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Legislativas 2015

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PSD avisou PCP que estava a perder votos para Costa

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Marcos Borga

A queda dos comunistas na pré-campanha preocupou a coligação. Alarmados com as sondagens internas, avisaram o PCP de que tinha de contrariar o voto útil. Comunistas negam perentoriamente

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

com

Jornalista da secção Política

Rosa Pedroso Lima

Rosa Pedroso Lima

Texto

Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

O debate entre Jerónimo de Sousa e António Costa foi a gota de água: com a pré-campanha a chegar ao fim, e com o líder do PCP a adotar um tom pouco combativo no confronto com o secretário-geral socialista, o PSD decidiu fazer alguma coisa. E seguiu o aviso para os comunistas de que os votos lhes estavam a fugir, a favor do PS.

A tendência foi notada nos estudos sobre intenções de voto encomendados pela direita: havia boas notícias - a subida lenta, mas sustentada, da coligação, com um desempenho melhor do que o do PS - mas também havia más notícias - a mais preocupante, nessa fase, era a erosão das intenções de voto tanto no BE como na CDU. "Jerónimo de Sousa está a cometer um erro crasso, confundindo simpatia e popularidade com votos", comentava-se, então, nas cúpulas do Portugal à Frente. Houve a esperança de que as coisas mudassem com os debates televisivos, mas o desempenho do líder comunista ficou sempre abaixo da expectativa, tanto no embate com Catarina Martins, como, sobretudo, com António Costa.

Foi nessa altura - algures entre o final da pré-campanha e o arranque oficial da campanha - que um enviado laranja transmitiu essa informação aos comunistas, conforme apurou o Expresso junto de fontes que acompanharam o processo. O recado era claro: as sondagens laranja davam a CDU abaixo dos resultados de 2011. Ou endurecia o discurso em relação a António Costa, ou Jerónimo de Sousa seria atropelado pelo voto útil à esquerda. "Eles perceberam a mensagem", garante uma das fontes da coligação contactadas pelo Expresso.

O Gabinete de Comunicação do PCP recusa "fazer qualquer comentário a uma pura especulação".

nuno botelho

Suaves com Catarina

No caso do Bloco de Esquerda também havia, ao longo da pré-campanha, uma tendência para perder votos para o PS. Mas, nesse caso, não foi preciso dizer nada. O excelente desempenho de Catarina Martins nos debates relançou a sua imagem e fez dela uma das sensações da pré-campanha. E recuperou nas intenções de voto.

Quase todos os analistas deram a vitória a Catarina Martins nos três debates em que esteve - contra Jerónimo, em tom mais ameno, mas acima de tudo contra Portas e Passos, quando se mostrou mais assertiva. "Não foi por acaso que a deixámos brilhar", garantem agora responsáveis da coligação. "Se ela perdesse os debates contra nós, poderia haver eleitores a mudar o voto para o PS. Isso era a última coisa que queríamos", diz a mesma fonte. Convictos de que o PS não está a crescer ao centro e apostou tudo no voto útil à esquerda, a preocupação da coligação é marcar o terreno ao centro, contando com PCP e BE para contrariar o voto útil.

Como prova de que os líderes da direita estiveram em serviços mínimos nos debates com Catarina, há quem lembre na coligação a suavidade com que Portas apontou um erro da coordenadora do BE sobre a balança comercial. A bloquista garantiu que a balança comercial voltou a cair no negativo, o que não é verdade. Portas corrigiu-a com a máxima diplomacia: "Nenhum de nós é economista, não tem de estar bem informada sobre tudo", concedeu Portas, mas "números são números, dados são dados. A balança comercial não está negativa, está positiva" - e não se falou mais nisso. "Se quiséssemos esmagar a Catarina Martins, [Portas] não largava essa questão até ao fim do debate para mostrar que ela não está preparada e não sabe do que fala", assegura um centrista.

marcos borga

PCP em modo anti-PS

Com o arranque da campanha eleitoral Jerónimo de Sousa começou a apontar com mais veemência contra o PS e António Costa. A estratégia de ataque ao voto útil à esquerda estava delineada para a primeira semana de campanha e seria reforçada na reta final das Legislativas, garantem fontes da campanha da CDU. E assim se tem feito. O líder do PCP não fez uma única intervenção em que não referisse o papel dos socialistas na "situação dramática a que o país chegou". Ora, por ter assinado "o pacto de agressão com a troika", ora por ter "abandonado a luta e desertado do combate" contra a coligação governamental PSD/CDS. Jerónimo não esquece ainda o desempenho governamental do PS quando esteve no poder, ora aceitando cortes de salários e pensões, ora enfraquecendo os contratos de trabalho. Até Mário Soares foi chamado à responsabilidade por, em 1976, ter aberto a porta aos contratos a prazo. "Foi o PS que desencadeou os maiores ataques aos direitos dos trabalhadores", disse Jerónimo, no fim de semana, em Oeiras. "Tenham paciência, connosco não", arrumou o líder comunista. As hipóteses de entendimentos pós-eleitorais com os socialistas estão afastadas. As linhas vermelhas traçadas com o PS impedem qualquer compromisso.

A evolução nas sondagens foi positiva. Tanto a CDU como o BE estão, neste momento, perto do nível a que ficaram em 2011 - o que faz a coligação acreditar que o voto útil à esquerda estará a ser contrariado.