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Legislativas 2015

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Marcelo aproxima-se de Passos. “Tem de ser”

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Marcelo Rebelo de Sousa
no carro, a caminho de Leiria: os convites não param 
e a campanha também não

Nuno Botelho

Professor foi à campanha das legislativas apoiar a maioria. Uma aposta “dois em um”, com os olhos em Belém

Ângela Silva

Ângela Silva

Texto

Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotos

Fotojornalista

Marcelo Rebelo de Sousa deu boleia ao Expresso até à Marinha Grande, onde esta semana foi fazer aquilo que há meses tem feito pelo país: aceitar convites, dar conferências, visitar paróquias, falar em universidades e, de caminho, encontrar-se com “laranjinhas”. Desta vez, foi dar a aula inaugural do mestrado em Gestão no Politécnico de Leiria e participar num jantar de campanha da coligação PSD/CDS. E, na terra onde Mário Soares levou (ou inventou, as teses dividem-se) a pantufada que lhe inverteu com êxito o rumo da corrida presidencial de 86, Marcelo cumpriu um discreto mas eficaz ritual de fidelidade ao seu partido de sempre. Uma cartada “dois em um”, com os olhos postos nas legislativas (como ex-líder do PSD, o seu apoio é natural), mas também nas presidenciais (o partido fica-lhe grato e ele só pode ganhar com isso).

À entrada para o jantar, Fernando Costa, um dinossauro autárquico do PSD, que presidiu durante anos à câmara das Caldas e incendiou congressos por dizer o que muitos pensavam, sussurrou ao Expresso: “Se ele não fosse candidato a Belém, hoje não estava aqui. Já veio 10 vezes ao distrito e metade chegava se fosse só pelo partido”. À saída, já no carro, depois de se desdobrar em beijos, autógrafos, selfies e um improviso de mais de um hora sobre o país e o mundo em que foi ouvido em silêncio e declarou apoio à coligação — “a proposta mais segura, sensata e ponderada para o futuro de Portugal” — o próprio Marcelo aceita teorizar sobre os custos desta colagem. “Tem um custo?”. Tem. “Mas tem de ser”. Os militantes contam com ele e ele sabe que um ex-líder não pode virar as costas.

Nuno Botelho

“Meu caro, precisamos de si”

Se não estava tudo combinado, parecia. Teresa Morais, secretária de Estado e cabeça de lista em Leiria, deu o mote ao convidado: “Meu caro professor. Nós ouvimos muito o Marcelo comentador, arguto, crítico, perigoso, mesmo. Mas agora precisamos do amigo e militante e eu peço-lhe que seja o que sei que é. Este não é um tempo para neutralidades. Precisamos do apoio de todos e antes de mais do seu”. Marcelo não se fez difícil. : “Como é que lhe passou pela cabeça pedir-me apoio, a mim que escrevi o comunicado da fundação do partido?!”. E repetiu a declaração de amor que nos últimos meses levou de concelho em concelho a propósito dos 40 anos do PSD: “Nós somos um partido muito especial — não foi por acaso que o líder do nosso parceiro de coligação foi da JSD (eis Portas a levar por tabela) — um partido de rua, militância e luta”. E “uma coisa é o comentador; outra é não haver como despir as nossas convicções, as mesmas do momento fundacional do partido”.

Marcelo não percebe “os que rasgam o cartão quando o PSD não marca um penálti” ou “amuam com treinadores ou jogadores”. Se Passos não gosta dele, ele continua fiel ao partido. E quis dizê-lo, para memória futura. Acusado de taticismo, deixa uma prova de autenticidade. Para os que não sendo do PSD o querem em Belém, o comentador independente nem por isso sai beliscado. E para os “laranjinhas” — vitais se ele for à corrida — Marcelo sabe que ambos têm a ganhar: ele e o partido, que lhe pede apoio todos os dias.

Nuno Botelho

Ontem, esteve em Braga — o distrito da sua avó Joaquina e do seu clube de futebol — ao lado de Jorge Moreira da Silva, ministro e cabeça de lista da coligação, a elogiar Passos Coelho. E se o partido ainda chamar os ex-líderes, Marcelo admite voltar. No fundo, não quer repetir o que Cavaco viveu com Fernando Nogueira em 1995, quando as fricções entre ambos acabaram com o segundo a perder as legislativas e o primeiro as presidenciais. O sonho de uma maioria, um Governo e um Presidente parece irreal. Mas Marcelo tenta, pelo menos, distender o clima. Independentemente de continuar a ser o que é nos comentários na TVI.

Foi, aliás, em registo de análise que o professor estruturou a conversa com os militantes da Marinha Grande. O mundo “não está fácil”; “não é possível discutir estas legislativas como se Portugal não estivesse na Europa e no mundo”; depois dos excessos de 2009 e da crise de 2011, “não vale a pena negar que há coisas positivas que estão a acontecer”. E no atual quadro, a dúvida é “se será possível fazer em dois anos tudo o que António Costa já prometeu”. Marcelo resume a escolha: é “entre uma proposta de realismo e um cheque em branco”, “um caminho de segurança e uma incógnita”. Além de mais, porque a coligação pede uma maioria absoluta mas admite, se não a tiver, dialogar com o PS. E este rejeita. “Com quem vai Costa fazer acordos? Com o PCP ou o BE?”. Eis um candidato a jogar pelo seguro.

Nuno Botelho

Já antes, no Politécnico, foi com a segurança do peixe na água que Marcelo deu a aula. Duas horas a improvisar e uma plateia fixada a ouvi-lo. A mensagem não é cor de rosa: “A grande constante da vida vai ser a mudança”; “é muito mais difícil ser gestor nos dias de hoje”; “as instituições são fracas”; e “se tiverem juízo os estudantes passam por estes bancos oito a 10 vezes na vida”. Para a plateia não deprimir, ele sabe a tecla certa: “Vejo que a maioria são mulheres. Para mim, o mundo ideal”. Mete-se com “os carecas” as “loiras e as ruivas”. E deixa um conselho: “Não se tem duas vezes 20 anos. Ser estudante é espetacular”. Regra a não esquecer: “Tenham sempre uma profissão”. Ele sabe do que fala. Se Belém não vier, será sempre o professor.

Os resultados de dia 4 não são indiferentes. Se a coligação ficar numa base pequenina, o partido pode entrar em depressão e quem for candidato presidencial à direita tem de somar muito para ganhar. Em 95, aconteceu. O PSD acreditou na vitória, perdeu, entrou em frustração, Durão Barroso pediu a Cavaco que avançasse para Belém, mas o ciclo das derrotas estava traçado. Marcelo sabe que mesmo que a coligação perca, é mais fácil arrancar para a vitória presidencial se o ponto de partida não for muito mau. E ele está disposto a ajudar. Primeiro, porque recusa “perder os momentos históricos da vida do partido”. E depois, porque faz contas à corrida que se segue. A dúvida é se depois de ele declarar apoio a Passos, Passos estará disposto a apoiá-lo a ele.