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Legislativas 2015

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BE e o milagre da multiplicação do défice: obra do Espírito Santo, com intervenção do Pai (Cavaco) e do Filho (Passos)

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No comício de Setúbal, os bloquistas continuaram a pedir contas a quem impôs sacrifícios em nome do défice. Joana Mortágua fez a parábola da noite (herética e na calha para os óscares da campanha). Contra a austeridade, Catarina Martins recitou a cartilha: aumentar o salário mínimo; pagar subsídio social de desemprego; e fazer uma reforma fiscal para “ir buscar dinheiro a quem nunca pagou impostos”

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotojornalista

O Bloco de Esquerda continua a apostar nos dividendos políticos dos números revelados nesta semana relativos ao défice de 2014. Mais uma vez, Catarina Martins, no discurso com que encerrou o comício de Setúbal, na noite desta quinta-feira, colocou o assunto no centro da intervenção: “Este Governo deixa o défice como défice anterior, mas deixa uma dívida maior e uma riqueza mais baixa”, afirmou.

A porta-voz do Bloco voltou a insurgir-se contra a declaração de Bruxelas, que nesta quinta-feira garantiu não haver necessidade de novos cortes para fazer face ao novo défice. Para Catarina Martins, a Europa, em vez de “fazer o seu trabalho”, como seria o de resolver o problema dos refugiados, “prefere interferir na campanha eleitoral de um país democrático”.

Mas na desmontagem do défice português, a intervenção mais arrojada foi a de Joana Mortágua, a cabeça de lista do BE por Setúbal (esse “distrito de luta, que sabe o que vale a luta e não baixa a cabeça”, como diria mais tarde Catarina Martins).

A menos conhecida das gémeas Mortágua (ao contrário da irmã, Joana só agora está em vias de assumir um lugar no hemiciclo) fez uma intervenção à volta dos “três milagres do Governo da direita”, que agora se apresenta como “salvacionista”.

Numa espécie de narrativa místico-política, Joana Mortágua falou do “milagre da multiplicação do défice”, agora fixado em 7,2% do PIB, sobretudo devido à incorporação dos buracos do BES/Novo Banco. Algo que “surgiu por obra e graça do Espírito Santo, com a intervenção do Pai (Cavaco Silva) e do Filho (Pedro Passos Coelho)”. Foi o momento da noite, que arrancou talvez a maior, e certamente a mais bem disposta, ovação dos militantes e apoiantes do Bloco que deixaram bem composto o Largo da Ribeira Velha.

Um milagre, prosseguiu Joana Mortágua, alimentado pela “fé nos mercados” e pela “devoção aos bancos”.

Nuno Botelho

O mesmo Deus e a mesma Bíblia

Depois da multiplicação do défice, a candidata do Bloco antecipa “o próximo milagre do Governo” (Joana Mortágua omitiu se será um Executivo do PSD, do PSD, com ambos ou de outra configuração): “a multiplicação da austeridade”.

E antecipou um futuro negro: “Mais austeridade, mais sacrifícios, mais pobreza”, pela mão dos que respondem “ao mesmo Deus e pregam a mesma Bíblia, o Tratado Orçamental”.

Para sair do ciclo de cortes - “basta da mentira da austeridade; a austeridade não controla as contas, descontrola as nossas vidas" -, Catarina Martins, à medida que a campanha avança, vai tornando mais presentes no discurso as exigências do Bloco.

Reiterando o que horas antes dissera a uma moradora da Rua Morais Soares, em Lisboa, que a interpelou durante a arruada e se queixou de como tem de viver com 505 euros por mês, a líder do BE Martins salientou que a “a primeira reivindicação tem de ser o aumento do salário mínimo nacional”. A esta medida deve somar-se o pagamento do subsídio social de desemprego e a criação de uma reforma fiscal que irá “buscar o dinheiro a quem nunca pagou impostos”.

Além deste pacote de medidas, Catarina Martins sublinhou que o Bloco não aceita a “estratégia de baixos salários ”que a direita impõe, mas também rejeita a “flexibilização de despedimentos que o PS propõe”.

Nuno Botelho

Os subterrâneos de Lisboa ou o “assalto ao país”

A líder do Bloco, que na véspera andara de metro entre Cacilhas e Corroios, na margem sul do Tejo, numa iniciativa que serviu para defender a importância dos transportes públicos, rejeitando por isso a privatização de empresas do sector (como o Metro de Lisboa, por exemplo), levou ao comício de Setúbal uma importante informação acabadinha de publicar em Diário da República.

É num daqueles anexos de leitura remota que estão a condições que o Governo oferece à futura concessionária do Metro de Lisboa. O Estado que hoje paga 32 milhões de euros de indemnizações compensatórias à empresa pública Metro de Lisboa (valor desembolsado pelo erário em 2014, segundo referiu Catarina Martins), irá a partir de 2016, e durante 9 anos, entregar uma média de 55 milhões de euros à empresa privada que ficará com a exploração da linha - na verdade, será uma média de 51,2 milhões (mais IVA), pois a líder do Bloco enganou-se nas contas.

E aquela é apenas uma das “generosas borlas” que o Governo dá aos concessionários, “a duas semanas das eleições”, lembrou Catarina Martins.

É que na operação de privatização, “a dívida do Metro de Lisboa já entrou para o Orçamento do Estado”, que pagará também uma “parte do salário dos trabalhadores”.

E como se não bastasse, prosseguiu a líder do Bloco, “se as receitas de bilheteira não atingirem determinado valor, o Estado paga” ao privado o remanescente.

“A isto chama-se assalto ao país”, disse Catarina Martins. “É preciso acertar contas”, vai repetindo.