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BE. Francisco e Catarina, a passagem do testemunho

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Nuno Botelho

Rei morto, rainha posta. Na noite desta segunda-feira, em Coimbra, Francisco Louçã falou pela primeira vez num comício desta campanha. Um momento simbólico na história do Bloco de Esquerda

Paulo Paixão

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Jornalista

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Dia 28 de setembro de 2015, 22h40. Francisco Louçã acaba de discursar na tenda do Bloco de Esquerda montada no Pátio da Inquisição, em Coimbra. Desce do palco e regressa à primeira fila, para se sentar, mas antes disso dirige-se a Catarina Martins, que está de pé. Dão um beijo e um abraço, sob o aplauso das cerca das 300 pessoas presentes. Há um antes e um depois deste momento na história do BE.

Francisco Louçã foi um dos quatro fundadores do partido, o coordenador da sua direção durante largos anos. Mas mais do que o estatuto, foi na prática (para dentro e para fora) o líder incontestado do Bloco desde a sua fundação até 2012, quando saiu de cena.

À era Louçã sucedeu o modelo de liderança bicéfala de João Semedo & Catarina Martins, que aguentou o barco da forma possível, até ao momento em que a nau bloquista já ameaçava adornar.

No congresso de novembro do ano passado, a tensão (e a confrontação) atingiu o auge e o naufrágio estava iminente. Não para todos, que alguns saíram entretanto, uns surfando certas ondas, outros buscando mesmo outros mares.

Com o partido quebrado ao meio, emergiu uma solução de compromisso sem dar a alguém os poderes substantivos de um chefe clássico (também não é, nunca foi, a genética bloquista): uma comissão permanente de seis membros, tendo Catarina Martins como porta-voz.

Nuno Botelho

Uma primeira reanimação

Com o BE a definhar, ou pelo menos a parecer que isso poderia acontecer, na comissão parlamentar do BES surge o garrote que estanca a hemorragia, e depois se torna em suplemento vitamínico e de alma: Mariana Mortágua.

Mas é nos debates televisivos entre os líderes partidários que o Bloco é puxado para o lado solar da campanha, por força do brilho alcançado, ante a surpresa de muitos, por Catarina Martins (frente a Jerónimo de Sousa, Passos Coelho, Paulo Portas ou António Costa).

De repente, a simples “porta-voz nacional” do BE passa a ser muito mais do que isso: é a cara reconhecida em feiras e mercados, alguns em pontos recônditos, a quem sobretudo mulheres (e também alguns homens de mais idade) dão palavras de reconhecimento e de incentivo. E de muito afeto, em bastantes casos.

Em Coimbra, na noite de segunda-feira, Louçã estreou-se num comício desta campanha (voltará a falar na sessão de encerramento, sexta-feira, na Alfândega do Porto). Acompanhado por João Semedo, entrou na tenda erguida junto ao antigo Colégio da Artes, uns metros atrás de Catarina Martins (ladeada por José Manuel Pureza e Marisa Matias), como que a querer mostrar a todos, se dúvidas houvesse, que a cabeça do pelotão passa agora bem sem ele.

Ou talvez a distância fosse apenas consequência da necessidade de corresponder aos abraços, beijos e cumprimentos de quem parecia estar a reencontrar um amigo que não via desde há muito.

Nuno Botelho

Sem paternalismos

No palco, Louçã começou a sua intervenção por apresentar Catarina “como o melhor valor que a esquerda tem” (e na frase imediatamente anterior introduzira Marisa Matias como “o maior orgulho que Portugal pode ter na Europa”).

Fernando Rosas, um dos quatro pais-fundadores do BE (a par de Francisco Louçã, Luís Fazenda e Miguel Portas), reconhecia há dias ao Expresso que “a saída de Francisco Louçã foi traumática para o Bloco, como sempre o é a saída de dirigentes carismáticos”.

Esse tempo, a avaliar por esta campanha eleitoral, está ultrapassado e enterrado. Se há coisa que se percebe bem por quem desde há dias acompanha as ações do Bloco pelo país é que nunca se vislumbraram vestígios de qualquer orfandade de Francisco Louçã.

Um mérito de Catarina, como é óbvio, que soube ganhar a pulso o seu espaço. E igualmente um tributo a Francisco: são muito raras assim as “saídas limpas” na política.

Em Coimbra, o ex-coordenador não se limitou a uma intervenção para cimentar a (re)união do bloco, das suas diversas sensibilidades e gerações (agora que na linha da frente está gente bem mais nova), ou a galvanizar ainda mais quem já anda bastante entusiasmado.

Não resistir a meter as mãos na massa

No Pátio da Inquisição, não surgiu um velho patriarca a exibir o seu alto patrocínio a um jovem turco (ou “jovem turca” neste caso, que no BE as questões de género são idiossincráticas). Louçã meteu as mãos na massa no aceso combate político destas horas. Esgrimiu com a imagem, eficaz, do “homo troikensis”; brincou com os medos de Passos, Portas e Costa; e identificou expressamente às hostes quais os “votos decisivos” que é preciso captar até 4 de outubro: os abstencionistas; “os votos dos socialistas que não sabem o que o seu partido quer”; e os eleitores que “foram enganados por PSD e CDS”.

Foi como se o velho general tivesse voltado ao campo de batalha para, tão-só, desempenhar a missão que estava na escala de serviço. Não deixou, contudo, de aconselhar publicamente quem agora lidera o Bloco. E fê-lo sobre o tópico mais importante por estes dias para (toda) a esquerda: saber se há combinações e entendimentos que permitam uma maioria parlamentar que retire a direita do Governo.

“Catarina: não te surpreendas porque há duas semanas António Costa não te respondeu ao que lhe disseste olhos nos olhos” no debate televisivo, disse o ex-coordenador do BE, neste regresso à primeira trincheira da luta. Referia-se às duas condições colocadas pelo Bloco para negociar a viabilização de um Governo chefiado por António Costa: o PS teria de recusar no congelamento das pensões e desistir do despedimento conciliatório.

Nuno Botelho

Nas palavras finais, quando a sala já se levantava para o aplaudir e o barulho mal deixava ouvir o que dizia, Francisco Louçã faz um último apelo à nova líder, instando-a a manter na luta “essa paixão” que transporta nesta campanha.

Em Coimbra, numa muito amena noite de outono e a seis dias das eleições, Francisco e Catarina operaram, aos olhos dos seus, uma passagem de testemunho. Mas a avaliar pelo que se passou na noite de ontem, até 4 de outubro vão caminhar bem a par.