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Comportamento

A barreira de ser feio

A sociedade actual impõe rígidos padrões de beleza, praticamente inalcançáveis. Falámos com pessoas normais (feias?) que vêm provar que, afinal, beleza não é fundamental

Bernardo Mendonça e Christiana MArtins (www.expressso.pt)

ODETE SANTOS, 68 ANOS

Uma boneca disforme, medonha, desdentada e cheia de rugas. Foi desta forma que a advogada e ex-deputada do PCP, Odete Santos, 68 anos, foi representada em tempos no programa de humor Contra-Informação, da RTP. Era uma imagem caricatural e exagerada do seu rosto. Ela mostrou fair-play. "A 1ª imagem não correspondia nada aquilo que eu era. Excepto no conteúdo. E, por isso, achei graça às palavras que a boneca dizia. Quanto ao aspecto, a minha posição foi de expectativa. O que pensaria a opinião pública?" A resposta não se fez esperar. Odete assegura que se gerou um movimento de desagrado por parte dos telespectadores. "Porque se tratava de uma imagem que não correspondia minimamente ao que eu era. E essa rejeição da opinião pública deu origem a uma pequena vitória: a substituição da boneca". Sobre os seus traços fisionómicos, Odete considera-se "vulgar". Nem feia nem bonita. Mas não se detém muito no assunto: "Quem ama o feio bonito lhe parece. Por privilegiar mais o conteúdo do que a forma, confesso que nunca me preocupei com o meu aspecto. Dizem que não tenho boa imagem. Dizem também as pessoas que me conhecem desde nova que eu era bonita. Devo ter perdido qualidades...". Para a sessão fotográfica chega de cabelo arranjado. Aí reside a sua vaidade. "Vou uma vez por semana ao cabeleireiro". Ao longo de toda a vida política rejeitou aconselhamentos de imagem. Gosta de si como é. Frontal e autêntica. Mas sabe bem a importância da aparência na política. "Por vivermos num mundo da política-espectáculo, uma boa imagem de um político é como o código postal: é meio caminho andado", graceja. 

CARLOS MIGUEL, 66 ANOS

"Será que eu sou realmente bom actor? Ou a minha carreira nos palcos e na TV apenas se deve ao facto de ser excessivamente magro?" Esta é uma dúvida que o acompanhou toda a sua vida. O artista conta na sua carreira com a participação em centenas de espectáculos de revista à portuguesa, o seu género preferido, mas foi no popular concurso 1,2,3, na década de 80, que se tornou largamente conhecido e apreciado pelo grande público como o "fininho". Um apelido que se lhe colou à pele. O corpo esquálido, olhos azuis grandes como dois holofotes, o rosto expressivo, esquisito, maleável como plasticina, e o seu talento para fazer de cinco minutos de cena um espectáculo de risos e emoções tornaram-no um fenómeno de audiências. Para trás ficaram os tempos de juventude em que era preterido pelas raparigas e pelos encenadores por ser "magro, feio e teso". Acabou por vencer esse muro. "Geralmente o actor talentoso é feio. Não é galã, não se preocupa com a imagem mas sim com representar bem..."

DIOGO FEIO, 39 ANOS

É Feio, mas sempre teve a sabedoria, garante, "de distinguir o nome do adjectivo". Foi com fair-play que o eurodeputado ultrapassou eventuais incómodos que tentassem lhe impor. Nem quando, por volta dos 12 anos, os colegas da escola gostavam de fazer anedotas com o seu apelido. Mas confessa que até gosta da sensação de, no Parlamento Europeu, lidar com deputados que, pela primeira vez, não associam o seu nome a um qualificativo da imagem. Sobre si, diz que a aparência "é perfeitamente normal". E sublinha que, "o que para uns pode ser uma desvantagem, para outros pode representar uma mais-valia. É um tema muitíssimo subjectivo". Argumenta ainda que, o que "os eleitores querem são pessoas normais, parecidas com eles". Embora a sua imagem possa não corresponder aos ideais clássicos de beleza, diz que esta "nunca foi uma questão". Sabe, contudo, que desenvolve uma actividade em que "o aspecto televisivo tem muita importância". Defende que a fotogenia importa, mas "não é determinante". Mas lá vai tendo atenção na forma de falar, de vestir, sem recorrer aos serviços de especialistas.

GINA GEADAS, 37 ANOS

Há dois anos era uma mulher-montanha. A sua cara e corpo pareciam insuflados. Pesava 140 quilos distribuídos por um corpo de 1,70 metros de altura. Sofria de obesidade mórbida, o que durante muitos anos lhe colocou em risco a vida e a auto-estima. Começou a engordar aos 18 anos. A gula por doces e a vida sedentária fizeram com que o seu físico alargasse, ano após ano, até chegar a medidas que nunca tinha imaginado para si. "Fiquei disforme. A minha vaidade tinha-se ido embora, Desisto, pensei". Passou a ser conhecida como "Gina, a gorda". Era olhada e apontada na rua, motivo de chacota e piadas. recusada nas entrevistas de emprego. A sua fuga eram os doces. Cedo começou a ter problemas de hipertensão e de incontinência. Foi a gota de água. Após aconselhamento médico, submeteu-se a um by-pass gástrico, reduzindo o tamanho do estômago. Perdeu 60 quilos. O seu lema é nunca desistir. "A beleza está sempre em nós". Neste processo de transformação, criou o blogue , onde partilha a sua experiência e aconselha outros obesos. Hoje é a madrinha (da cura) de muitos deles... 

ANÍSIO FRANCO, 45 ANOS

As crianças ficam fascinadas com o seu aspecto. Admiram-no e sentem-se atraídas por ele. A careca. O rosto branco, macilento. Os olhos azuis, fundos no rosto. As olheiras marcadas. Os dentes caninos salientes. Tudo no rosto de Anísio Franco, 45 anos, conservador do Museu de Arte Antiga de Lisboa, remete para o vampiro Conde Drácula, uma personagem com gosto por sangue criada pelo autor irlandês Bram Stoker, no clássico romance "Drácula", de 1897. "Os filhos dos meus amigos adoram que revele os meus dentes caninos. E eu divirto-me com isso. São os meus cúmplices. E eu sou o herói deles. Faço de vampiro bom". Sorri. Anísio gosta do que vê ao espelho. Tem orgulho na estranheza do seu rosto. "A minha fisionomia e dentição são invulgares, marcadas. Isso diferencia-me dos demais, torna-me único. A minha aparência tem muito a ver com o universo gótico, com o imaginário romântico das trevas, entre o misterioso e o sublime". Ser ou não feio? "Sei que não sou bonito. De qualquer maneira a beleza ideal não me interessa. Não a persigo, nem em mim nem nos outros".

MARIA LEÃO, 23 ANOS

Foi com as borbulhas que passou para o outro lado do espelho. Alta, magra, loura e de olhos azuis, a pergunta que fica é: o que está a fazer num artigo sobre quando a imagem se transforma num obstáculo? É que, até há alguns meses, carregava na cara o peso do acne tardio. Foram cinco anos de borbulhas, com a pele transformada numa espécie de revestimento em grão. Quando os amigos já estavam livres das inflamações cutâneas, Maria sentia que "usar uma burka até pode ser uma vantagem". Resistiu a, em nome da beleza, perder dias de praia e de sol para poder usar o medicamento que conseguiu livrá-la das borbulhas. E, embora faça questão de desvalorizar a importância da sua aparência, reconhece que quando a pele voltou a ficar lisa, sentiu "outra satisfação e mais à vontade para sorrir". O óbvio não a satisfaz e diz que "quem aposta tudo na imagem física procura o caminho mais fácil". E que este é material volátil para se construir uma relação. "Princípios, educação, inteligência e cultura são mais importantes do que uma cara bonita", afirma. Embora reconheça que até parece um cliché, defende que "bonito é dar, sem esperar nada em troca".

PAULO DUARTE, 28 ANOS

"A noite favorece-me", afirma. Sente-se gordo, desengraçado e esquisito. Sempre que quer comprar uma camisa ou uma camisola tem que sair de Leiria, a sua cidade, e calcorrear o país à procura de roupa que lhe sirva. A moda não é feita a pensar nele, porque o seu corpo está fora de moda. Sofre de obesidade mórbida, pesa 146 quilos, mas já chegou a atingir os 160. É desde pequeno um comedor de volume. Repete duas a três vezes o prato. Aliás, o seu prato favorito é "cheio". Só assim se sente saciado. Não gosta do seu aspecto, mas afirma que o tamanho XXL rsó se tornou um sério problema quando começou à procura de trabalho. Por várias vezes as portas fecharam-se porque tinha um corpo disforme. Desadequado. Isso magoou-o. Mas fê-lo resistir e procurar ajuda médica. Há dois anos submeteu-se a uma operação para colocar uma banda gástrica. Não resultou. Por uma questão de "saúde, vaidade e auto-estima" voltará a ser operado em breve, desta vez para se submeter a um scopinaro - redução da capacidade de absorção do estômago e do intestino. Está confiante. "Ser gordo ainda é sinónimo de feio, indolente, preguiçoso, desleixado. E isso é um peso muito grande em cima de uma pessoa..." 

A BARREIRA DE SER FEIO

Feio: Adj.1. que tem aspecto considerado pouco atraente ou desagradável 2. que não obedece aos padrões de beleza convencionais 3. disforme, desproporcionado". A definição do dicionário é pesada, como é o estigma associado à fealdade. Hoje e ao longo dos tempos.

Mas, afinal, o que é ser feio? Tudo o que foge do ideal de perfeição humana? Tudo o que não cabe no universo da moda? Na verdade, ninguém tem autoridade delegada para determinar quem é feio. Porque o que é feio para uns, pode ser atraente para outros. É o que cada um de nós quiser e, sobretudo, aquilo que recusamos.

Mais do que discutir os parâmetros de beleza ou da ausência dela - debate que ocupa as artes e a filosofia -, interessa perceber como o cidadão comum se deixa afectar pela pressão de que todos temos de perseguir um ideal estético inatingível. Como a aparência de cada um pode transformar-se numa barreira. Num obstáculo ao desenvolvimento de saudáveis relacionamentos sociais.

Ouvimos quem se assume como tal e, quem não sendo bonito, se acha normalíssimo. Quem se sabe diferente e até gosta de ser assim e quem apesar de não ser feio, já detestou a sua imagem.

Convocámos quem quisesse assumir as suas insatisfações. Há cerca de um mês, colocámos um anúncio no site do Expresso na Internet, no Twitter e no Facebook, pedindo que nos contassem histórias de vida. Tivemos muitas visitas, mas não respostas. Fica provado que este não é um assunto fácil para se dar a cara nos jornais. Assim, ficámos com aqueles que, não sendo exemplos de capas de revista de moda, são um pouco como todos nós.

Ganhar confiança

A patologia de achar-se feio. "O aspecto físico só é um muro se a capacidade interior o permitir. O êxito do homem, como espécie e como indivíduo, assenta na capacidade de aprender e saber fazer, na inteligência, e na capacidade de desenvolver esforço em cooperação com outras pessoas, a ética", afirma Miguel Correia, dermatologista.

Acostumado a lidar com as queixas dos pacientes, explica que "um tratamento estético pode ser procurado para resolver um problema na aparência. E, obtido o resultado desejado, a pessoa segue com mais segurança". Mas, "quando é a vida interior a causa de insatisfação, a procura de melhoria na aparência é um fracasso. No limite, a insatisfação com a imagem, leva ao suicídio. As formas mais graves de acne, por exemplo, têm um risco de suicídio semelhante aos cancros em fase de doença generalizada. Se a pessoa detesta a sua imagem e sente que não a consegue melhorar, há o risco de detestar a própria vida".

O que dita a moda

Na origem, a questão da beleza estava associada à preservação da espécie. "Nas sociedades primitivas, o bonito associava-se ao aspecto físico mais promissor de fertilidade ou de saúde. Hoje, é a moda que determina o que é bonito ou feio. Subentende-se que feio é o que não se vê na passarela", explica Miguel Correia. O dermatologista alerta que "desde que a autoconfiança exista, o indivíduo consegue triunfar e a autoconfiança vive das dificuldades ultrapassadas, não da banalidade dos genes que determinam a aparência".

Com a actualidade marcada pela perseguição de um ideal estético ligado à magreza, a endocrinologista Isabel do Carmo vê passar pelo seu gabinete insatisfações profundas. Um problema contraditório com a tendência estatística. "É curioso que estando a sociedade a tornar-se obesa de forma tão generalizada, cada obeso se sinta como único e o façam sentir como o único", afirma. É que "metade da população adulta portuguesa tem peso a mais, tal como a população espanhola e mais de metade da alemã. Quanto aos norte-americanos, 60% têm peso a mais. Chamar 'normal' ao peso recomendável já não faz sentido sob ponto de vista estatístico". Isabel do Carmo não foge: "No entanto, há de facto um muro".

Discriminado por ser gordo

Gina Geadas e o seu companheiro Paulo Duarte sabem bem o que isso é. Ela chegou a pesar 140 quilos e ele ultrapassou os 160 quilos. A imagem passou a ser um peso difícil de suportar. "Durante muitos anos fui um alvo fácil de chacota. E eu, humilhada, fingia achar graça." Paulo, a trabalhar numa pizzaria, revela outra dimensão do estigma: "Fui sistematicamente excluído de entrevistas de trabalho por ser gordo. Há um preconceito muito grande. Vêem-nos como feios, preguiçosos e desleixados."

Isabel do Carmo recua o problema até à infância. "Está estudado que, entre os mais pequenos, os colegas preferem uma criança ou jovem que seja cego, surdo ou com um defeito numa perna do que um obeso. Quando vou às escolas e mostro fotografias de grandes obesos tenho que recomendar antes: 'Agora vou mostrar uma fotografia de uma pessoa muito gorda e vocês não se vão rir.' Se não o fizer, há gargalhadas generalizadas. Calcule o que não sofre uma criança obesa com estas reacções. Nos casos mais pronunciados deixa de ir à escola", afirma.

Porquê esta força que repele socialmente 'o gordo'? A directora do departamento de endocrinologia do Hospital Santa Maria explica que "o antropólogo Claude Fishler diz que isto vem do fundo dos tempos, da época da tribo em que o gordo era aquele que comia tudo, o 'comilão'. Ora, quando o ser humano vivia para sobreviver, ocupando-se todo o dia em arranjar comida e sofrendo épocas de fome, o 'gordo' era suspeito".

No entanto, afirma, "há muitas pessoas que ultrapassam esta barreira. Mas tem que começar por elas. A tendência para o excesso de peso nasce muitas vezes connosco e por isso há que evitar a obesidade por razões de saúde e por razões de imagem, porque a carga ao longo da vida vai ser de peso propriamente dito e de incomodidade psíquica". Mas Isabel do Carmo sublinha que "as pessoas com peso a mais têm que administrar essa característica e adaptar-se. Em primeiro lugar, não podem fazer disso o centro dos seus pensamentos. A existência é muito mais que o peso do corpo. Os projectos de vida devem ser o programa e não os centímetros a tirar. É importante também que aceitemos o 'outro'. E o 'outro' é diferente de nós e também é diferente de imagens padrão que nos impuseram". E conclui: "Conheço muitas pessoas que lidam bem com o excesso de peso e não vivem obcecadas por isso. É o primeiro passo para os outros, e particularmente os companheiros, os aceitarem."

Plástica é solução

Só resta "ir à faca". Quando não se atinge um estado de pacificação interna, os insatisfeitos vão bater à porta do cirurgião plástico. Ibérico Nogueira conta que ao seu consultório aparecem muitas pessoas que optam pela cirurgia por motivos profissionais. Desde as actividades obviamente ligadas à imagem (modelos, actores) aos professores. "Muitos docentes de liceus, por exemplo, porque os adolescentes exigem uma aparência jovial e têm tendência para desrespeitar e serem agressivos com quem foge a esse padrão", afirma.

Nas escolas, já não são só os professores os pressionados, porque a beleza está-se a tornar uma obsessão também para os mais jovens. Estudos citados recentemente pela revista "Newsweek" apontam para o facto de os alunos mais bonitos receberem as notas mais altas. A justificação é de que a personalidade e o ser atraente, principalmente nas raparigas, é considerado um ponto forte na avaliação global. A mesma sociedade norte-americana onde, miúdas a partir dos dez anos, gastam verbas consideráveis em cosméticos e produtos de embelezamento.

Casos patológicos

O cirurgião plástico diz, contudo, que as preocupações com o aspecto estético "são transversais a toda à sociedade" e que na base da decisão estão sempre "motivos racionais, emocionais e também práticos". Mas sublinha que "ninguém tem autoridade para definir o que é bonito ou feio". Ibérico Nogueira recorda que o ser humano tem uma atracção inata pelo que é mais equilibrado e proporcional, definindo-o como belo. Embora este conceito tenha, depois, de se adaptar ao contexto cultural de cada sociedade. "Há milhões de padrões de beleza, onde o equilíbrio de formas e cor corresponde aos vários grupos sociais. Os media podem influenciar estes padrões, mas há uma base inata", afirma. E exemplifica: "Ninguém ensina que o pôr-do-sol é belo, no entanto, todos concordamos. É uma questão genética."

Procurar alcançar uma imagem física positiva e auto-satisfatória é considerado "perfeitamente normal e saudável", mas Ibérico Nogueira alerta para a existência de casos patológicos: "O muro é formado pela própria pessoa que não percebe que a beleza física é apenas uma parte do que gera a atracção." Estes casos estão classificados como os dismorfofóbicos. São pessoas que têm medo da fealdade. "Eternamente insatisfeitos, são um problema para os cirurgiões plásticos", alerta. Reconhece ainda que "a difusão maciça de estereótipos, muitas vezes através de imagens digitalmente alteradas, pode ter imensa influência sobre pessoas mais frágeis. Criam-se imagens distorcidas da realidade, causando distúrbios e infelicidade. Há que potencializar os sinais de beleza que todos têm, mantendo a expressividade".

Fascínio pelo feio

Anísio Franco, conservador do Museu de Arte Antiga de Lisboa, recorda que o tremendo, o horrendo, o monstruoso passaram a integrar o imaginário do sublime desde finais do século XVIII, no chamado período pré-romântico. "Todos nós temos um fascínio pelo feio. Porque, de certa forma, fazemos parte dele". Dá como exemplo a atracção que as pessoas têm pelo tríptico "As Tentações de Santo Antão", de Hieronymus Bosch. "Nós estamos ali representados, naquele mundo grotesco e subversivo".

Com a obra "A História do Feio", de Umberto Eco, nas mãos, Anísio afirma que a ideia do que é feio é relativa aos tempos e às culturas. "O inaceitável de ontem pode tornar-se o que será aceite amanhã. Durante muitos séculos, na arte e na vida, tudo o que era belo era considerado bom e o que era feio era tratado como mau, demoníaco. Mas há muito que já não é assim." Anísio recorre à imagem contemporânea dos jovens tatuados, com piercings, ou cicatrizes auto-infligidas como um convívio entre dois modelos opostos, porque a oposição feio/belo já não tem valor estético. "A deformação do corpo é hoje encarada como uma forma de belo, de afirmação social. Algo que antes era considerado feio."

As fronteiras deixaram de existir. É uma questão subjectiva e volátil. O especialista em arte remata, lembrando que todos nos emocionámos e revimos no ET, de Steven Spielberg ou no Drácula, de Bram Stoker. Porque, afinal, feios somos todos nós...

(Texto publicado na edição 31 Outubro Revista Única/Expresso)