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Legislativas 2015

Legislativas 2015

Perder um debate quando já ninguém o estava a ver (mas estavam a filmar)

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Nuno Botelho

Já houve tempos em que Manuel Maria Carrilho era um trunfo eleitoral. Ou, pelo menos, alguém pensava que era. Foi assim que avançou para a Câmara de Lisboa, numa campanha que se transformou num desastre. Uma mão deixada estendida no ar foi o ponto mais alto (ou mais baixo) dessas semanas de 2005. A uma semana das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 22 º capítulo

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Pode-se perder um debate televisivo quando já ninguém o está ver, depois do genérico final e com publicidade a passar nos televisores? Até ao final de 2005 devia haver muito pouca gente a arriscar responder que sim. Mas um frente-a-frente televisivo na SIC Notícias entre os dois principais candidatos à Câmara Municipal de Lisboa mostrou a toda a gente que, sim, é possível perder um debate sem grande história quando já ninguém o está a ver e entrar numa pista descendente até à derrota estrondosa nas urnas (Carrilho partiu como favorito e acabou com 27% contra 42% de Carmona Rodrigues).

O debate era apenas um dos vários frente-a-frente que a SIC Notícias organizou para essas autárquicas, com os candidatos de algumas das câmaras mas importantes do país, uma sequência moderada pró João Adelino Faria, hoje em dia pivot na RTP. Naquele dia, a SIC tinha uma equipa de reportagem a fazer os chamados bastidores do debate: a chegadas, a preparação, a maquilhagem, a ida para o estúdio, a contagem decrescente e depois a saída do estúdio e da SIC: Nada de mais nem particularmente importante. E foi assim que tudo se passou. Tanto Carmona Rodrigues como Manuel Maria Carrilho foram logo entrevistados à chegada e sempre seguidos pela equipa de reportagem da SIC até ao estúdio.

O debate decorreu sem grande história, embora com alguma tensão no ar. Carmona tinha sido número dois de Santana Lopes, quando este roubou a Câmara a João Soares em 2001, e depois tinha sido ministro de Durão Barroso e regressado à Câmara para a liderar quando Santana foi para primeiro-ministro. Nesta altura, as relações de Carmona Rodrigues com Santana já não era grande coisa, porque este regressou à Câmara quando caiu o governo, relegando Carmona a número dois de novo. Mas esses anos atribulados tinham transformado um engenheiro sem qualquer experiência política num trunfo eleitoral: vereador, ministro, presidente de câmara e novamente vereador, tudo em quatro anos.

Do outro lado, estava um Carrilho que tinha sido uma estrela do primeiro governo Guterres, um ministro polémico mas muito eficaz e que nunca tinha escondido a vontade de liderar a maior cidade portuguesa. Carrilho nunca teve muita paciência para algumas discussões e não gostou da forma como decorreu o debate, apesar de não ter tido nenhum momento especialmente importante. Mas foi essa falta de paciência e altivez que o “tramou”. Quando o debate acabou e já com a equipa de reportagem da SIC dentro do estúdio de forma bem visível, Carmona Rodrigues estende a mão a Manuel Maria Carrilho e este deixa-o pendurado.

Uma hora depois a SIC Notícias tinha no ar a reportagem de bastidores e o aperto de mão não consumado passou a ser o acontecimento político da corrida autárquica. Carrilho nunca mais se livrou da fama de mal educado e tudo lhe correu mal a partir daí. Moral da história: numa campanha eleitoral e num debate televisivo devemos sempre saber que há uma alta probabilidade de estarmos a ser filmados.

Nota: um ano depois Manuel Maria Carrilho publicou o livro “Sob o signo da verdade” com uma versão radicalmente diferente desta. Como então era diretor da SIC Notícias desmenti-o publicamente e acusei-o de inventar uma versão falsa, só porque lhe dava jeito. Acabámos a discutir esta campanha num Prós e Contras. A minha versão mantém-se e tem muitas testemunhas. A dele não tem testemunhas, mas é natural que se mantenha.

  • Os nossos tesourinhos das campanhas

    Beijos em anões, mergulhos no Tejo, gafes, debates épicos, bolos-reis comidos à pressa, mais gafes, frases memoráveis, momentos embaraçosos e outros gloriosos. E, claro, muita política. Varremos tudo de forma pouco científica e puxámos pela memória de 40 anos de democracia. Durante o mês que antecedeu as legislativas, revisitámos diariamente as campanhas de outrora. Juntamos o resultado num único artigo