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Legislativas 2015

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Puf!... O Paulinho das Feiras sumiu com o PàF

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O tipo de campanha que Paulo Portas fazia como candidato do CDS (a fotografia remonta a 2011) não pode ser copiado agora que é vice-primeiro-ministro e percorre o país lado a lado com Passos Coelho

Tiago Miranda

Desapareceu da campanha o melhor amigo das peixeiras e feirantes em geral. A última vez que foi visto envergava boné e o símbolo do CDS

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Esta é a primeira campanha para umas eleições legislativas, nos últimos 16 anos, em que ninguém vê, nem em feiras, nem em mercados, uma das personagens mais icónicas da arte portuguesa da caça ao voto. A última vez que foi visto em ação, há quatro anos, andava entre Mondim de Basto e Vila Nova de Gaia, saltitava entre Sátão e Alcobaça, passeava-se de Famalicão para Leiria. Usava boné, boina ou chapéu na cabeça e o símbolo do CDS nas bandeiras que o acompanhavam.

Ouvia piropos das peixeiras sobre ser um rapaz jeitoso, recebia promessas de apoio, às vezes apanhava uma bocas sobre submarinos e sobreiros. Não recusava um pé de dança, fosse à beira da fruta ou da hortaliça. Respondia muitas vezes em rima a quem o interpelava, com frases como "não há stresse, vota CDS". Dava sempre, garantidamente, boas imagens para os telejornais desse dia e citações para os jornais do dia seguinte.

Tudo isso acabou. O Portugal à Frente (PàF) eclipsou o Paulinho das Feiras. Sumiu. Puf!... PaF!... Pelo menos, para já - com a quantidade de vidas políticas que Paulo Portas já teve, nada garante que não volte, um dia, ao seu alter-ego das feiras e dos mercados, com nome cunhado por um vendedor ambulante cigano, na já distante campanha das legislativas de 1999. Foi a primeira vez de Portas numa campanha legislativa como líder do CDS, e o partido, depois das guerras internas que levaram à saída de Manuel Monteiro, não vivia tempos gloriosos. Sem dinheiro e sem gente, ia para onde a gente estivesse - Portas descobriu as feiras e as feiras descobriram-no a ele.

Neste vídeo gravado na campanha de 2011 para o canal do CDS no YouTube, Portas explicava a origem do nome, contava que tomou "o gosto" a andar pelas feiras e enumerava as vantagens de uma campanha feita assim. Por um lado, implicava uma espécie de seleção natural: "só vai às feiras quem pode andar de cabeça erguida". Por outro, era "um duche de realidade". "Quebra o isolamento entre quem é responsável político (...) e aquilo que é a sociedade verdadeira." Foi uma relação frutuosa e duradoura. Até agora. As feiras mudaram (chamam cada vez menos gente), as campanhas mudaram e Portas também mudou.

Risco desnecessário

Em coligação com o PSD, com mais poder do aparelho e capacidade de mobilização, deixa de ser tão necessário ir à procura de pessoas - nesta campanha, o PSD tem mostrado que consegue chamá-las. Quando é necessário fazer ações de contacto com a população, "o PSD é mais adepto de arruadas do que de feiras e mercados", constata um responsável do CDS. De facto, há quatro anos, Passos Coelho mal pôs os pés nesse tipo de locais - quem então estava na caravana lembra-se de uma feira em Vila Real, outra na Figueira da Foz, e mais uma em Viseu. Não é o tipo de coisa que mais entusiasma Passos, nem bate certo com o seu estilo calmo e austero.

Além dessas razões, há outra: o tipo de campanha que Portas fazia como candidato da oposição não pode ser copiado agora que é vice-primeiro-ministro e percorre o país lado a lado com o primeiro-ministro. Que mais não seja, por uma questão de cautela - "é um risco desnecessário", diz um responsável do PSD.

Prova disso é que a única incursão do PàF num mercado na atual volta dos líderes, que aconteceu em Braga, ainda na fase de pré-campanha, foi também o momento mais tenso de todos: foi onde a comitiva tinha à sua espera um protesto de professores e outro de lesados do BES. Os corredores apertados do mercado, tal como os das feiras, são uma espécie de armadilha quando as coisas correm mal. Pelo sim, pelo não, têm sido evitados.

O Portugal à Frente eclipsou o Paulinho das Feiras, que com as bandeiras do CDS por perto não recusava um pé de dança e dava sempre, garantidamente, boas imagens para os telejornais desse dia e citações para os jornais do dia seguinte

O Portugal à Frente eclipsou o Paulinho das Feiras, que com as bandeiras do CDS por perto não recusava um pé de dança e dava sempre, garantidamente, boas imagens para os telejornais desse dia e citações para os jornais do dia seguinte

Luís Barra

À espera do apito final

A campanha PàF tem-se feito com alguma rua - quinta e sexta-feira da semana passada e o fim de semana deram boas arruadas - e muitas visitas institucionais ao Portugal que corre bem - empresas, fábricas, explorações agrícolas... Passos e Portas em ambientes protegidos, em conversas longas e amenas com patrões, rápidas e de circunstância com trabalhadores, com o primeiro-ministro sem pressa de ir embora. Foi assim no início da semana passada e no início desta. O tempo a passar, sem correr riscos, como a equipa que tem vantagem no marcador e se recreia com a bola, apenas à espera do apito final ou de mais um erro do adversário. E há também os almoços e jantares, onde os aparelhos partidários mostram do que são capazes e os líderes são levados ao colo pelos seus.

Esta quarta-feira, em Viseu, os líderes do PàF voltam ao contacto de rua, e depois há as tradicionais arruadas no Porto e em Lisboa, para o grand finale, quinta e sexta-feira. Feiras e mercados é que não estão previstas. O Paulinho das Feiras continuará desaparecido. Como nas antigas páginas de classificados, dão-se alvíssaras a quem souber de seu paradeiro.