessoas e espero que façam o mesmo comigo. Para o que eu não estava preparado era para o peso e para a lentidão do Estado. A Cinemateca é Estado. Há uma série de lógicas que me escapavam, e ainda escapam, porque tornam as coisas demasiado lentas. Percebo-as, mas não concordo.

Porque continua director interino? Ainda não foi nomeado um definitivo. Sou o mais longo director interino...

A nova ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, já disse o que espera de si? Só falei uma vez com ela. Disse-me que estava a tomar conhecimento dos dossiês e que sabia que a Cinemateca tem uma lacuna na direcção.

Ela sabe que não queria esse lugar? O que eu disse sempre foi que, num órgão com duas pessoas, estas devem ter personalidades que se completem. Tenho noção do que faço bem e daquilo para que não tenho vocação. A Cinemateca tem uma dimensão institucional para a qual eu não tenho vocação. Gosto da segunda linha, de escrever textos, de programar... Até tenho convivido melhor do que esperava com os aspectos burocráticos e administrativos. Mas acho que a Cinemateca devia ter na sua direcção alguém com um lado de anfitrião e de orador.

Quando foi convidado, pouparam-no às críticas do meio. É possível. Em público. O que houve foi uma estupefacção geral.

Como foi o seu primeiro dia de trabalho? Vim para a primeira sala onde estive na Cinemateca, além das salas de cinema, porque o então director, Luís de Pina, era amigo do meu pai, e eu vim falar com ele para me aconselhar. Ele trabalhava nesta sala.

Nunca lhe passou pela cabeça ir para a sala que era do João Bénard da Costa? Não. Estou como director interino, e o interino é por definição transitório.

Quem são as pessoas que chegam hoje com 17 anos à Cinemateca? Hoje pode-se ser cinéfilo, e até erudito, sem vir à Cinemateca. Claro que é diferente ter uma cultura cinematográfica vista em sala ou vista em DVD e tirada da Net. A experiência sensorial, social, comunitária... o cinema em sala, com outros à volta, tem um lado ritual que o cinema visto em casa não tem.

Preocupa-se em manter-se como um novo cinéfilo? Vou acompanhando. Aquilo que se pode chamar como o cinema de autor tento seguir, todos os anos aparecem cineastas interessantes. Acho que a Cinemateca tem, cada vez mais, incorporado toda esta movimentação à volta dos indie's e dos doc's, essa atenção ao cinema que está a ser feito agora. Sempre com a noção de que a vocação principal da Cinemateca não é estrear filmes.

Não costuma escrever sobre cinema português. É verdade que nunca escrevi muito. Nos meus gostos indefectíveis só há o João César Monteiro. Defendo tudo o que ele fez. O cinema português é um objecto um bocadinho estranho. Tem uma espécie de esquizofrenia autoral-comercial, falsamente comercial. Claro que há autores importantes, como o Paulo Rocha, o Pedro Costa, que agora se tornou, estranhamente, uma figura de culto internacional.

Estamos nesta casa e não fala de Manoel de Oliveira? Não sou um incondicional de Oliveira, como o era João Bénard. Tem um lado didáctico ou patriótico no qual não me revejo. Mas tem uma coisa notável, que é uma obra totalmente feita nos termos em que ele a quis fazer. Em pleno PREC, quando se faziam filmes sobre ocupações, o Oliveira filma uma peça do Régio sobre uma falsa Virgem Maria, a "Benilde". Isso é admirável em qualquer artista. Agora, voltando ao cinema português, há um dilema: num mercado tão escasso, sem grande possibilidade de exportação, para que público é que se faz filmes? Até agora tem triunfado a ideia de que é um cinema para festivais e, enquanto opção pública, decidiu viver neste circuito. É uma opção discutível, porque também me parece importante que o Estado deva evitar o mais possível ter uma política de gosto. Neste sentido, estou de acordo com algumas críticas à política de financiamento. Isto é a quadratura do círculo: como é que se pode apoiar financeiramente objectos culturais que não existiam sem dinheiros públicos e como não tornar isto uma política de gosto oficial, financiado por todos e decidido por um grupo restrito? Este é o problema.

Gostaria de permanecer na Cinemateca num segundo lugar? Gosto muito da casa, funciona bem, o que não é muito evidente entre os organismos da Cultura. Fazem-se aqui coisas estimulantes. Tenho tido uma boa experiência.

Vê no nosso panorama cultural pessoas com o perfil de director? A Cinemateca precisa de um novo director e não de um novo João Bénard da Costa. Porque isso não há, com aquele conjunto de qualidades e talentos humanos, literários, de conhecimento, pessoais...

Tem ideia de alguém para o cargo? Tenho e falarei com a ministra. Posso dizer, contudo, que a ideia que tenho para o perfil do director há ano e meio é diferente da actual.

O que é que mudou? Pensava que teria de ter aptidões da cultura cinéfila, mas essa é apenas uma das partes. Programar e escrever sobre filmes será provavelmente um terço do total. Claro que é importante que saiba alguma coisa sobre cinema, mas...

Esta poderia ser a sua atribuição? Não sei, haverá um novo director.

Voltando a si: já fez psicanálise? Sim.

Gostou da experiência? Não. É um entretenimento intelectual. É interessante conversar com pessoas inteligentes sobre assuntos inteligentes.

Deitado no divã? Sim, sim. Hardcore.

Não lhe disseram nada que o surpreendesse? Não! Levo anos de avanço!

Tem assim tanta prática? Totalmente. Experimentei a psicanálise esporadicamente. Depois fiquei farto de conversar às quartas-feiras com aquele senhor. Não me trazia nada. Mas tenho um grande fascínio sobretudo por Freud.

A auto-análise é um exercício duro. Nem todos são capazes. A escrita ajuda muito. A escrita autobiográfica começou com as confissões de pecadores...

Tem 36 anos. Escreveu que só agora tinha chegado à idade adulta... Não foi aos 36 anos. Acho que disse isso para aí aos... aos... 35?

O que é que provocou o rito de passagem? A última oportunidade que dei ao optimismo. A maior lição que tive nos últimos anos que contribuiu para o meu crescimento pessoal foi perceber que não há relações a dois. Nunca há relações a dois. Estamos sempre num palco com os outros a olhar. Como tenho uma costela romântica, no sentido literário, acreditava que as relações, e aqui estou a falar de todas as relações, podiam ser one-to-one. E não podem. Tudo é sempre tudo em público. Descobri-lo foi um golpe muito forte. Portanto, a partir daqui, espero não ter mais nada para aprender.