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Legislativas 2015

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O dia em que Álvaro Cunhal entrou na campanha do PS

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Rui Duarte Silva

Foi pela voz de Manuel Alegre, que bisou a sua presença, em dois dias, num comício do PS. Esta noite, em Coimbra, o histórico socialista lembrou “o exemplo de Cunhal”: “Nunca se esqueceu que há uma fronteira entre esquerda e direita”

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

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Jornalista da secção Política

A caravana socialista voltou na noite desta quinta-feira a parar em Coimbra. Depois da arruada, na quarta-feira, na rua Ferreira Borges, hoje António Costa regressou à cidade do Mondego para o penúltimo comício antes das eleições. No histórico pavilhão do Olivais Futebol Clube, sob faixas que falam de um "clube do futuro", "campeão todos os dias", discursaram, entre outros, Manuel Alegre e António Arnaut.

O primeiro para voltar a dirigir-se à esquerda do PS - já o tinha feito anteontem, em Lisboa: "Não é racional que parte da esquerda gaste as suas energias a fazer do PS o seu inimigo principal". A explicação, a seu ver, remonta ao verão quente de 1975, "é um problema de fundo que nunca ficou resolvido, um problema não apenas político, mas também afetivo e emocional"; e "não podemos ficar prisioneiros desse trauma: "A divisão da esquerda é a força principal da direita", alertou.

Ao passado, mais concretamente às presidenciais de 1986, Alegre foi ainda buscar uma "lição para reflexão": "Queria citar o exemplo de Álvaro Cunhal, com quem tivemos grandes divergências ideológicas. Mas ele nunca se esqueceu que há uma fronteira entre esquerda e direita. Teve a lucidez e a coragem política de convocar um congresso extraordinário para lançar a palavra de ordem: contra a candidatura da direita, vota Soares".

Rui Duarte Silva

Um Presidente que não esteve à altura da República

Também António Arnaut regressou ao passado e evocou "o tempo em que os cravos estavam viçosos" para lembrar os presentes que, se os tempos e as vontades mudaram nestes 41 anos desde o 25 de abril, os valores socialistas "são os mesmos" de então: democracia, justiça social, igualdade e solidariedade. Para o fundador do Serviço Nacional de Saúde "a direita quer destruir o Estado Social", pelo que "a vitória no domingo é um imperativo de salvação nacional".

Arnaut teve ainda uma palavra para Cavaco Silva, que se soube esta quinta-feira que não participará das comemorações do 5 de outubro: "O senhor Presidente da República desconsidera os portugueses, desconsidera a República. Não esteve, com esta decisão, à altura da República".

Rui Duarte Silva

“Aos 14 anos já era um moderado; não é aos 54 que vou deixar de se”

Já faltava pouco mais de meia hora para a meia noite quando António Costa iniciou a sua intervenção desta noite - depois de, à tarde, ter descido a rua de Santa Catarina, no Porto, com muita gente à sua volta, como é timbre das tradicionais arruadas naquela artéria da baixa portuense. O líder socialista recuperou a energia que lhe parecera fugir na véspera e fez um discurso otimista, apesar das últimas sondagens (duas delas com voto em urna) confirmarem a vantagem da coligação: "As sondagens que eles tanto festejam pouco lhes dão a mais que o mínimo histórico que eles tiveram", clamou.

Depois, pediu o voto no PS, um partido que "os portugueses sabem bem quem é": "Nunca foi um partido radical e do conflito; foi sempre um partido da moderação". Prosseguiu: "Aos 14 anos já era um moderado; não é aos 54 que vou deixar de ser". Para voltar a atacar a coligação: "Não podemos confundir. Quem é radical, rompeu com a sua própria família e as suas raízes sociais-democratas, democratas-cristãs, da doutrina social da igreja (...) não fomos nós".