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Ser estúpido tem ciência!

O professor catedrático Vítor Rodrigues sistematizou a estupidez. Quer que a Estupidologia evolua para ciência, desta para a inteligência. Clique para visitar o canal Life & Style.

Luís Pedro Cabral (www.expresso.pt)

Não é preciso ser muito esperto, nem provavelmente muito estúpido, nem um estúpido mediano, nem um estúpido acima da média, mesmo até um excelente estúpido para perceber que a estupidez, não estando oficialmente classificada como património da humanidade, será eventualmente das mais protegidas, sendo que os estúpidos estão longe de estar em vias de extinção. Não vamos por aí. Vamos antes ao tema, pela voz do professor Vítor J. Rodrigues, psicólogo clínico, professor catedrático, autor da Teoria Geral da Estupidez Humana e da Nova Ordem Estupidológica, dois volumes sobre o tema indomável da estupidez, sobre os pequeníssimos passos estúpidos que, pé ante pé, vieram de tão longe. Não é fácil, o tema da nossa estupidez. Até porque isso pode parecer estúpido, pode suscitar perplexidades perigosas, até algum desencanto com determinadas formas de estupidez, individuais, sociais, culturais, patológicas. A máquina colossal da estupidez tem propulsores naturais e uma forma ímpar de canibalismo que sustenta a sua cadeia alimentar.

"As provas da importância da estupidez nos assuntos humanos e da consequente necessidade do seu cultivo são tão esmagadoras quanto as da inadequação da inteligência num mundo que não foi feito à sua medida", diz o professor Vítor Rodrigues. E o pior é que "estamos tão estreitamente familiarizados com a estupidez que já nem damos conta do grau em que se insinua nas nossas vidas e as influencia", adverte. Correndo o risco de parecer sabemos o quê, sendo o espectro da estupidez tão esmagador, como se definirá uma unidade de estupidez, caro professor? A resposta está no livro. É bem clara: "O estúpido é alguém que, para resistir à inteligência, estreita a sua mente, ignora informação, fecha-se em si mesmo. Retrai-se perante toda a dilatação de horizontes induzida pela inteligência. A estupidez pode ser parcelar ou generalizada a todo o aparelho psíquico, espontânea ou cultivada, amplamente manifesta ou subtil", denuncia.

A cenoura à frente do burro

Segundo Vítor Rodrigues, "a inteligência tem sido sempre preterida pela estupidez, talvez porque esta funcione melhor na nossa sociedade. É mais rápida, emperra-nos menos, exige menos de cada um de nós. A impulsividade, ajuda muito. São emoções primárias, extrínsecas, pouco elaboradas pela inteligência. Toda a sociedade de consumo é construída através dessas motivações. Isso é como pôr uma cenoura à frente do burro".

A Teoria Geral da Estupidez Humana é uma análise às profundezas da nossa estupidez e, parecendo antagónico, mais um passo para o seu conhecimento no vasto território que é a Estupidologia. Só reconceptualizando a estupidez no léxico dos nossos tempos se terá vislumbre da sua verdadeira face, "das diversas demonstrações estupidológicas quotidianas, à percepção estúpida das coisas". Sistematizando, recapitulando a história da estupidez, as suas múltiplas formas, explícitas, implícitas, as suas características relacionais e afectivas, desde os primórdios estupidológicos ao que o professor Vítor Rodrigues define como a "douta estupidez", das formas indeléveis da "estupidez artística à metafísica da estupidez".

Mas, senhor professor, dar corpo à estupidez não é perigoso? "A repressão da inteligência é um perigo incomparavelmente maior. Estamos nos transe de fecho. Estamos ensinados a negar os problemas do mundo. Há quem use drogas para expandir a mente. A estupidez é a droga da antítese".

Se não, vejamos: Num meridiano qualquer da nossa circunferência pode uma bomba nuclear ter derrubado um prato de sopa. E nessa altura alguns de nós estarão a viajar de Metro, pela frescura quente da manhã, enlatados na rotina, mão ao alto, bolas suadas nos recantos de camisas engomadas, amparando as pequenas ondas de choque, evitando a todo o custo uma colisão com alguém com quem não queremos falar, muito menos pedir desculpa pelo incómodo. Nos nossos carros, apitamos vigorosamente para o tipo da frente, que deixou um peão atravessar a dois centímetros da passadeira, anda lá, pá!, depois atiramos para o chão um maço sem tabaco, fazemos pequenas, médias e grandes descargas poluentes no sítio que habitamos, pregamos terapias para o aquecimento global atirando gasolina para a fogueira, e andamos por aí, contentes da vida, a tentar passar a perna aos outros com falsos altruísmos. Coisas minúsculas, tornam-se pequenas, de pequenas crescem para grandes, e as grandes ultrapassam os nossos próprios limites. Se houvesse limites para a estupidez, onde é que eles já iam? "A ciência da Estupidologia não tem limites. A energia pela qual as pessoas se regem é a negação da inteligência profunda, onde se encontra também o amor, neste a consciência social, sexo, violência, medo, desejo. Se não fosse a artificialidade em que vivemos, teríamos o comportamento de animal irracional", ironiza.

Nós, os humanos, somos estranhíssimos

Guerras se combatem com armas, inimigos se desfazem com armas, homens enriquecem assim, homens se matam assim, por relógios, por trocos, território, por qualquer coisa que não está na sua posse, qualquer coisa que a eles pertence na grande herança do crime. Pequenas e grandes anarquias viajam nesse Metro metafórico, confluem na dispersão das suas paragens, na imensa, imensíssima chaise longue da nossa psicanálise, usando orgulhosamente as nossas máscaras, disfarçados de nós, corrompendo, aniquilando, reinventando o nosso pior. Olhamos para os que andam na contra-regra como ponteiros que derivam para a esquerda.

Assim corre o mundo, a tropeçar nas suas pernas, fazendo reféns entre a minoria que pensa por si. Se a cotação do barril de crude subir exponencialmente, é possível que em Portugal aumente o preço da bica. A estupidez é global. Viaja muito mais rápido que nós. O mundo inteiro está como o fígado de um pato para o foie gras. Tudo bate certo e nada faz sentido, na longa cavalgada estupidológica. O nosso amanhã chegou ontem. O nosso futuro já está ultrapassado. Temos medo do escuro. Somos as nossas trevas.

Somos quantos, a dividir pela nossa exacta medida? Andamos à volta de sete mil milhões no mundo. Somos talvez uns onze milhões de crianças a morrer de subnutrição, uns bons 307 milhões de pobres que habitam a geometria do nosso desprezo estupidamente infinito, infinitamente estúpido, uns 815 milhões sofrem de problemas crónicos resultantes de subnutrição grave, vinte e cinco milhões de crianças órfãs da sida. Há perto de dois milhões de crianças a trabalhar na imensa indústria do sexo enquanto estamos a dormir. Em cada trinta segundos, trinta segundos, uma criança morre, vítima de malária. Há 777 milhões de pessoas com fome no exacto momento em que nós pedimos a conta. Neste preciso momento, agora, agora mesmo, alguém foi assassinado. E neste momento alguém morreu de causas naturais. Seremos justos uns com os outros, senhor professor? "Isso é uma pergunta retórica".

Temos leis, regras, coisas, gadgets, GPS, airbags, usamos marcas dos pés à cabeça, somos escravos pós-modernos ou simplesmente escravos, somos os novos-ricos e os novos-pobres, temos vidas inversamente proporcionais ao nosso talento, queremos ligar para um desses números de empréstimos a taxa de juro muito acima das nossas possibilidades para termos mais que o vizinho. Queremos ser e não deixamos. Somos pedintes, alguns desgraçados, uns impedidos de ser, uns podiam ter sido. Somos esmolas uns dos outros, fazemos descontos para a velhice, perdemos a juventude nesse processo, nesse processo executamos o número do nosso desaparecimento, aprendemos a ser da manada e ensinamos a manada a ser como nós. Somos estranhíssimos, o mais fraco é melhor, o mais forte é mais fraco, somos a crédito, temos botox, maminhas novas, identidades lipoaspiradas, temos oferta ao consumo por todos os cantos, umas atiradas à cara, outras subliminares, somos almas que suam em ginásios, correndo para lado nenhum sobre um tapete cardiorolante, indo para o duche depois de percorridos alguns quilómetros na longa marcha do retrocesso. Voamos para a lua. Mandamos sondas para Marte. Temos quase a certeza que há água muito para lá do nosso copo. Somos provavelmente a nossa melhor invenção depois da internet.

Ter a noção da nossa estupidez é meio caminho andado 

Impressionante rosário, certamente um contributo inestimável para a ciência da estupidologia, são as estatísticas da humanidade em desumanidade. A I Guerra Mundial deixou 37 milhões de cadáveres. Na II Guerra Mundial terão sido uns 50 milhões, sendo que seis milhões o foram porque eram judeus. Seria fastidioso viajar para os tempos dos nossos primos ancestrais, pôr uma rolha na Idade Média, seguir directo para os três milhões de índios americanos que não resistiram aos espanhóis, talvez os 78 milhões da revolução chinesa, talvez o Cambodja, a Arménia, os comunistas na Indonésia, às mãos de Suharto, o Vietname, os tutsis no Ruanda, Burundi, Serra Leoa, Haiti, Chade, Uganda, o Kosovo, Darfur. Venha um estupidólogo e escolha. Se isto não é estupidez pura e dura, de incontabilizável potencial energético, então é porque andamos todos certos e a estupidez é, afinal, a fórmula de uma estranha inteligência, em simultâneo o efeito da nossa causa e a causa do nosso efeito.

Ter a noção da nossa parcela de estupidez, salienta o professor, é já caminho percorrido. Na sua qualidade de professor universitário ensina isto sempre que pode. Na actividade de psicólogo clínico, faz o que é possível. Trata caso a caso no sigilo do seu gabinete, cada um com a sua referência estupidológica específica na grande patologia planetária. Conhecendo os parâmetros da nossa estupidez, não é de estranhar que o professor, segundo o próprio, seja inúmeras vezes convidado para dar conferências por todo o mundo, e em Portugal tenha quase de limitar-se aos workshops para 'estúpidos' conscientes, que só querem ser felizes e aprendem a não ter medo da cura.

A estupidez devia ser considerada uma ameaça pública. Devia ter mandados de captura por toda a parte. E não deixa de ser curioso que para interromper o ciclo voraz da estupidez se tenha que começar a desenvolver piores estúpidos. Para inverter o paradigma é necessário muito mais energia. Um certo tipo de energia, que só se obtém desligando o interruptor. Mas essa é outra ciência.

(Texto original publicado na Revista Única  da edição do Expresso de 05 de Dezembro de 2009)