Siga-nos

Perfil

Legislativas 2015

Legislativas 2015

“A paulada é que me dói mais”

  • 333

Rui ochôa

A paulada da Marinha Grande é o episódio mais célebre das nossas campanhas eleitorais. Um momento de enorme tensão, que Soares aproveitou com coragem e que virou uma campanha do avesso. A uma semana das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 23º capítulo

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

“Eu ia-lhes a dizer para terem calma, para não se confrontarem com situações de violência e, de repente, deram-me um murro na cara, que me desequilibrou. Depois, veio um jovem pelas minhas costas e deu-me um murro na cabeça, de cima para baixo, com bastante força. Depois ainda apanhei uma paulada, que é o que me dói mais”. Foi com estas precisas palavras que Mário Soares descreveu a cena da Marinha Grande, onde foi alvo de uma agressão, durante a primeira volta da sua campanha presidencial, no dia 15 de janeiro de 1986.

Pouco antes de chegar ao que estava a deixar de ser o bastião vidreiro e autarquia comunista mais a norte do país, Soares foi avisado pelo seu mandatário que não seguisse, uma vez que centenas de elementos aparentemente ligados ao PCP estavam lá para o boicotar e talvez para o agredir.

Soares, com a sua calma desconcertante e também com a coragem física que o caracterizava, respondeu:

“Era o que faltava não poder circular livremente pelo meu país”.

E mandou o carro ir em frente.

O mandatário não exagerara. Uma enorme concentração de militantes de esquerda esperava Soares com palavras de ordem agressivas. Basicamente, os salários em atraso que se faziam sentir na terra eram o principal mote.

Soares sai do carro, sempre acompanhado pelo então subchefe Paulo, destacado pela PSP para segurança a personalidades, e avança na direção da Fábrica dos Irmãos Stephens. É nessa altura que tudo acontece. O momento exato existe numa feliz fotografia de Rui Ochoa que também cobria a campanha. O chefe Paulo consegue interpor, corajosamente, a sua cabeça entre um vigoroso golpe de varapau que se ia abater sobre a cabeça do candidato. Tal valeu-lhe um lanho na cabeça que sangrou abundantemente, mas desviou a paulada para o ombro e pescoço de Soares – o que mais lhe doeu, segundo ele confessaria.

Os apoiantes de Soares e os jornalistas conseguem entretanto recuar para a fábrica Stephens, onde depois de conseguirem fechar os portões, ficam mais ou menos a salvo.

Muita tinta correu sobre este episódio. Houve quem acusasse Soares de encenação e quem dissesse que tinham sido os seus seguranças a apontar pistolas. Para quem viu, nada disso é verdade. Como, na altura, Soares dizia havia duas esquerdas: a que sabia viver em democracia (o PS) e a que não queria nem sabia (o PCP). Na altura era assim. Hoje as clivagens são outras.

  • Os nossos tesourinhos das campanhas

    Beijos em anões, mergulhos no Tejo, gafes, debates épicos, bolos-reis comidos à pressa, mais gafes, frases memoráveis, momentos embaraçosos e outros gloriosos. E, claro, muita política. Varremos tudo de forma pouco científica e puxámos pela memória de 40 anos de democracia. Durante o mês que antecedeu as legislativas, revisitámos diariamente as campanhas de outrora. Juntamos o resultado num único artigo

  • A noite em que Sampaio adormeceu. Ou não

    A segunda campanha de Sampaio para Belém foi apenas um pró-forma. Ferreira do Amaral deu a cara e o corpo pela derrota da direita e o Presidente foi reeleito nas calmas em janeiro de 2001. Como se previa. A menos de duas semanas das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 21.º capítulo

  • Muitas oliveiras tem este país!

    Oliveira do Hospital, do Bairro ou de Azeméis? Quem anda em campanha deve saber distingui-las, mas nem sempre é fácil, sobretudo depois de uma sesta rápida no carro. Foi o que aconteceu a Soares, que acabou por ter uma saída genial. A menos de duas semanas das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 20.º capítulo

  • O efeito cherne na vida do Zé Manel

    Lembram-se de ouvir falar de Einhart da Paz? Foi o brasileiro responsável pelo marketing da campanha de Durão Barroso, aquela em que a mulher do candidato o comparou a um cherne. De um dia para o outro, Zé Manel cresceu cinco por cento no eleitorado feminino. A menos de duas semanas das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 19º capítulo

  • Pontal vs. Pontinha: este, sim, foi o derby dos comícios

    Os portugueses que ligam à política (e até os que não ligam) sabem bem o que é o Pontal. Mas poucos se lembram que em 1995, o PS resolveu fazer marcação ao comício da rentrée do PSD e marcou um evento para Faro exatamente à mesma hora. Foi o Pontal contra a Pontinha, uma noite épica em que as televisões puseram helicópteros no ar e tudo. A menos de duas semanas das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 18º capítulo

  • Quando os salários congelaram Durão

    Março de 2002. A dez dias das eleições que levariam o PSD, coligado com o CDS, de volta ao poder, Durão Barroso teve um dia negro com afirmações, contradições e trapalhadas. Motivo: o congelamento dos salários na função pública. Crónica de um tempo em que os políticos eram criticados se prometiam aumentos... pequeninos. A menos de duas semanas das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 17º capítulo

  • A bomba de Cunhal

    Em 1991, Cunhal fez a sua última campanha eleitoral como secretário-geral do PCP. Nesse dias, o líder comunista nunca largou a sua pochette nem revelou o que levava lá dentro. A duas semanas das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 16º capítulo

  • Quando Cavaco Silva fez a cara mais estranha da nossa política

    Cavaco Silva corria para Belém pela segunda vez. Dez anos antes tinha perdido a eleição para Jorge Sampaio. A campanha acabou por ser um passeio para o antigo primeiro-ministro. Mas teve percalços. Santana Lopes, a quem Cavaco tinha ajudado a correr de S. Bento com o artigo no Expresso sobre “a má moeda”, diria na SIC Notícias que se o professor fosse eleito, era de esperar “sarilhos institucionais” com Sócrates, então primeiro-ministro. A duas semanas das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 15º capítulo

  • O golo de Vilarinho que lesionou Durão Barroso

    José Luís Arnaut levou o futebol para a campanha de Durão Barroso à boleia do Euro. E o Benfica tremeu. Vilarinho estampou-se em direto. A dívida fiscal do Benfica esteve em cima da mesa. E o Zé Manel chegou a primeiro-ministro. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 12º capítulo

  • No tempo em que os comícios de Sócrates tinham sabor a caril

    Não é novidade que em campanha eleitoral os partidos tentem sempre encher a sala. Mas o PS de Sócrates exagerou. Em Évora, na corrida de 2011, os turbantes que compunham a plateia deram nas vistas. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 11º capítulo

  • Quando Soares chocou com uma “alfaiataria” das novas

    Mário Soares, candidato presidencial em 2006. O povo na rua já não vibra com o bochechas e o animal político sente na pele que a idade conta. Em Viseu, foi uma loja a trai-lo. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o nono capítulo

  • Quando a lota matou o candidato

    Nove de junho de 2004: a três dias do início do Euro de futebol e a quatro das eleições europeias, a trágica morte em plena campanha de Sousa Franco, cabeça de lista do PS, chocou o país. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o oitavo capítulo

  • Quando Soares confundiu o CDS com o PP e Ribeiro e Castro com o PS

    A última campanha presidencial de Mário Soares foi uma prova para o candidato, mas também para os jornalistas. Houve momentos de grande confusão e este foi seguramente o mais confuso de todos. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o sétimo capítulo

  • Quando Sampaio defendeu a honra de Cavaco e calou um apoiante

    Jorge Sampaio nunca foi o político habitual, muito menos em campanha no terreno. Às vezes desconcertava os seus próprios apoiantes, como na vez em que deu um raspanete público a um apoiante que resolveu chamar “ladrão” a Cavaco Silva, seu opositor nessas presidenciais. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o sexto capítulo

  • Como Guterres mudou os debates para sempre e as arrobas chegaram ao estrelato

    António Guterres é provavelmente o político mais dotado em televisão que vimos em muitos anos. Ao pé dele, mesmo Paulo Portas ou Francisco Louçã eram “apenas” bons. Guterres tinha tanta confiança nos debates parlamentares e televisivos que mudou as suas regras para sempre. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o quinto capítulo

  • O PIB de Guterres contado na primeira pessoa

    A política portuguesa está cheia de gaffes, mas esta é a mais célebre de todas. Tão célebre que, na verdade, nem sequer é uma gaffe e ficou assim cunhada para a história. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o quarto capítulo, contado por Ricardo Costa - que fez a famosa pergunta a Guterres

  • O carnaval de Santana

    Uma campanha que parou ao segundo dia e uma inesperada visita a São Bento, com Santana a oferecer chás e cafés. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o terceiro capítulo

  • E Soares beijou o anão…

    Depois de o Expresso ter publicado em três etapas a retrospetiva dos melhores debates televisivos em Portugal, agora prossegue com uma nova série: histórias de campanha. A um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o segundo capítulo

  • “Consigo ainda dava uma cambalhota!”

    Depois de o Expresso ter publicado em três etapas a retrospetiva dos melhores debates televisivos em Portugal, agora arranca com uma nova série: histórias de campanha. A um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas

  • Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 1)

    Soares vs Cunhal, cigarros e mais cigarros, Soares contra Zenha, Freitas e Soares numa eleição épica e, claro, o célebre dia em que Marcelo, o rei da comunicação, perdeu o pio frente a Sampaio e lhe entregou a Câmara de Lisboa numa bandeja. Os nossos debates televisivos têm muito que contar. Por isso, puxámos da nossa memória seletiva e contamos tudo. Primeira etapa de uma viagem que continua nos próximos dias

  • Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 2)

    Nesta etapa há de tudo: do violento Basílio vs. Soares de 1991 ao debate que Jerónimo venceu por estar... afónico. Pelo meio, temos o importante Guterres/Nogueira, a vez em que o primeiro-ministro Guterres quis fazer debates sucessivos contra todos e o único confronto entre os irmãos Paulo e Miguel Portas. Quase no fim, a inequecível noite em que Santana e Sócrates se enfrentaram. Segunda etapa de uma viagem que terá ainda um terceiro e último capítulo

  • Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 3)

    Lembra-se de quando Carrilho deixou Carmona de mão estendida? E da noite em que Soares e Alegre se enfrentaram num estúdio televisivo? Neste artigo lembramos esses debates, mais o Cavaco/Alegre e dois dos melhores dos últimos anos: Sócrates contra Louçã em 2009 e o Passos vs. Sócrates em 2011. Terceira e última etapa da nossa viagem aos melhores debates televisvos em Portugal