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Tecnologia e Ciência

“Entram aqui princesas, saem cientistas”

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Os investigadores estavam distribuídos de norte a sul de Portugal

Nuno Silva

Museu da Ciência em Lisboa foi um dos palcos da 11ª edição do Noite Europeia dos Investigadores, que juntou milhares de pessoas à volta do mundo científico. Com atividades para todas as idades, o difícil foi escolher

Maria, Maria Teresa e Isabel tinham acabado de experimentar o BioVisual Speech e não conseguiam esconder o entusiasmo. "É muito divertido", ouviu-se quase em uníssono. O projeto desenvolvido para ajudar crianças necessitadas de terapia de fala - que funciona com recurso a um jogo onde o participante tem de suster uma letra durante alguns segundos para um pássaro levar um ovo com sucesso para o ninho - tinha sido um sucesso e, para a mais nova, de 11 anos, tinha aumentado o "interesse" pela ciência. Missão cumprida para um dos muitos visitantes que deram vida a mais uma edição da Noite Europeia dos Investigadores.

A 11ª edição do certame realizou-se de norte a sul do país para mostrar o que de melhor se faz no campo científico em Portugal e desmistificar um pouco uma área que ainda não se livrou totalmente de alguns estereótipos. Em Lisboa foram mais de 90 as atividades oferecidas por cerca de 200 cientistas de todas as áreas. Sofia Cavaco é um deles. Está há mais de dois anos a desenvolver o BioVisual Speech "com terapeutas da fala" e mostrava o seu protótipo aos interessados de "todas as idades". É "incrível ver o entusiasmo, muitos querem repetir." Outro resultado gratificante é as pessoas perceberem que "o que fazemos não é só chato, também é útil".

Cheirar bactérias

No Museu da Ciência, um dos locais centrais da iniciativa, os antigos corredores da instituição encontravam-se repletos de pessoas a andarem pelas diferentes experiências e a falar com os investigadores, todos com uma t-shirt que encorajava os participantes a "perguntar." Questões que não escaparam a João Costa Seco, que apresentava o menino dos seus olhos, uma ferramenta "para que qualquer pessoa consiga facilmente programar e fazer uma app". O investigador, que anda há oito anos a trabalhar com base nestas ideias, acredita que se pode tornar um mecanismo "muito valioso".

Claro que para ilustrar com ciência é preciso dinheiro e, no arranque da Noite, o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, não descurou esse pormenor. Num debate realizado no Miradouro de São Pedro de Alcântara, afirmou que "o financiamento tem de fugir à procura de resultados económicos imediatos" e o que o projeto deve ter "sempre em conta a sua potencial valia".

Nuno Silva

Se agora saltar neste texto para um nariz artificial capaz de identificar doenças através do odor das bactérias não pense que está a ler mal. E se lhe disser que é único no mundo e que está a ser desenvolvido em Portugal. Surpreendido? Se a resposta é sim, ficaria ainda mais se o pudesse presenciar ao vivo. Com o tamanho de uma box de televisão, tem um sensor que consegue captar diferentes odores. "Através desta tecnologia, obtemos um sinal que identifica fruta, por exemplo", revela uma das investigadoras, Ana Carolina. No futuro, o objetivo é que se seja capaz de captar o "cheiro emitido por bactérias" para perceber se "são resistentes a antibióticos ou não" e, assim, contribuir para "evitar infeções". Um conceito quase extraterrestre para os muitos que passaram por esta banca mas que ilustra como a ciência ainda "é um mundo por descobrir".

Palco para brilhar

Quem chamava também a atenção de quem passava era a banca onde se podia ler "pega-monstro sintético". Aí, Alexandra Costa era um dos que explicavam como com base num "polímero sintético e cola natural" era possível fazer na hora o clássico brinquedo. E não faltava quem quisesse perceber como. "São coisas simples e apelativas que mostram bem o que se pode aprender", conta.

Sempre pronta a desmistificar uma das áreas "negras" para muitos - a matemática - está Maria do Céu Soares, organizadora do Clube Math no Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e que, neste caso, era uma das responsáveis por uma atividade ligada à criptografia. "Demonstramos vários métodos novos e antigos para codificar e descodificar mensagens", revela, enquanto ao fundo se viam duas crianças tentando animadamente decifrar uma frase. De todos os "tamanhos e idades", não querem sair "enquanto não acabarem" - isto ao mesmo tempo em que percebem que na matemática "não há só números."

Nuno Silva

Desmistificar é uma das grandes mais-valias deste evento, considera José Faustino, que se encontrava no Museu da Ciência com as suas duas filhas. "Trouxe-as por curiosidade e para fazerem atividades", revela. Até ver, estavam a "adorar" e a querer participar "o máximo possível", tal como ele, que não se furtou também a "experimentar". Formado em engenharia, não deixou de manifestar a sua crença na importância de dar "um palco aos nossos muito bons investigadores".

De visita estavam também os estudantes André Amorim e Cláudia Marques. Era a "primeira vez" e, se já eles estavam muito contentes "por estarem no meio de tudo", para os mais novos o impacto só podia ser "ainda maior". Está-se no "meio de tudo" e, para Cláudia, não há dúvidas: "entram aqui raparigas que querem ser princesas e saem a querer ser cientistas".