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Legislativas 2015

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Do lixo para os palcos: “Os contentores são a minha enciclopédia”

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DR

A sua obra parte do efémero. Procura o que os outros não querem. Vai ao lixo e pega em objetos deitados fora, criando novas experiências estéticas e sonoras. João Ricardo é um músico-escultor que encontra nos contentores a matéria-prima para a sua arte. Em 2013, a produção total de resíduos urbanos em Portugal rondou 4,4 milhões de toneladas, o que corresponde a uma queda de 4% face ao ano anterior. Este é o 28.º artigo da série “30 Retratos” que o Expresso está publicar diariamente. São 30 temas, 30 números e 30 histórias que ilustram o que Portugal é hoje em vésperas de eleições

Liliana Coelho

Liliana Coelho

Texto

Jornalista

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Infografia

Jornalista infográfica

LixoLuxo: o nome do seu site não foi escolhido ao acaso. É uma síntese da sua arte. Para João Ricardo, o lixo é mesmo um luxo. É com isso que faz instrumentos e música. Que desconstrói os sons e o mundo. E que expõe a criatividade ao ritmo dos sentidos.

“Os contentores do lixo são a minha biblioteca e a minha enciclopédia. Sou costureiro do som na minha definição. Para mim o silêncio não existe. Procuro em cada objeto a sua sonoridade e poética própria”, explica João Ricardo.

Nascido em Viana do Castelo, este artista plástico sonoro divide a maioria do tempo entre Portugal e a Alemanha, mas é na cidade minhota que tem instalado o seu quartel-general. Já lá vão mais de duas décadas. Atualmente, João Ricardo de Barros Oliveira continua também a viajar pelo mundo com exposições e workshops para jovens e seniores.

O seu projeto mais recente teve a Grécia como palco. Em maio, propôs-se a criar uma orquestra com crianças no Centro Cultural Onassis, construindo instrumentos a partir de lixo encontrado nas ruas de Atenas. Tudo serviu para o efeito, diz, “desde gavetas, puxadores de portas, bicicletas, ventiladores, tubos, cadeiras, sapatos, máquinas de escrever ou embraiagens”. Chamou orquestra do parafuso perdido.

“Eram 12 crianças com idades a rondar os 11 anos. Foi absolutamente fantástico. Houve a parte da construção da escultura sonora, a criação em conjunto de uma partitura com símbolos e o concerto final. Mostrei-lhes que cada objeto tem uma sonoridade e uma poética própria. É só preciso ouvi-los e associá-los. O lixo pode ser um tesouro”, defende João Ricardo.

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Menos lixo durante a crise

A matéria-prima da arte deste músico-escultor esteve contudo em quebra. Em 2013, a produção total de resíduos urbanos em Portugal rondou 4,4 milhões de toneladas, o que corresponde a uma queda de 4% face ao ano anterior. Em média, cada cidadão produziu cerca de 1,2 kg de lixo, segundo a Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

“Em 2013 registámos o valor mais baixo de resíduos urbanos dos últimos 12 anos. Até aí a nossa sociedade passou a consumir mais e a produzir, como consequência, mais resíduos urbanos, mas a partir de 2010 esse cenário alterou-se - como fruto da crise - o poder de compra diminuiu e o consumo também. Chegou-se a registar uma queda de 10% na produção de lixo no país”, frisa Rui Berkemeier, especialista em resíduos da Quercus.

Segundo o dirigente da associação ambiental, os dados mais recentes já apontam para um crescimento da produção de lixo, embora não seja significativo. “O valor dos resíduos urbanos é um dado interessante que reflete o poder de compra. E desde 2014, com a melhoria da conjuntura económica, haverá mais produção de lixo, como indicam os dados preliminares”, diz Rui Berkemeier.

Sentir a energia de cada objeto

Para João Ricardo, todo os objetos encontrados no lixo podem ser utilizados na construção de instrumentos e escultura sonoras. “O importante não é a qualidade mas a energia de cada objeto”, garante.

Assumindo-se como um amante do som, o artista plástico e músico defende que as sonoridades são uma plataforma de comunicação que veicula uma linguagem do sonho. “É o som que constrói e desconstrói. Os objetos e as palavras. Neste processo criativo há aqui uma insatisfação permanente, estou sempre à procura do som perdido. Admito que é uma missão incompleta e sempre em mutação”, acrescenta.

Durante os seus workshops, João Ricardo diz que convida cada participante a ouvir esse som, lembrando que é durante a observação do objeto que se cria um diálogo estético-poético. “Não existe um manual de instruções. Não sou uma folha A4, gosto de folhas A7 e por aí adiante. Nós aproveitamos, não reciclamos. O importante é observar, sentir o movimento e a energia e ouvir o som. A partir daí o trabalho flui”, explica.

Lisboa e Vale do Tejo lidera na produção de resíduos urbanos

Os últimos dados disponíveis sobre resíduos sólidos são de 2013 e indicam que a região de Lisboa e Vale do Tejo apresentou a maior produção lixo (37%), seguindo-se a região Norte (33%). No total, 87% tiveram origem na recolha indiferenciada, enquanto apenas 13% de recolha seletiva.

De acordo com Rui Berkemeier, a única medida preventiva recente a nível da política de resíduos sólidos foi o pagamento dos sacos plásticos, ainda que seja difícil ainda avaliar o seu impacto. “A variação da percentagem de plástico terá em teoria diminuído, mas é complicado contabilizar para já o efeito da medida, que pode ser também mascarada pela situação sócio-económica”, sustenta o especialista.

O dirigente da Quercus considera, contudo, que as escolhas dos Governos passados ameaçaram o futuro da reciclagem. “Em 1996 nós tínhamos uma situação caótica, todo o lixo ia para as lixeiras, mas depois por força das diretivas comunitárias e alertas de associações ambientais deu-se uma revolução ao nível dos resíduos sólidos. Mas algumas opções foram erradas”, lamenta.

Na opinião de Rui Berkemeier, foram gastos “milhões de euros em aterros e incineradoras que hipotecaram o futuro da reciclagem”. Defende que falharam neste processo soluções mais a montante, nomeadamente ao nível da recolha seletiva e do tratamento de resíduos: “Foi criado um sistema perverso. Os ecopontos são exemplo disso, apesar das boas intenções. A recolha de porta a porta é que é mais eficaz ”, realça.

Critica ainda o processo de privatização da Empresa Geral de Fomento (EGF) - responsável por cerca de 60% da gestão dee resíduos urbanos no país. "Houve falta de transparência em todo o processo de privatização da EGF. As câmaras municipais poderiam ter participado na solução se assim o entendessem”

Segundo o dirigente da Quercus, a opção mais favorável seria um sistema integrado, sendo que os resíduos urbanos indiferenciados deveriam ser transportadas para unidades de tratamento mecânico-biológico.

Relativamente ao Plano Estratégico para os Resíduos Urbanos para 2020, Berkemeier também considera que as metas são desadequadas. "O plano condiciona os objetivos de reciclagem porque não obriga a reciclar quase nada. Apresenta como meta 89% para zonas do Alentejo, enquanto Lisboa tem 35%. E qual é o objetivo desta ação? Tudo leva a crer que é para proteger os investimentos nas incineradoras", acusa.

Há alertas de outros lados. Uma equipa de investigadores da Universidade de Coimbra defende que a atual legislação relativa a aterros sanitários tem aspetos negativos. Segundo a principal investigadora do projeto, Sónia Chelinho, as antigas lixeiras mantêm "resíduos em degradação com potencial de contaminação".

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Paixão antiga pelo lixo

A paixão pelos objetos perdidos ou deitados fora foi sempre constante na vida de João Ricardo. Conta que quando era pequeno gostava de observar tudo aquilo que ia parar aos areais de Viana do Castelo. “Fascinou-me sempre a história das coisas. Adorava observar o que aparecia na praia ao ritmo das marés.”

Na arte do lixo, o músico e escultor plástico acredita que os objetos utilizados evocam o passado e criam o futuro, sendo uma janela aberta para a interpretação de cada um. “A escultura sonora não é estática. É aberta. O mais importante é permitir que a obra esteja liberta e não deixá-la aprisonada e sufocada numa galeria. Cabe a cada um observá-la e recriá-la. É esse o meu convite”.