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A vertigem da realidade virtual

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Dave Ranyard esteve em Madrid a apresentar os mais recentes desenvolvimentos no campo da realidade virtual

DR

Aquele que para muitos é o futuro das experiências de videojogos foi um dos destaques da Madrid Games Week

Imagine que acorda e está amarrado a uma cadeira com um conhecido caído à sua frente. Está numa casa mal iluminada, degradada. Eventualmente, a pessoa acorda e tenta libertá-lo até que, de repente, aparece uma mulher com aspeto demoníaco que lhe espeta uma faca. O seu pior pesadelo? Neste caso não, é apenas uma experiência muito real de realidade virtual.

"Tivemos que deitar o livro de estilo para o lixo e começar de novo." É assim que Dave Ranyard, diretor do London Studios, descreve o trabalho que, em conjunto com a sua equipa, começou a desenvolver há dois anos e meio para criar jogos para o dispositivo de realidade virtual da Sony, o Playstation VR. Com recurso a uns óculos, auscultadores e manípulos de movimento, a experiência visa isolar do mundo real: "O nosso objetivo é que as pessoas esqueçam que estão num ambiente digital", revela.

Os aparelhos foram um dos grandes destaques da Madrid Games Week. Mais de 92.500 mil pessoas ocorreram aos quatro dias do evento para terem acesso às mais recentes novidades do mundo dos videojogos. Lançamentos, anúncios e oportunidades marcaram o certame. No stand da Playstation VR, podiam-se ver filas para aceder a uma de quatro experiências que este estúdio está a desenvolver. Entre ser um gangster em Londres ou explorar o oceano, por exemplo, as possibilidades são maiores do que nunca: "Sinto que estamos perante uma mudança paradigmática na forma como olhamos para a imersão num jogo."

O criador vê "as dificuldades de não ter uma gramática definida para este campo como uma oportunidade de criar algo diferente", em que os jogadores se preocupam mesmo com o que se está a passar. Até agora, o feedback tem sido muito positivo, com as pessoas alternarem entre o "é incrível" e "estou convertido", nas palavras de Dave Ranyard. A tecnologia vai ser "sem dúvida" uma "das componentes essenciais no panorama futuro" mas não vai dominar por completo os videojogos. "As pessoas não vão deixar de jogar candy crush por causa disto", acredita. O lançamento, esse será em 2016, ainda sem preços a revelar.

"Sou terrível a jogar"

O certame contou também com a presença de algumas das grandes celebridades da indústria para conhecerem os muitos adeptos presentes e apresentarem os trabalhos que atualmente desenvolvem.

Nolan North foi uma delas. O ator norte-americano é um dos nomes mais conhecidos no trabalho de voz e interpretou mais de uma centena de personagens. A sua figura mais conhecida é, provavelmente, Nathan Drake, o protagonista da coleção Uncharted, que já vendeu mais de 21 milhões de cópias em todo o mundo. "Dez anos da minha vida e não imagino um melhor trabalho", confessou.

Em Madrid, apresentou-se o "Uncharted 4", bem como "Uncharted: The Nathan Drake Collection", a versão remasterizada da trilogia original para a Playstation 4. A presença estava rodeada de enorme antecipação por parte dos fãs, que se juntavam para ver o ator com um burburinho constante. "Na altura, pensei que fosse apenas mais uma audição, como muitas que ainda vou hoje. Nunca imaginei que fosse mudar a minha carreira e converter-se neste grande sucesso, em algo tão icónico. Faço também trabalhos como ator em séries de TV e cinema mas sou mais reconhecido pela minha voz. Sobretudo pelo Nathan Drake."

Nolan empresta também os seus movimentos à personagem e dá "pequenas dicas" aos escritores sobre o que acha "que faria ou diria naquela situação." Está tão identificado que "já faz parte" de si. Numa fase em que "os videojogos são algo cada vez mais sofisticado e apelam a mais pessoas", diz que é interessante ver como se "dá mais atenção a este trabalho".

Mas isso não é o mais importante, até porque há quem seja famoso sem nunca ter feito por isso: "Olhem para os Kardashians, por exemplo. Como se diz nada em português? É isso que elas fazem." Para o final, a promessa que apesar de ser "terrível a jogar", vai cumprir a saga "do início ao fim" com os filhos.

A indústria dos videojogos está a viver uma fase de grandes mudanças e os seus responsáveis tentam perceber o que vai ter mais sucesso junto do público. O "Community Strategist" da Naughty Dog (empresa que produz Uncharted, entre outros títulos), Arne Meyer, explica-nos que continua a ser tão importante como nunca "ter uma história para contar." Os "desafios do novo hardware colocam questões interessantes" e é importante usar essas ferramentas "da melhor forma."

No futuro, as tecnologias vão permitir que se dê mais atenção às "personagens e performances" com "animações cada vez mais reais". O papel dos produtores mais pequenos, os "indies", também deve ser realçado, pois "oferecem alternativas e ideias novas que nós nas maiores empresas devemos fomentar e ajudar." Sem esquecer que a receita passa sempre por "fazer os jogos que queremos jogar."

[O Expresso viajou para Madrid a convite da Sony Computer Entertainment]

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