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Legislativas 2015

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Catarina desafia jovens para o voto aos 16 anos. Em Fátima, eles respondem com voto (de silêncio)

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Nuno Botelho

A líder do Bloco de Esquerda meteu na campanha um tema “fora da caixa”: o votos aos 16 anos. Os destinatários do apelo nem ligaram

Paulo Paixão

Paulo Paixão

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotos

Fotojornalista

Começou por Fátima, com vista para o Santuário, a primeira ação de campanha do BE no arranque da peregrinação final para as legislativas.

Catarina Martins, acompanhada pelo número 3 da lista em Lisboa, Jorge Cosa, visitou a Escola de Hotelaria e Turismo. Uma iniciativa para conhecer melhor a realidade do ensino técnico profissional e ouvir na primeira pessoa os anseios e os sonhos dos jovens, muitos deles sub-18 (para se entrar nesta escola basta ter o 9.º ano).

Esse contacto da candidata foi sendo feito ao longo da visita, quando entrou em três salas de aula, e ouviu de professores e responsáveis da escola explicações sobre as atividades desenvolvidas.

Se em alguns casos as lições eram teóricas, desde a disciplina de “restaurante-bar” à de “cozinha”, o contacto com a matéria passou também por aulas práticas, no preciso momento em que estavam a ser confecionados bolos.

Nuno Botelho

Pouco (de)votos

Antes do final da visita, cerca de meia centena dos 312 alunos da escola (são 613 no total, com os do polo de Ourém) estavam numa sala de aula com Catarina Martins sentada no lugar da professora, tendo a seu lado o diretor do estabelecimento, Francisco Vieira.

A candidata do Bloco, que norteou a sua presença pela discussão da inserção profissional dos jovens, tirou subitamente um coelho da cartola: “Se calhar, estava na altura em Portugal que o direito de voto passasse para os 16 anos. Se os jovens já podem trabalhar com essa idade, se podem pagar impostos, e se têm responsabilidade criminal (são presos se cometem um crime), então a partir dos 16 anos já deviam poder votar” – mais tarde acrescentaria a possibilidade de chamada para a tropa. “Gostava de ouvir algumas ideias”, disse Catarina Martins, aguardando depois a resposta dos jovens.

Em resposta, nenhuma palavra, só um silêncio, cortado segundos depois, mas de alguém com um discurso pontuado pela “preocupação ambiental” e a “construção de barragens desnecessárias”.

Fosse da presença de uma política que já se habituaram a ver na TV, fosse do contingente de jornalistas na sala, o que é um facto é que um certo gelo continuava por quebrar. Só quando o diretor da escola obrigou os alunos a intervir, indicando qual deles devia falar, é que os voluntários à força introduziram temas de diálogo.

Nuno Botelho

Contra a exploração dos jovens

Então, discutiram-se os salários baixos para os jovens, quando os há, pois são cada vez mais os casos de “estágios não remunerados”, entre outras situações, que distorcem o mercado de trabalho.

Catarina Martins disse que uma das propostas do BE neste campo passa por “não permitir o abuso do trabalho voluntário e dos estágios não remunerados, pois as gerações mais jovens não podem ser mão de obra de segunda”. Como contraponto a esta realidade, sublinhou, “há 10 mil novos milionários” em Portugal, pelo que “importa distribuir melhor o dinheiro que há no país”.

Como forma de criar mais postos de trabalho no país e de permitir a entrada de mais jovens no mercado laboral, Catarina Martins deixou as duas condições do Bloco de Esquerda: “Reduzir horários”, que não devem passar das 35 horas semanais, pois “há cada vez mais gente sem tempo para a família”; e baixar a idade de reforma em certos casos, pois ela “tem de ser dada após os 40 anos de descontos”.

O melhor viria, no entanto, no final, quando Catarina Martins se preparava já para abandonar a sala. Ainda do estrado, a líder do Bloco dirigiu-se aos alunos dizendo ter “pena que não votem já”, e foi ovacionada pela turma depois do diretor da escola ter pedido “uma salva de palmas para a drª Catarina”.

A líder do Bloco foi ainda interpelada sobre a legalização do consumo de drogas leves, tendo explicado as razões pelas quais defende tal alteração legislativa: “Uma forma de proteger a saúde pública” e de “combater o tráfico que fica nas mãos de redes mafiosas”.

O problema dos refugiados na Europa foi outro dos assuntos levados à discussão por um dos jovens.

Nuno Botelho

Uma certa estrelinha em Fátima

Catarina Martins, que passará o resto desta segunda-feira em Coimbra, onde terá seu lado Francisco Louçã no comício da noite, foi a Fátima mas para pisar terrenos estritamente profanos, com respeito absoluto pela matriz de laicidade que anima o Bloco.

Mas se além da que está no símbolo do partido tem havido uma certa estrelinha nesta campanha do Bloco (que tem trabalhado bastante para ela, é um facto), ou ela está agora a brilhar com a luz da providência ou então hoje aconteceu uma daquelas partidas do destino.

É que além do local onde se situa a Escola de Hotelaria e Turismo ter vista (embora parcial) para o Santuário, o edifício hoje destinado à formação profissional dos jovens é um antigo seminário, que a crise das vocações foi deixando vazio, até que o espaço foi comprado pela Câmara de Ourém.

Como se não bastassem estas estranhas coincidências, antes de dar a volta ao claustro da antiga casa religiosa, Catarina Martins começou a visita guiada pelo auditório da escola – nem mais nem menos a antiga capela do seminário monfortino de Fátima.