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Legislativas 2015

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A filosofia de Passos, o consenso de Costa e o “empurrão” de Bruxelas

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Rui Duarte Silva

Ao quinto dia oficial de campanha, e com oposição e coligação a trocarem argumentos sobre o défice, a Comissão Europeia veio dizer que o valor projetado pelo Governo para este ano ainda pode ser atingido. Uma “ajuda” que já começou a ser criticada

Martim Silva

Martim Silva

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Diretor-Executivo

Luís Barra

Luís Barra

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Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Quinto dia de campanha. Cheia de altos e baixos. Para todos. E com uma entrada inesperada na luta interna: a Comissão Europeia, que veio dizer que é cedo para se concluir que o défice de 2,7% para este ano (que o Governo jura a pés juntos vai ser atingido) não passa de uma miragem. Não há euforia que não passe rapidamente nesta campanha.

Na quarta-feira ouvíamos a coligação a falar em maioria absoluta, quando passou pelo Minho. Mas esta quinta (e também hoje, sexta) de campanha trouxe de volta alguns laivos de amadorismo e improviso, com uma ação fracassada em Macedo de Cavaleiros, Trás-os-Montes. Depois, em Bragança, na tradicional visita ao Politécnico, assistimos a Passos a filosofar sobre a amizade na política e as “coisas bonitas” que o Governo fez. Segundo o relato da iniciativa feito pelo Filipe Santos Costa, Passos lembrou que "agimos com emoção às coisas bonitas e que nos tocam" e acrescentou que "houve nestes anos de Governo muitas coisas bonitas que nos tocaram e muitas preocupações que compartilhámos".

Luís Barra

O défice, ainda e sempre

Mas deixemos a filosofia em versão passos-coelhense e regressemos aos números. Aos números do défice. 2,7%, 3%, 3,1%, 4,7%, 7,2%. Há-os para (quase) todos os gostos.

Do lado do PS, depois de um conjunto de iniciativas pelo interior do país marcadas por uma menor mobilização (e ainda na quarta-feira o diretor de campanha admitia ao Expresso a falta de gente e de recursos) nos últimos dias, agora a caravana anda pelo litoral norte. Terreno mais amigo, em busca do norte…

António Costa, que na quarta à noite desencantou do baú das acusações aos partidos da maioria os já poeirentos casos dos submarinos e do BPN (o que pode muito bem ser lido como um sinal de algum desespero na campanha socialista perante o evoluir dos acontecimentos), e que esta tarde prometeu uma governação 'à Guterres' e "ser um construtor de equipas e ser capaz de saber construir consensos, com maiorias relativas e absolutas", usou boa parte das últimas horas para pisar e repisar num tema que claramente faz mossa do lado da maioria: o défice e o Novo Banco.

“O Governo mentiu ao dizer que esta medida não tinha impacto direto nas contas públicas e no défice. Tem consequências no défice, no sistema financeiro e na economia”, acrescentou o socialista. António Costa sustentou que a atuação do Executivo colocou em causa a credibilidade das instituições, o que é essencial para a confiança. “Há limites para tudo, há limites para o descaramento de transformar o fracasso de uma venda que foi repetidamente dita que era urgente e agora transformada em sucesso, e que quanto mais tarde melhor, mais juros o Estado está a ganhar. Isto não é forma de se relacionar com os portugueses”, insistiu.

Costa acusou ainda as contas do Governo, que foram apresentadas em Bruxelas, de terem "ruído como um castelo de cartas".

Mas como a campanha é dinâmica, a uma tese segue-se sempre uma antítese (embora resta saber qual será a síntese) e o próprio Passos já veio responder à resposta de Costa à sua resposta sobre o défice e o Novo Banco. Tudo no mesmo dia.

“Não é por as notícias não estarem a correr de feição e aparentemente os resultados não estarem a ser aqueles que talvez o PS esperava que devemos perder a compostura e a serenidade para analisar os dados”. Passos Coelho acusou o secretário-geral do PS de querer “induzir o país em erro” com “a ideia de que as coisas estão a ir mal no país”, e declarou que “há limites” para a desinformação, “mesmo em campanha eleitoral”.

Vestindo novamente o fato de ministra em vez do de candidata (é cabeça de lista da coligação por Setúbal, Maria Luís Albuquerque também falou na quinta-feira sobre a polémica do défice, garantindo que a meta estimada pelo Governo para este ano, de 2,7% vai mesmo ser atingida e sem a necessidade de quaisquer medidas adicionais.

Recorde-se que na quarta-feira as estimativas do INE atiraram o défice de 2014 para 7,2% (por causa do Novo Banco) e o do primeiro semestre deste ano para 4,7%, ou seja, dois pontos acima do objetivo para este ano.

E para garantir que as notícias sobre a dificuldade em cumprir o défice não ensombram o “bombom” eleitoral que a maioria há meses anda a lançar sobre os contribuintes, de que uma parte da sobretaxa de IRS deve ser devolvida no ano que vem (na medida em que a arrecadação fiscal corresponda às expectativas), a ministra afirmou: "Esse é um compromisso que está na lei e que não depende do cumprimento de quaisquer metas de défice, depende apenas da comparação entre o objetivo de cobrança de IRS e IVA que está inscrito no Orçamento do Estado para 2015 e o valor que venha efetivamente a ser cobrado. Não depende de absolutamente mais nada".

Nuno botelho

De forma surpreendente, ou talvez não, também a Comissão Europeia decidiu vir a público pronunciar-se sobre a polémica do momento na campanha. “Os resultado semestrais ou trimestrais podem dar uma imagem distorcida, por isso, vamos olhar para os resultados portugueses quando tivermos os números para o ano todo”, disse ao Expresso a porta-voz da Comissão Europeia, Annika Breidthardt.

Isto é, Bruxelas, que prevê um défice para Portugal este ano superior (3,1%) ao que o Governo tem como meta (2,7%) mantém alguma prudência.

Atento, o Bloco respondeu desde já à Comissão, acusando-a precisamente de se estar a meter na campanha. "A Comissão Europeia vem dizer que quando é para dar mais dinheiro à finança pode ser sempre. Quando é para as pensões, para os salários, para a saúde, para a educação, aí nenhuma décima do défice podia resvalar. Quando é para o sistema financeiro, a Comissão Europeia vem dizer que afinal [o défice] já não conta", disse a líder do BE.

Marcos borga

A montanha russa das campanhas

Este texto começou com uma referência aos altos e baixos que se sentem sobretudo nas campanhas de PS e coligação. Mas aparentemente ninguém está a conseguir livrar-se desta constante montanha russa.

Vejamos os comunistas. Ainda na quarta.feira, aqui no Expresso, a Rosa Pedroso Lima, que está a acompanhar a caravana do líder Jerónimo, relatava falhas na campanha. Mas à noite os comunistas encheram um auditório em Vila Franca (toca a reunir, camaradas) o que permitiu ao secretário-geral afirmar, talvez com algum exagero motivado pelo calor do momento, que “Seria preciso recuar décadas para encontrar um comício assim”. E perante as notícias que dão conta de algum cansaço, Jerónimo até já se dispôs a correr um sprintzinho, para evitar mais especulações. Ao mesmo tempo, os comunistas piscam o olho aos reformados e apelam a que no dia das eleições não se esqueçam do que aconteceu nos últimos anos (culpa do Governo, claro).

paulo cunha/lusa

Também Marinho Pinto, que começou a semana a protestar contra um sketch do programa dos Gato Fedorento, faltou esta quinta-feira, por causa de uma arreliadora febre e dores de garganta, a uma travessia do Tejo em cacilheiro (e assim ficamos sem saber se Marinho ia ensaiar um número “à Marcelo”) organizada por militantes do seu PDR.

O MRPP também já conseguiu o seu momento de campanha, mas não propriamente pelas melhores razões. Depois de ter feito outdoors em que se podia ler “Morte aos Traidores”, “O Comité Central do Partido e a Candidatura Nacional do PCTP/MRPP vêm comunicar que a palavra de ordem morte aos traidores foi suspensa da campanha eleitoral em curso”, lê-se num comunicado que foi enviado às redações.

Uma vez mais, os cartazes a fazerem mossa na campanha...