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Legislativas 2015

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Quando os salários congelaram Durão

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Rui Duarte Silva

Março de 2002. A dez dias das eleições que levariam o PSD, coligado com o CDS, de volta ao poder, Durão Barroso teve um dia negro com afirmações, contradições e trapalhadas. Motivo: o congelamento dos salários na função pública. Crónica de um tempo em que os políticos eram criticados se prometiam aumentos... pequeninos. A menos de duas semanas das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 17º capítulo

Martim Silva

Martim Silva

Diretor-Executivo

Aquela campanha não foi propriamente entusiasmante. Aliás, dificilmente de Durão Barroso sairia algo de entusiasmante. Depois de quase três anos na oposição em que muitos vaticinavam que tão mau líder da oposição jamais seria primeiro-ministro, o bilhete dourado tinha-lhe saído inesperadamente na rifa: a 17 de dezembro de 2001, na sequência de um mau resultado do seu partido nas autárquicas, António Guterres, líder do PS ia para uma década e primeiro-ministro há mais de seis anos, argumentava com o “pântano” para anunciar ao país a sua demissão e saída de cena. Os socialistas ficavam em choque, hesitaram entre Gama, Vitorino e Coelho, mas seria Ferro a ficar com o “bebé” nos braços.

Na campanha eleitoral para as legislativas antecipadas que se seguiu, a sensação foi de perda quase permanente do PSD e de Durão, que partiram em alta ("ajudados" por um PS que parecia aos poucos recuperar da orfandade guterrista). Na altura, na Visão, o já falecido Cáceres Monteiro escrevia: “A campanha do PSD conhece algumas dificuldades, novas contradições, pequenas ‘gaffes’ e até alguns apoios suscetíveis de causar reações contrárias. (…) Ferro Rodrigues está a explorar bem os erros de campanha do PSD”.

Por aqui percebemos como era o clima. Nas hostes do PSD, tão perto de voltar ao poder, o nervosismo era visível.

A dez dias das eleições, já com muitos quilómetros e muitos comícios e muita carne assada comida, Durão teve no norte do país um dia negro de campanha. O motivo: declarações sucessivas, umas contraditórias, outras mal explicadas, cheias de avanços e recuos, sobre o que contava fazer ao salário mínimo se chegasse ao Governo.

O tema em si, hoje, 13 anos passados, é quase irrelevante e perdeu-se na espuma do tempo. Mas o episódio serve bem para retratar como por vezes políticos experientes e bem preparados, e com equipas profissionais à sua volta, tropeçam nos próprios pés.

Recuemos então a 7 de março de 2002.

Pela manhã, Durão Barroso vai a Santa Maria da Feira apresentar perante uma plateia cheia de empresários e gestores (com Belmiro à cabeça) o programa económico do seu partido (que inclua o famoso choque fiscal, lembram-se?). E a economia era precisamente considerada um dos calcanhares de Aquiles de Durão (que tinha estado nos dez anos de governação cavaquista nas pastas da Administração Interna e Negócios Estrangeiros – primeiro como secretário de Estado, depois como ministro).

À saída do encontro, Durão responde a umas questões dos jornalistas. Nada de mais. Mas, poucas horas depois, quando o take da Lusa é colocado no ar, com o título “Eleições: Durão Barroso admite congelar salários da Função Pública”, já Durão e restante caravana laranja se encontravam em Caminha.

A agitação cresce (foi no tempo longínquo em que o congelamento dos salários parecia uma heresia). Os assessores não largam o telefone. A visita na localidade fronteiriça corre mal. Durão começa a ser pressionado para esclarecer o que queria ao certo dizer com as suas palavras. Ia cortar? Ia congelar? O aumento nominal era zero? Explique-se...

A sua equipa de assessores começa a pressionar fortemente os jornalistas da Lusa que cobriam a caravana laranja, alegando que eles é que tinham feito uma má interpretação das suas palavras. O clima fica de cortar à faca.

A tentativa de colocar ponto final na polémica que já dera cabo do dia de campanha foi feita no alto de Santa Luzia, já noite, com Durão a marcar um encontro à última hora com os jornalistas para esclarecer as suas palavras e os esclarecimentos das suas palavras que só tinham gerado mais confusão.

E o que disse Durão? Entre outras coisas, que “por uma questão de honestidade política e intelectual não posso neste momento comprometer-me com qualquer valor de aumento”, que “não admito nem afasto essa possibilidade”, que as suas palavras “não representam nem o congelamento nem o aumento” dos salários da Função Pública. Que ao contrário do que correra “não defendi nem o congelamento nem o aumento”. E ainda que “nunca me passou pela cabeça aumentos abaixo da inflação”.

Confuso? Pois.

Defendendo-se, Durão chegou a fazer de Anthímio de Azevedo: “Se amanhã me perguntarem se vai chover e eu disser que não tenho elementos para responder, não é legítimo fazerem uma notícia a dizerem que eu admito que amanhã vai chover”.

A polémica passou. Durão foi eleito. Seria a última vez que disputava uma eleição em Portugal. Mas essa não foi nem de perto nem de longe a última vez que os salários da função pública eram tema de campanha eleitoral.

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