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Legislativas 2015

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PàF. Uma campanha feita dentro da “bolha”

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Campanha da coligação PSDF/CDS tem sido feita em ambientes controlados, e mesmo nos poucos momentos de saída à rua tudo tem sido feito para reduzir a exposição de Passos Coelho a imprevistos

Luís Barra

A crescer nas sondagens, a regra na coligação Portugal à Frente é não correr riscos nem cometer erros. Os contactos de Passos Coelho com a população, que foram notícia na pré-campanha, foram reduzidos ao mínimo. Mas hoje há rua no Montijo

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Luís Barra

Luís Barra

Fotojornalista

Eram vinte e tal, não mais, em frente à Escola de Hotelaria e Turismo de Faro, onde Pedro Passos Coelho e Paulo Portas eram esperados para o comício da noite da coligação Portugal à Frente (PàF) esta segunda-feira. Boa parte eram crianças, todos eram barulhentos, com bombos, violas e pandeiretas, protestando contra o corte de verbas do Estado para o ensino artístico, que, mesmo em cima do arranque do ano escolar pôs em causa o ensino articulador para milhares de alunos.

Não sabiam - ou não queriam saber - que o problema já tinha sido resolvido: nessa manhã, soube-se que o Executivo, afinal, arranjara quatro milhões de euros, mesmo a calhar para apagar este incêndio autoinflingido pelo Governo. Mas a notícia ou não tinha chegado àquele grupo ou não tinha sido o suficiente para os desmobilizar - e lá estavam, com cartazes e a cantar canções populares adaptadas a Passos e Crato, observados pela comunicação social e pela polícia.

Dentro do edifício onde o líder do PSD era esperado, o ambiente era outro: um cantor romântico desafiava sucessos do passado, a puxar pela voz, adaptando algumas canções ao momento político - como a canção de Marco Paulo que ganhou nova letra: “E por breves momentos/ Eu confundo os pensamentos/ E quero ver a coligação a ganhar!” O pátio interior do edifício, onde está montado o palco, está cheio, e as pessoas - algumas vestidas como se fossem para uma festa - circulam como num cocktail, de copos de vinho na mão (não era vinho Amnésia, o que a campanha da direita tinha bebido ao almoço).

Quando os carrões pretos chegam, está tudo a postos. Os jornalistas questionam-se: irá Passos falar aos manifestantes, como fez algumas vezes na pré-campanha? Não. Os carros param, a polícia faz um cordão que impede os manifestantes de se aproximarem, os elementos das juventudes partidárias rodeiam a viatura de Passos agitando bandeiras da coligação e a gritar “Portugal, Portugal!”, a plenos pulmões, de maneira a abafar o som que vem da pequena manifestação - e em pouco segundos o líder do PSD está dentro do edifício, levado por esta “bolha” que o protege de povo menos afeto.

Desta vez, se quisesse, Passos até tinha boas notícias para dar aos manifestantes, ao contrário do que aconteceu com outros que encarou na pré-campanha, como os lesados do BES ou os professores. Mas, com as sondagens a dar a coligação em tendência de subida, mas mantendo-se tudo taco a taco com o PS, a ordem é não cometer erros - bem bastou o “lapso” de segunda-feira, quando Passos anunciou mais um pagamento antecipado ao FMI de €5,4 mil milhões que, afinal, é um pagamento obrigatório relativo a obrigações do Tesouro.

Só ambientes controlados

A decisão de não arriscar já tem alguns dias, depois de um arranque de pré-campanha que trouxe alguns revezes. No domingo, quando foi surpreendido por novo protesto de lesados do BES no Cadaval, Passos não voltou a dirigir-se a eles em plena rua, à frente das câmaras: aceitou falar com três representantes do grupo mas à porta fechada, em ambiente controlado, longe de olhares indiscretos.

A “bolha” que escoltou Passos em Faro representa bem o que tem sido a campanha da coligação nos últimos dias. Já não há “senhora de cor de rosa” que resista. Tudo tem sido feito em ambientes controlados, e mesmo nos poucos momentos de campanha de rua a campanha do PàF tem feito tudo para reduzir a exposição de Passos Coelho a imprevistos.

O dia típico de campanha tem sido feito com uma visita de manhã e outra à tarde a empresas, explorações agrícolas ou instituições de solidariedade social, para mostrar o Portugal que corre bem, com um almoço e um jantar fechado a apoiantes da coligação. As refeições, em que se tem verificado uma boa mobilização das máquinas partidárias, são o momento para os discursos dos dois líderes da coligação. Sempre longe do povo não arregimentado.

Nas poucas ocasiões em que o PàF arriscou a rua, arriscou pouco. No sábado, houve uma caminhada que não estava prevista no programa (para não dar informação a possíveis manifestantes?) por duas ruas de Tomar - mas Passos andou a um ritmo tão rápido, sem parar sequer quando havia gente em esplanadas a aplaudi-lo, que aquilo mais parecia uma largada do que uma arruada. Com bombos à frente e jotinhas atrás, era um caso típico de andar dentro da “bolha”.

No domingo, houve rua no centro histórico de Sintra, onde o que se via eram “os do Adolfo”, na descrição de um membro da coligação - ou seja, eram quase só turistas (a área tutelada por Adolfo Mesquita Nunes). Para além disso, Passos e Portas passaram boa parte dessa ação de campanha dentro da tradicional pastelaria Periquita, onde o acesso ficou condicionado - mais uma vez, povo quase nem se via, a não ser o das máquinas partidárias.

Esta terça-feira, há mais do mesmo, desta vez em Setúbal: visita ao Museu Industrial da Baía do Tejo, almoço na Santa Casa da Misericórdia do Barreiro (neste, nem jornalistas entram), visita a uma empresa e jantar com apoiantes na capital do distrito. Povo laranja e azul, haverá; o outro, nem vê-lo. As coisas mudarão na quarta-feira quando a campanha seguir para o Norte?

Adenda: já depois da publicação deste texto, a campanha Portugal à Frente comunicou à imprensa uma alteração ao programa desta terça-feira. Às 17.00, no Montijo, haverá "contacto com a população".

(texto atualizado às 10.34)