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Legislativas 2015

Legislativas 2015

O candidato do PS a quem o PS retirou a confiança política

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luís filipe catarino/expresso

As eleições de 1995 não foram um passeio para o PS. Uma das dificuldades mais inesperadas veio do próprio partido, quando Carlos Candal divulgou um célebre manifesto contra Paulo Portas e Pacheco Pereira, carregado de insinuações. A polémica foi tal, que Guterres retirou a confiança política ao cabeça de lista por Aveiro. A poucos dias das eleições, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 27º e último capítulo

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Carlos Candal era um deputado que dava nas vistas. Tinha uma voz grossa e poderosa, empunhava quase sempre um charuto e um verbo tão fácil como aguçado. Com uma longa carreira na luta contra a ditadura, tanto em Aveiro como Coimbra, era fundador do PS e dono de uma personalidade fortíssima. E isso tanto dava para ser um forte ativo político, como para criar alguns embaraços ao seu partido.

Foi isso que aconteceu em 1995, quando Candal liderou, uma vez mais, a lista do PS por Aveiro. Nesse ano, o PSD – que vinha de dez anos de Cavaco e tentava manter o poder com Nogueira – jogou tudo em Pacheco Pereira. E o CDS-PP de Manuel Monteiro apostou no então independente e estrela absoluta do jornalismo, Paulo Portas, acabado de chegar à política, onde, já agora, sempre tinha jurado nunca pôr os pés…

Candal não gostou dos ‘intrusos’ Pacheco e Portas e protagonizou um dos episódios mais polémicos da política nacional, quando divulgou um “Manifesto Anti-Portas em Português Suave”, um texto que fazia lembrar o estilo dos finais do século XIX ou do dealbar do séc. XX, um libelo corrosivo e gongórico contra Paulo Portas e Pacheco Pereira. O texto (que pode ser lido AQUI) era muito bem escrito mas muito perigoso e inabitual, porque o sarcasmo era facilmente lido como insinuação.

Por exemplo, esta citação, que na altura fez correr rios de tinta e foi imediatamente considerada inaceitável pela direção do PS:

“Particularmente difícil é porém 'fazer carreira política' em Portugal - sobretudo quando não se dispõe do apoio de qualquer dos 'lobbies' que condicionam quase toda a nossa atual vida pública. Estou a referir-me à 'solidariedade corporativa' na promoção individual de que beneficiam os membros da Maçonaria, os confrades da Opus Dei, os agentes dos grupos económicos e - mais recentemente - os parceiros da comunidade 'gay'. Trata-se de organizações ou agregados que mantêm intervenção (direta ou indireta) praticamente em todas as estruturas da nossa vida coletiva - também nos partidos políticos e na comunicação social. Agindo concertada ou avulsamente, os membros de tais 'lobbies' têm grande influência sobre muitas tomadas de posição de quem de direito e sobre a formação da opinião pública.”

Este era apenas um dos muitos mimos do Manifesto. A confusão foi enorme naquele dia, com protestos do PSD e do CDS e grande embaraço socialista. Acabou com uma decisão muito pouco habitual. Como a listas já estavam entregues no Tribunal Constitucional, o PS não podia retirar Candal de cabeça de lista a Aveiro. Restava a tal solução estranha: retirar a confiança política a um candidato. Foi isso que Guterres fez de imediato.

Alguns anos mais tarde, e lembrando que teve a maior votação de sempre do Po S em Aveiro, Candal referiu-se ao episódio: "Foi uma tentativa de homicídio político". Sobre Guterres, acrescentou: "Ele é excecional, tem um poder de síntese único, mas tem pouca testosterona. Só teve coragem contra mim", desabafou. Carlos Candal faleceu aos 71 anos, em 2009, deixando para trás muitos discursos inflamados, milhares de baforadas de charutos e um Manifesto que fez estrondo.

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  • Quando a lota matou o candidato

    Nove de junho de 2004: a três dias do início do Euro de futebol e a quatro das eleições europeias, a trágica morte em plena campanha de Sousa Franco, cabeça de lista do PS, chocou o país. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o oitavo capítulo

  • Quando Soares confundiu o CDS com o PP e Ribeiro e Castro com o PS

    A última campanha presidencial de Mário Soares foi uma prova para o candidato, mas também para os jornalistas. Houve momentos de grande confusão e este foi seguramente o mais confuso de todos. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o sétimo capítulo

  • Quando Sampaio defendeu a honra de Cavaco e calou um apoiante

    Jorge Sampaio nunca foi o político habitual, muito menos em campanha no terreno. Às vezes desconcertava os seus próprios apoiantes, como na vez em que deu um raspanete público a um apoiante que resolveu chamar “ladrão” a Cavaco Silva, seu opositor nessas presidenciais. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o sexto capítulo

  • Como Guterres mudou os debates para sempre e as arrobas chegaram ao estrelato

    António Guterres é provavelmente o político mais dotado em televisão que vimos em muitos anos. Ao pé dele, mesmo Paulo Portas ou Francisco Louçã eram “apenas” bons. Guterres tinha tanta confiança nos debates parlamentares e televisivos que mudou as suas regras para sempre. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o quinto capítulo

  • O PIB de Guterres contado na primeira pessoa

    A política portuguesa está cheia de gaffes, mas esta é a mais célebre de todas. Tão célebre que, na verdade, nem sequer é uma gaffe e ficou assim cunhada para a história. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o quarto capítulo, contado por Ricardo Costa - que fez a famosa pergunta a Guterres

  • O carnaval de Santana

    Uma campanha que parou ao segundo dia e uma inesperada visita a São Bento, com Santana a oferecer chás e cafés. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o terceiro capítulo

  • E Soares beijou o anão…

    Depois de o Expresso ter publicado em três etapas a retrospetiva dos melhores debates televisivos em Portugal, agora prossegue com uma nova série: histórias de campanha. A um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o segundo capítulo

  • “Consigo ainda dava uma cambalhota!”

    Depois de o Expresso ter publicado em três etapas a retrospetiva dos melhores debates televisivos em Portugal, agora arranca com uma nova série: histórias de campanha. A um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas

  • Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 1)

    Soares vs Cunhal, cigarros e mais cigarros, Soares contra Zenha, Freitas e Soares numa eleição épica e, claro, o célebre dia em que Marcelo, o rei da comunicação, perdeu o pio frente a Sampaio e lhe entregou a Câmara de Lisboa numa bandeja. Os nossos debates televisivos têm muito que contar. Por isso, puxámos da nossa memória seletiva e contamos tudo. Primeira etapa de uma viagem que continua nos próximos dias

  • Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 2)

    Nesta etapa há de tudo: do violento Basílio vs. Soares de 1991 ao debate que Jerónimo venceu por estar... afónico. Pelo meio, temos o importante Guterres/Nogueira, a vez em que o primeiro-ministro Guterres quis fazer debates sucessivos contra todos e o único confronto entre os irmãos Paulo e Miguel Portas. Quase no fim, a inequecível noite em que Santana e Sócrates se enfrentaram. Segunda etapa de uma viagem que terá ainda um terceiro e último capítulo

  • Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 3)

    Lembra-se de quando Carrilho deixou Carmona de mão estendida? E da noite em que Soares e Alegre se enfrentaram num estúdio televisivo? Neste artigo lembramos esses debates, mais o Cavaco/Alegre e dois dos melhores dos últimos anos: Sócrates contra Louçã em 2009 e o Passos vs. Sócrates em 2011. Terceira e última etapa da nossa viagem aos melhores debates televisvos em Portugal