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Como é estudar num colégio interno

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Vivem em colégios, longe da família, com rotinas e horários rigorosos. Alguns nem ao fim-de-semana vão a casa. Tudo em nome dos valores morais e de uma melhor educação.

Alexandra Simões de Abreu (www.expresso.pt)

Teresinha, 13 anos, mostra um sorriso franco - enfeitado por um aparelho -, quando afirma que veio para o internato do Colégio Nossa Senhora da Bonança, "porque quis", embalada pelas aventuras da colecção de livros "O Colégio das Quatro Torres", de Enid Blyton. Mas sobretudo por influência da irmã Isabel, de 16 anos, que não se adaptou à escola pública e pediu aos pais para regressar ao privado, ainda que tal implicasse o internato.

O que leva os pais a optar por colocar os filhos em regime de internato, a alguns quilómetros de casa? E quando são os próprios filhos a pedir para frequentar um desses colégios, o que os move? Aparentemente a resposta é a mesma em ambos os casos: a vontade de garantir melhor educação e formação. Até porque, cada vez mais, isso pesa no currículo. Visitámos dois colégios de Vila Nova de Gaia - o de Nossa Senhora da Bonança (CNSB) e o Internato dos Carvalhos (CIC) - que têm regime de internato, mensalidades caras e boa posição no ranking das escolas (nomeadamente no secundário - CIC 11º e CNSB 26º).

No caso de Teresinha e Isabel viviam ambas em Vila Real, onde frequentavam o Colégio Moderno de S. José, pertencente à congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (a mesma do CNSB), mas sem regime de internato. Quando Isabel teve de deixar o ensino privado para ingressar numa escola pública, na Trofa, as coisas não correram bem. "Nunca se adaptou. Dizia que os colegas não eram amigos, não sabiam comportar-se dentro da sala de aula, faltavam ao respeito aos professores e que não conseguia concentrar-se. Só me pedia para voltar a um privado", explica a mãe, Leopoldina Lousada, de 46 anos.

Famílias sem tempo

Isabel teve de insistir e esperar que Teresinha finalizasse o 7º ano até que os pais aceitassem a ida de ambas para Gaia, uma vez que em Vila Real não havia nenhuma outra opção como a queriam para prosseguir os estudos. "Custou-nos mais a nós do que a elas. Ainda hoje o pai chora quando as vai pôr ao colégio, no domingo à noite. O primeiro ano foi horrível. Estávamos sempre à espera que o telefone tocasse com uma delas a pedir para voltar... mas não. Elas adaptaram-se bem", confirma orgulhosa a mãe.

A cedência ao pedido da filha mais velha deveu-se em primeiro lugar ao facto de terem condições económicas para o fazer, mas também ao "hábito de satisfazer todos os seu pedidos" e à vontade de lhes proporcionar uma "boa educação e formação". Por outro lado, tanto Leopoldina como o marido têm profissões que não permitem uma vida em família com horários normais. "Sou enfermeira. Trabalho por turnos. O meu marido é empresário, sai de manhã e chega à noite. Os nossos horários não se adaptam aos do ensino público. E depois era mais as actividades, o inglês, as aulas de informática e de piano...". Leopoldina ainda ponderou trocar de hospital, para poder acompanhar as filhas e evitar o internato mas... "Quem faz uma transferência sem perder o quadro definitivo? Eu não podia ir para a situação de contratada ao fim destes anos todos. Depois, o meu marido tem a família toda em Vila Real. Considero que estão melhor assim, tanto a nível escolar como de formação moral e de valores", conclui.

As irmãs frequentam há um ano o CNSB e garantem não estarem arrependidas pela escolha, embora Teresinha reconheça, com pena, que as travessuras das personagens de "O Colégio das Quatro Torres" nunca puderam ser copiadas. "O livro é ficção. Lá elas faziam partidas umas às outras e não eram apanhadas. Aqui...", deixa no ar, mirando pelo canto do olho a madre Elisa Cortês, responsável pelo colégio, que se mantém no corredor numa tentativa de deixar as alunas mais à vontade.

Bruna, de 14 anos, ri-se da expressão da sua "mana branca", como carinhosamente trata Teresinha. Natural de Moçambique, veio para Gaia o ano passado "para melhorar notas e não esquecer o português". Diz que já está habituada ao internato, pois desde o 7º ano que andava num colégio, na África do Sul.

Será só por causa do ensino que os colégios internos parecem a melhor opção para os pais? Bruna não esconde que os seus "estão separados, andam sempre de um lado para o outro" e que "começaram a ficar sem tempo por causa do trabalho". Com um pai empresário e a mãe representante das Nações Unidas no Botswana - "entretanto vai mudar para a Mongólia" -, garante que não lhe custou adaptar-se, apesar de ter deixado para trás sete irmãos. "É só meter na cabeça que agora é isto e pronto. Aqui também é uma família", reforça, enquanto se encaminha com as colegas para a sala de jogos.

Fugir às distracções

Os saltos altos de Alexandra Chino, 16 anos e a mais velha do grupo (está a concluir o 12º ano), fazem-se ouvir no corredor frio com chão e paredes de azulejo. Quem a visse na rua, não imaginaria que frequenta um colégio interno, até porque aqui o uso de farda só é obrigatório até ao 9º ano. Morena, de olhos sublinhados a preto, a condizer com o resto da roupa, é com à-vontade que assume estar ali porque quer. "Estudava numa pública em Alfândega da Fé, mas não estava a conseguir o que queria". E o que queria? "Melhorar notas", diz, espantada com a pergunta. "Por isso pedi para vir para cá o ano passado. A relação com os professores é muito melhor. Dão-nos mais atenção, temos mais acompanhamento, aulas extra. No público não há essa preocupação. Aqui tenho objectivos bem definidos e tento fugir às distracções".

Mas que distracções poderão ter as 16 internas que passam o dia e a noite metidas no mesmo espaço, com pouca ou quase nenhuma permissão para sair à rua - "só com autorização dos pais é que podem ir a algum lado ou sair com alguém", confirma Madre Elisa -, com horários de estudo rígidos e restrições no uso do telemóvel, do computador, etc? Nos poucos tempos livres que têm durante a semana elas vêem televisão, consultam a Internet - mas não podem levar o portátil e o telemóvel para o quarto -, ouvem música, jogam matraquilhos e snooker, entre outras actividades permitidas na sala de jogos, na sala multimédia ou na sala de estudo.

Rotinas rígidas

Tudo isto passa dentro de uma rotina instalada. Acordam às 7h e fazem uma oração conjunta com as 19 irmãs que também vivem no colégio. O pequeno-almoço é servido às 7h45, e às 8h20 começam as aulas, que se prolongam até às 16h30, com almoço pelo meio. Depois do lanche e a partir das 17h é tempo de estudo numa sala de aula até às 19h45, hora do jantar. Segue-se um período de convívio até às 21h, altura em que as alunas são obrigadas a novo estudo até as 22h30. Às 23h apagam-se as luzes. É assim quatro dias por semana. Pelo menos para aquelas que vão a casa à sexta-feira e regressam domingo à noite. Mas há quem só veja a família de 15 em 15 dias ou nas férias. Para estas, há permissão para acordar mais tarde durante o fim-de-semana e algumas têm autorização para "dar uma voltinha até ao El Corte Inglés ou ir a uma papelaria se precisarem", assegura a Madre Elisa. O resto do tempo é passado a ver filmes, a jogar, a conversar, a navegar na Internet, mas também a estudar.

A poucos quilómetros dali, a rotina dos 52 alunos internos do Colégio Internato dos Carvalhos é praticamente a mesma. A diferença maior é o facto de não terem nenhuma oração agendada, apesar do carácter religioso do colégio (todos os alunos, quer externos quer internos têm obrigatoriamente aulas de religião e moral), e a hora de estudo depois do jantar ser feita na secretária do quarto, individualmente e em silêncio, em vez de na sala de estudo. Pelo menos uma vez por semana uma dessas horas é substituída pela actividade extracurricular como ténis, musculação, taekwondo, râguebi, ginástica artística, andebol, piano, bateria, viola baixo, entre outras, que escolheram.

A maioria dos internos também pertence à classe média, média/alta e são filhos de pais que procuram uma melhor educação e formação para os seus filhos. Alguns já mesmo em desespero, com receio de desvios de comportamento. Francisco Faria, 16 anos, é um desses casos. Frequentava uma escola pública, chumbou dois anos e os pais decidiram agir. "Vim para o 7º ano. Agora estou no 9º. Foi tipo castigo para ver se aprendia a portar-me melhor", explica, para confessar logo a seguir: "Foi uma lição de vida. Percebi que não ia a lado nenhum por refilar. Aqui há uma afectividade muito grande dos professores com os alunos o que me causou boa impressão e ajudou a perceber que isto não é uma prisão, nem um terror. Ao contrário de uma escola pública onde as pessoas passam mais tempo a agredir-se, aqui aprendi a conviver, a ajudar os colegas e até a estudar". E sem se deter, sublinha: "Ao princípio revoltei-me e pensei que os meus pais não gostavam de mim, mas depois percebi que é o contrário. Meteram-me aqui para ser alguém, ainda que isso implique esforço económico e pessoal, por causa das saudades".

Saudades de casa

A saudade, curiosamente, é palavra que as raparigas do CNSB evitam ou encaram de forma mais crua do que os rapazes. Estes usam-na muitas mais vezes no seu discurso, nomeadamente os mais novos que estão pela primeira vez no CIC. Como José Almeida, de 11 anos, aluno do 5º ano, que acabou de chegar de Estarreja. "As saudades foi o que custou mais. Estar aqui sozinho... Ter de estudar muitas vezes", diz de olhos baixos. "Ainda lhe custa", observa António Cunha, 54 anos, o prefeito que também dorme todos os dias no colégio com os internos. "Quantas vezes passo pelo corredor e ouço-os a chorar dentro do quarto. Alguns até vêm ter comigo a meio da noite porque não conseguem dormir. Coitados. Tenho pena deles...", resume.

Isidro Pinheiro, professor de moral e religião é responsável pelo internato e acompanha diariamente os alunos até quase às 23h. Reconhece que, "tanto pais como alunos sabem à partida que vêm para uma escola diferente" e que isso em termos psicológicos "ajuda para uma maior aceitação da disciplina e do rigor". Insiste que a maior parte dos alunos "já vêm com valores e educação, falta-lhes é regras, porque muitas vezes estão sozinhos", ressalvando no entanto: "Podemos fazer um esforço enorme, mas não há nada que substitua o afecto dos pais e da família".

Quanto a castigos, ter mais horas suplementares de estudo e ficar sem o telemóvel, são os mais comuns. E nos dias que correm a restrição no uso do telemóvel é das regras mais contestadas pelos alunos, sobretudo os do básico que só recebem o telemóvel às 17h30, tendo de entregá-lo à hora do último estudo. Já os do secundário têm autorização de ficar com o telemóvel no bolso, mas ai dele que toque numa sala de aula.

Namorar sim mas sem mostrar

"A medida no telemóvel foi tomada há três anos, com o apoio dos pais", sublinha o padre Joaquim Cavadas, director pedagógico e administrador do CIC, orientado pela Congregação dos Missionários Claretianos.

Para comportamentos mais graves o CIC recorre à suspensão. E se definitivamente o aluno não se adaptar então os pais são chamados para uma conversa onde, segundo Isidro Pinheiro, "em consenso" chegam à conclusão de que o melhor é o aluno ir para outro estabelecimento de ensino. "Não queremos cá ninguém obrigado e os pais percebem. Também não estão para gastar dinheiro em vão", justifica.

Tanto no CIC como no CNSB, há outras regras que não são do agrado de muitos jovens, embora estes acabem por aceitá-las (mesmo os que estudam lá em regime externo). Vejamos alguns exemplos: fumar, calças rotas, decotes exagerados e calções de praia estão proibidos no CNSB. No CIC, a juntar a estas regras, é proibido o uso de brincos pelos rapazes do básico e os namoros, sendo permitidos, não podem implicar "manifestações públicas de sentimentos". Apesar de ter dado uma volta de 180º graus no comportamento e estar "rendido ao internato" Francisco Faria não consegue deixar de comentar: "Aceito isto pelo colégio que é, mas não concordo porque os sentimentos foram feitos para se exteriorizarem".

(Reportagem publicada na Revista Única / Expresso, edição de 24 de Outubro 2009)