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Alice no planeta das maravilhas

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Quando era pequena, Alice Bowman não perdia um episódio de “O caminho das estrelas” na televisão e sonhava explorar o espaço. Meio século depois, foi nas mãos dela que esteve a nave que viajou até ao mundo mais distante que a Humanidade já conseguiu alcançar e ver de perto até hoje: Plutão, que a NASA confirma agora ter água e um céu azulado (vísivel na fotografia, divulgada esta quinta-feira pela própria NASA). O Expresso esteve com Alice Bowman, a primeira mulher no comando operacional de uma missão da Agência Espacial Norte-Americana. Ela que, ao contrário dos seus heróis espaciais, nunca chegou a sair da Terra

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Texto e vídeos

Jornalista

Passam o dia a chamar-lhe “Mom” (Mãe) dentro daquela sala em Maryland. Nada se passa sem que ela não saiba, nada se faz sem a última palavra dela. Mesmo quando não está lá fisicamente, recebe todas as informações ao segundo no telemóvel. E, na verdade, Alice até diz, em jeito de brincadeira, que eles têm ali em mãos todos os dias uma “criança”. O “Mom” não é um tratamento carinhoso (embora também o possa ser): na verdade, é o acrónimo de “Mission Operations Manager”. E a criança também não é bem uma criança, de resto já saiu de casa há muito tempo. Mas, se fossemos continuar com a analogia, diríamos que este ano deu a maior alegria de sempre aos pais.

Aquela sala de Maryland, nos Estados Unidos, pertence ao Laboratório de Física Aplicada da Universidade de John Hopkins e ao longo de já quase dez anos tem sido o centro de operações de uma das mais ambiciosas operações de sempre da Agência Espacial Norte-Americana: levar uma nave não tripulada a Plutão e mais além, e fazer o reconhecimento de uma zona do nosso sistema solar que a Humanidade nunca tinha conseguido ver de perto.

O céu azulado de Plutão

O céu azulado de Plutão

NASA / HANDOUT

A New Horizons foi lançada para o espaço em janeiro de 2006, mas o envolvimento de Alice Bowman na missão começou muito antes, em 2001, no processo de construção e testes da sonda. É a nave mais rápida construida até hoje pela Nasa. (Para se ter uma ideia, depois de lançada precisou apenas de 9 horas até chegar à Lua, quando as missões Apollo demoraram 3 dias). Mas mesmo essa rapidez não lhe permitiria encurtar o tempo de viagem. Afinal, há cerca de 4 mil e quinhentos milhões de quilómetros a separar a Terra de Plutão. E a equipa já sabia à partida que, mesmo que tudo corresse bem, a missão ia durar perto de uma década. Como se consegue manter uma equipa motivada durante tantos anos para alcançar um objectivo que não se tem a totalmente a certeza se será conseguido? “Só com pessoas muito pacientes e dedicadas”, explica Alice numa entrevista ao Expresso, ela que esteve em Lisboa para dar uma conferência no Instituto Superior Técnico.

Muito mudou no mundo, e na própria astronomia, desde que a New Horizons foi lançada. Nesse mesmo ano, Plutão seria despromovido a “planeta-anão" (embora para Alice continue a ser sempre um planeta como os outros). E descobriu-se entretanto que tem não três mas cinco luas em órbita. Um ano depois de deixar a Terra, a nave encontrou-se com Júpiter, um encontro fundamental para encurtar o tempo de viagem (sem o “empurrão” dado pelo campo gravitacional do planeta gigante, a viagem poderia ter demorado mais 50% do tempo.) Aí captou algo nunca antes visto: a erupção de um vulcão fora da Terra, neste caso em Io, uma das mais de 60 luas ou satélites do planeta.

Alice Bowman, 55 anos, garante que sempre quis trabalhar para a NASA. Ou pelo menos desde aquele momento, que nunca mais se esquece, em que ela e a irmã assistiam pela televisão, de pijamas vestidos, àquele homem a sair de uma nave e a colocar o pé na Lua. Nessa altura tinha Alice 8 anos. Era também a época em que saía da escola e corria para casa com os amigos para ver a série “Perdidos no Espaço”, e depois “o Caminho das Estrelas”, que surgiram mais ou menos ao mesmo tempo. Alice não saberia então que, à semelhança do capitão Kirk, também ela teria de resolver, muitos anos mais tarde, os problemas que a “sua” nave ia dando. Com a grande diferença de Kirk estar dentro da Enterprise e Bowman ter de resolver problemas a milhões de quilómetros de distância.

Um desses problemas acontecia repetidamente à New Horizons. Sem se saber porquê, a nave fazia um “reset” automático. Isso aconteceu inúmeras vezes. Mas e se o fizesse num momento critico da missão, em que a sonda já estivesse a passar por Plutão? Podia deitar tudo a perder. Depois de muitas horas de sono perdidas para encontrar a solução, a equipa conseguiu finalmente detetar o problema, mas a resolução passava por um update do software a bordo. Mais ou menos o que fazemos aos nossos telemóveis, quando atualizamos o sistema operativo. Só que, neste caso, fizeram-no a uma nave que viajava a alta velocidade no meio do vazio do sistema solar... “Não é fantástico que tenhamos a tecnologia para fazer isso, a milhares de milhões de quilómetros de distância!?”, pergunta Bowman ao Expresso, sempre com um sorriso no rosto. “Estamos no fundo a enviar zeros e uns pelo espaço, para serem recebidos pela antena desta nave tão pequena [é pouco maior do que um piano de cauda]. É claro que não gostamos de fazer isso, porque há sempre um risco de que algo de errado possa acontecer. Mas chegar a Plutão é uma oportunidade única e quisemos garantir que podíamos minimizar a ocorrência de um problema quando a nave chegasse ao destino.”

Esse não foi, de resto, o único obstáculo a ultrapassar durante a longa missão. E um deles deixou a equipa aterrada, com medo de “morrer à beira da praia”. Apenas três dias antes de a New Horizons iniciar a sequência de aproximação a Plutão, o centro de controlo perdeu todas as comunicações com a nave. Nada. Apenas silêncio. E, de repente, 10 anos de espera podiam redundar num perfeito nada.

A equipa conseguiu finalmente perceber o problema a tempo. Tratava-se de um excesso de comandos no computador principal, que assim entrou em sobrecarga. Conseguiram recuperar as comunicações e transmitir a sequência de aproximação desejada. Operar a New Horizons é uma espécie de quebra-cabeças entre as variáveis espaço e tempo. A comunicação com a nave é feita através das três poderosas antenas da chamada “Deep Space Network” da NASA (diz a própria agência espacial, em jeito de brincadeira, que é o melhor sistema do mundo para “chamadas de longa” distância). As antenas estão posicionadas em pontos estratégicos do planeta, uma na Califórnia, nos Estados Unidos; outra em Madrid, Espanha, e ainda outra em Camberra, na Austrália. O objectivo é que haja sempre uma cuja posição mantenha o contacto com o “alvo”, independentemente da rotação da Terra. Só que há um problema: o sinal demora 4 horas e 25 minutos a chegar à New Horizons. Isso significa que, para dar uma instrução, tem de se apontar a antena não ao sítio no espaço onde a nave está num determinado momento, mas ao sítio onde se calcula que vá estar dentro desse período de tempo que o sinal leva a chegar. Alice diz que é como “ter a cabeça constantemente partida ao meio”.

Resolvidos os problemas de comunicação, a 14 de julho deste ano a New Horizons fez o que todos esperavam dela há quase uma década. Passou o mais próximo de Plutão possível, a cerca de 12 mil e quinhentos quilómetros do planeta anão. E, como um bom filho, o que é que fez logo a seguir a chegar ao destino após uma longa viagem? Ligou para a “Mom”.

Primeira boa notícia: a New Horizons estava viva e de boa saúde. Segunda boa notícia: os sete instrumentos científicos a bordo tinham registado tudo o que conseguiram, e estavam prontos a enviar o que tinham para Maryland, o que ainda levaria algumas horas até chegar à Terra, a uma lenta velocidade de downlink de 1 a 4 kb por segundo… Mas aquilo que os cientistas estavam prestes a receber iria deixá-los de boca aberta.

Há uns anos, quando perguntaram a Alice qual a sensação de trabalhar na NASA, respondeu que tinha de se beliscar todos os dias para acreditar que não estava a sonhar. Quando viu as imagens de Plutão que lhe chegaram às mãos, garante que voltou ter a mesma sensação.

Plutão tem enormes montanhas, que chegam a passar os 3 mil metros de altura. E não existem crateras de impacto na superfície, o que levanta a hipótese de o planeta poder ser bastante mais novo do que outros do sistema solar.

Agora, a NASA acaba de confirmar que tem neblinas azuis no céu e água gelada à superfície. Mas mais poderá ainda vir a caminho. A New Horizons registou tanta informação que vai demorar mais ano e meio até que possa chegar toda à Terra. Enquanto isso, vai continuando a sua viagem pelas zonas mais remotas do sistema solar. Os cientistas estimam que a bateria posso durar mais 20 anos. O objectivo é estudar o Cinturão de Kuiper, e foi identificado um objeto de interesse em especifico, com cerca de 50 quilómetros de diâmetro. A NASA já aprovou a manobra. A equipa pretende orientar a nave para aquele ponto em especifico do espaço no final deste mês, mas mesmo fazendo isso agora a chegada está apenas prevista para… janeiro de 2019.

A descoberta de água gelada em Plutão surge semanas depois do mediático anúncio de indícios de água em Marte. Estão já de resto em curso planos para enviar humanos ao planeta vermelho. Mas será possível enviar alguém até tão longe como Plutão? Alice Bowan é céptica. “Marte está dentro da distância possível, mas não tenho tanta a certeza para viagens mais longas. Certamente terão de existir muitos avanços tecnológicos antes que isso possa ser uma realidade. Estamos ainda muito longe do Caminho das Estrelas e dos novos mundos da Enterprise!”