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Legislativas 2015

PAF

Coligação já não bate em Costa

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Luis Barra

Guião de campanha do PaF chegou à última fase: apresentar propostas (até a "reforma do Estado" voltou) e pedir estabilidade para as concretizar. "Já não é preciso" malhar em António Costa

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

O guião, dizem, sempre esteve esboçado assim: uma primeira semana a meter as propostas do PS numa picadora, analisando-as ao pormenor, questionando cada omissão, denunciando cada contradição, pressionando os socialistas a terem de dar justificações - e, assim, aliviando a coligação de o fazer, apesar de ter sido quem governou nestes anos. Foi desta forma que as propostas do PS para a Segurança Social viraram uma das estrelas da campanha. Essa primeira fase trouxe também uma barragem de fogo cerrado sobre António Costa, com a inesperada ajuda deste: o anúncio de que Costa chumbará o Orçamento de Estado de um governo minoritário da coligação caiu do céu e deu munições para o acusarem tudo, de ser radical e esquerdista, aventureiro e com falta de respeito democrático pela escolha do povo.

Foi um trabalho feito em boa medida por Paulo Portas, e que ganhou um fôlego adicional com a informação de que o PS se prepara para chumbar até o programa do governo, caso consiga fazer uma "maioria negativa" de esquerda no Parlamento com o PCP e o Bloco. Mas o "tiro ao Costa" já está feito. "Já não é preciso continuar", diz um responsável da campanha coligacionista. "As pessoas já perceberam."
Agora, a fase é outra: um discurso mais sereno, "menos adversativo", mais virado para as virtudes das propostas da coligação e menos para os perigos do programa do PS. Foi assim nos discursos desta segunda-feira, com Costa praticamente ausente. Num almoço no Bombarral, Portas até se sentiu na necessidade de justificar que, apesar da comunicação social preferir "legitimamente" as tiradas mais confrontacionais, é preciso explicar aquilo que o PaF quer fazer, agora que os tempos já não são de "emergência" e será possível governar com "normalidade". E as condições necessárias para isso. Numa frase: "Dêem-nos os meios para poder governar", como disse Portas.

Luis Barra

A ideia é insistir que o que foi feito até agora foi por imposição do resgate (que "os socialistas assinaram"), e que, agora sim, será possível fazer as reformas que ainda são necessárias, porque "não cumprimos tudo" e "o trabalho nunca está acabado", conforme repete Passos Coelho. "Esta coligação deu certo nestes quatro anos e vai dar certo nos próximos quatro anos, se esse for o desejo dos portugueses", tem dito.

A mensagem desemboca sempre no mesmo ponto: para poder cumprir o seu programa, a coligação precisa de "estabilidade", ou seja, de uma maioria "grande e boa", os adjetivos usados pelo líder da coligação no domingo. Ou "uma maioria estável de Governo" (fórmula de Portas em Pombal). "Se tivermos estabilidade nos próximos anos vamos crescer ainda mais e conduzir o país a um patamar de ambição superior", prometeu Passos no mesmo almoço do Bombarral. À noite, em Pombal, num jantar-comício com cerca de duas mil pessoas, em que a coligação deu mais uma prova da sua capacidade de mobilização mesmo em dias de semana, Passos acrescentou que "se queremos alcançar mais, não podemos ter menos condições políticas do que há quatro anos".

Luis Barra

Até a reforma do Estado voltou

O líder do Portugal à Frente fez o discurso mais programático de toda a campanha, deslocando o enfoque das questões económicas para o lado social. O combate às desigualdades e aos "privilégios" e a luta pela igualdade de oportunidades tornou-se uma das questões centrais no seu discurso - detendo-se na educação e no combate ao abandono escolar precoce -, mas passou também pelas propostas para a natalidade e a família e até a reforma do Estado que Passos quer "levar mais longe". "Eu não estou a inventar nada, está tudo no programa de Governo", esclareceu, como se justificasse esta nova linha de discurso.

De novo, a articulação entre Passos e Portas funcionou ao milímetro - antes do PM, o seu vice tinha falado de economia (Leiria é distrito de indústria e agricultura) e dos riscos associados a uma aventura de esquerda. Alertou para o perigo de um "governo fraco, dependente de partidos que querem que Portugal sai do euro ou da União Europeia", exclamando que "só nos faltava agora abrir um problema com a União Europeia. Por amor de Deus!, setenta por cento das nossas exportações são para a Europa, metade do investimento criador de emprego em Portugal é europeu!"

Mas já não houve necessidade de "malhar" em António Costa. Essa vantagem, acreditam na coligação, está consolidada. Os eleitores que ainda estão indecisos são mais sensíveis a um discurso pela positiva. Até podem reagir aos argumentos do medo, mas não à luta na lama partidária.

Luis Barra