Siga-nos

Perfil

Legislativas 2015

Legislativas 2015

Falta gente e recursos à campanha do PS

  • 333

rui duarte silva

A caravana do PS está no terreno e vai a todas. Mas a semana e meia das eleições, o partido não descola nas sondagens. Um “mistério sociológico” ou o que é que se está a passar?

Ao terceiro dia, António Costa está rouco. São os efeitos de uma campanha muito centrada na sua figura. Depois das mezinhas de limão e mel, passou a chá de perpétua roxa, que parece que é o remédio santo de Dulce Pontes. E se ela grita!

Ao contrário da coligação, o PS quer fazer valer o seu trunfo - a capacidade de aproximação do seu líder à população, às pessoas que espontaneamente (ou não) se lhe dirigem. Mas o problema é que... não há população. E, quando há, é pouca e quase confinada à organização local, e aos membros da caravana, que ainda assim inclui uma quinzena de jotas, que erguem bem alto a bandeira e fazem barulho e (suprema vantagem!) são voluntários.

Todos os dias, desde o início da campanha oficial e mesmo antes, há arruadas, contactos de rua, percursos mais ou menos longos que o candidato calcorreia, expondo-se àqueles que o vão encontrando, interpelando. No sábado, a coisa funcionou e, em Queluz, António Costa foi até levado em ombros, mas isso é a cidade. Quando se avança para o interior, é o deserto.

Rui Duarte Silva

Um líder genuíno, para o bem ou para o mal

A organização reconhece. Pedro Vaz, diretor da caravana, diz que falta gente e recursos. O orçamento da campanha ronda os 2,5 milhões de euros, 40% menos que 2011. Mas também, mesmo que houvesse, nas condições em que está o país, caía mal muita ostentação, diz.

Pois é, mas nota-se. De fora, a campanha parece desorganizada, atrasada, com múltiplas atividades. Mas Francisco César, filho do presidente do PS e responsável por toda a logística, explica que é deliberado, que estão sempre a fechar a agenda o mais tarde possível, porque têm pedidos de muito lado para Costa lá ir.

Com esta é já a terceira volta que António Costa dá ao país. Desde Novembro já fizeram 92 concelhos mais as regiões autónomas, França, Espanha e Luxemburgo. E desde 1 de julho percorreram 61 concelhos. Ou seja, o pé tem estado sempre na estrada. A Viana do Castelo, dizia Pedro Vaz, já foram três vezes e agora já não voltam a ir.

"Se a campanha fosse só um espaço mediático, bastava três ou quatro acontecimentos por dia e a hora certa e estava feita", afirma Francisco César, "mas isto tem também outra dimensão, de contactos com a população e que o partido exige". Depois, o secretário-geral não é facilmente moldável e se o põem a falar com as pessoas, fica mesmo... e dane-se o atraso. "É tudo menos plasticável, para o bem e para o mal é genuíno", conclui.

Em Mirandela, por exemplo, onde António Costa foi na segunda-feira, estava prevista uma arruada e fez-se. Um pequeno troço de rua pedonal percorrido contra o Sol, a dificultar a vida aos fotógrafos e repórteres de imagem, no meio das esplanadas. A adesão era a da secção local do partido e dos lojistas a ver passar a caravana. O candidato terminou a volta no sítio errado, perdendo a oportunidade de se deixar ver na casa das alheiras, o produto famoso da terra. De que é que valeu então?

Francisco reconhece. A falta de meios (têm envolvidos na caravana menos de metade do que era costume) impede a verificação mais sistematizada das condições dos locais. E, na terra, nem sempre há especialistas na matéria ou, quem sabe, o dono da loja das alheiras não esteve pelos ajustes de se deixar fotografar ao lado do candidato socialista.

Rui Duarte Silva

De que vale tanto esforço?

É verdade que esta primeira semana a caravana tem percorrido a parte mais dura e agreste para o PS, que espera arrancar com mais banhos de multidão quando arrancar para o litoral este fim de semana. Tirando Castelo Branco e Alpedrinha, no domingo, onde a comitiva foi recebida por uma multidão, Évora, Portalegre, Bragança e Guarda são terras sem gente e onde o PS não é o favorito - coisa que não impede a direção da campanha de pensar que em Portalegre, por exemplo, quiçá Évora, as coisas possam ser invertidas.

Capoulas Santos, cabeça de lista por Évora, por exemplo, disse ao Expresso "sem nenhuma dúvida", que o PS vai ter um grande resultado. "Bem sei que isto não é o país, mas garanto-lhe que aqui é preciso andar muitos quilómetros para encontrar alguém que vote na direita".

"Casa cheia", disse por sua vez a organização a propósito do comício de domingo à noite em Portalegre, num recinto pequeno, cadeiras no centro do espaço, como tem acontecido quase sempre. Mais abaixo, na noite quente, as esplanadas estavam pejadas de gente. Portalegre elege dois deputados e o PS tem esperanças de roubar o segundo ao PSD, mas falta saber como se potenciam os resultados com a coligação.

Mais acima, em Chaves, no dia seguinte, nova arruada. Juntou mais gente mas nada de espantar ninguém. Costa tinha a recebê-lo Ascenso Simões, o seu primeiro diretor de campanha (que se demitiu na sequência do episódio dos cartazes dos desempregados) e cabeça de lista pelo distrito, e o ex-ministro de Sócrates, Silva Pereira. Só à noite, em Vila Real, o largo encheu até às ruas laterais. Santos Silva ajudou.

Assim sendo, vale a pena tanto esforço? As sondagens valem o que valem e os dois blocos em presença, coligação e PS, equivalem-se e a tendência é mesmo favorável à coligação. A demora de António Costa em explicar a confusão dos cortes versus poupanças nas pensões custou-lhe caro. Conseguiu-o finalmente, quando falou ontem aos microfones da TSF e depois num almoço em Viseu, mas foram precisos quase cinco dias. A pequena comitiva que o acompanha respirou fundo.

Agora, a divulgação dos números do défice devido ao adiamento da venda do Novo Banco podem ter servido como um suplemento vitamínico aos socialistas. Hoje mesmo, em Aveiro, Pedro Nuno Santos e o próprio Costa não deixaram escapar a oportunidade de zurzir na "incompetência do Governo" e no "falhanço das suas políticas".

Mistério sociológico

O ex-ministro Augusto Santos Silva, ele próprio sociólogo, diz que se encontra perante um "mistério sociológico". Acha que a confusão dos plafonamentos não é decisiva. Acredita nas sondagens mas, por outro lado, elas não condizem com os outros "processos de observação", como ele diz: a direita a fugir da rua embora com uma campanha bem feita, António Costa sem preocupações de corredores de segurança, a ser recebido sem hostilidade, as pessoas à janela.

As estruturas locais do partido, por outro lado, estão ativas. Santos Silva diz que o ambiente não é como em 2011, em que ninguém acreditava, nem tão pouco como em 2005, em que havia o sentimento de que a vitória "estava no papo". "É mais o ambiente de 2002 ou de 2009", em que as coisas ainda estão por definir.

Para onde cairá afinal o povo português? Para o lado de quem pensa que Passos Coelho fez o que tinha a fazer em condições adversas e merece uma segunda oportunidade? Ou pelo contrário, para o lado de quem acha que já foi ultrapassado o limite do suportável e que a coligação tem de ceder o passo a outros?

Santos Silva diz: não há resposta simples, não se vê ninguém a arrastar, embora do ponto de vista técnico considere que ainda tudo é possível: ou duas maiorias relativas, ou duas maiorias absolutas. E as sondagens, talvez possam estar a andar um pouco atrás da realidade, tecnicamente falando. E é por isso que o velho jargão continua cheio de atualidade: verdadeira sondagem, só mesmo no dia das eleições.