Manuel escancara o sorriso. Lá fora o céu parece derramar-se pelas ruas. A chuva cai à boleia do vento desenfreado. No lugar da Bela Vista, em Ribeira de Pena, sai fumo pela chaminé de uma casa amarela. Manuel está lá dentro. Sentado com a mulher e a filha, na cozinha, de frente para a fogueira. Na parede está colada uma folha, com a foto de Manuel Machado e uma pequena biografia escrita a letras de carinho. "Pequeno nome, pequena estatura...com bela e gratificante longevidade!". Lê-se. Manuel nasceu no dia 8 de Fevereiro de 1910. Tem cem anos e dias. É o único rapaz de sete filhos. As irmãs, seis, estão todas vivas. O segredo? "Mel!", responde Manuel quase gritando de tanta convicção. Manuel não é homem para grandes duvidas, tão pouco para incoerências. Sempre lutou por fazer o que lhe dava prazer. As abelhas fazem parte. Desde sempre habituado aos cortiços, continua a manter uma paixão enorme pelos pequenos insectos que lhe fazem as delícias dos dias. "Não tenho reumatismo, não tenho nada! Nada! O mel é o melhor remédio que há, cura tudo! Troco sempre o açúcar pelo mel!", diz numa voz que derrama entusiasmo. "Ai se não estivesse este tempo...". Se não estivesse este tempo, Manuel andaria certamente pelas ruas. Perdão. Pela terra. Que para este homem que chegou aos cem anos a sorrir com todo o corpo, as palavras têm peso, conta, medida, textura, cheiro. "Nunca fui de andar na rua, eu gosto é da terra!". A terra é o quintal onde tem os cortiços, as leiras onde granjeia as novidades, onde arranca as ervas daninhas com as mãos, para que não levem a melhor sob o milho. Conceição, uma das filhas de Manuel mostra as fotografias tiradas com o telemóvel. Lá está o pai, ainda no ano passado, em tronco nu, numa destreza de fazer inveja, a trabalhar na terra, com uma satisfação que ultrapassa a imagem congelada da fotografia. Teresa vai acenando que sim. O marido é e sempre foi um apaixonado pela terra, pelas abelhas, pelo trabalho, pela vida. Por ela. Teresa Machado tem quase 94 anos e uma voz muito doce. Cora enquanto fala de amor e aperta os dedos contra os do marido, lado a lado, como sempre estiveram.
Caminhar para casar
"Casei tinha 27 anos, fizemos as bodas de ouro em 92...", diz. Na matemática dos afectos, Manuel e Teresa estão casados há 68 anos, têm sete filhos, 8 netos e 4 bisnetos. Começaram a caminhada da vida em conjunto, passo a passo, literalmente. No dia do casamento, Teresa andou quase três horas a pé, de Vila Pouca de Aguiar, onde morava, até Ribeira de Pena onde se juntou a Manuel. E depois, em conjunto, ainda fizeram mais uma hora a caminhar até chegarem à aldeia que os iria acolher. Uniram-se contra a vontade das famílias. "Fazíamos jeito em casa porque trabalhávamos muito", conta Teresa. "Só que eu disse-lhe: ou eles ou eu...! E ela escolheu ficar comigo", remata Manuel, sempre bem disposto, como se a lei do futuro, neste caso, não pudesse ser outra. Fizeram a vida crescer a partir do zero. Sem bens materiais, sem heranças ou ajudas. Contaram um com o outro. Dependentes de cumplicidades, de afectos, de amizade. Independentes de tudo o que era supérfluo, a mais. Manuel foi trabalhar como cantoneiro mas antes ainda passou pelas minas de volfrâmio. Teresa ficou em casa a cuidar dos filhos, que um a um foram chegando, sem planeamento, como quase sempre acontecia. Depois a vontade de os ver ler. De os ver fazer rabiscos que viriam a ser letras. "Fizemos sempre muita questão que estudassem! Todos!", conta Teresa. O casal, multiplicou-se em esforços para ver os filhos seguirem os estudos, saírem de Ribeira de Pena para Vila Real. Mesmo contra as vozes da aldeia que nem sempre compreendiam a decisão do casal de fazer tanta questão na instrução dos filhos. Teresa e Manuel nunca se importaram. Trilharam sempre o caminho das convicções, alicerçados pelo coração e pela razão. "Quem me dera a mim saber ler. Pegar numa carta e saber o que lá diz...", solta com alguma mágoa Teresa. De resto, da lista dos sonhos, foi tudo cumprido. "Sempre gostei de trabalhar na terra e foi sempre isso que fiz!", conta Manuel. "Mal vi que podia deixar o trabalho de cantoneiro, não hesitei... fi-lo para vir tratar da terra".
Aproveitar todos os bocadinhos
Das muitas recordações que os cem anos de Manuel lhe conferem, contam-se as idas à caça e à pesca, os longos mergulhos nas águas frias do rio Beça de onde quase sempre emergia com uma truta em cada mão e uma outra presa pelos dentes, para surpresa de quem o acompanhava. Porque Manuel sempre foi homem de aproveitar tudo e todos os bocadinhos da vida. "O meu pai é um homem muito positivo!", orgulha-se Conceição. "Eu doenças?! Não quero nada com elas! Nem me lembro!", ri-se Manuel, a quem uma bronquite crónica não lhe tira a energia. "Quem muito dorme, pouco aprende", vai dizendo, lançando ao ar frases de vida, verdadeiras cartilhas de experiência. Disciplinado, ainda hoje Manuel marca tarefas para ele próprio realizar. "Se imagina que até às duas da tarde tem que cavar até um certo sítio do quintal, não desiste enquanto não o faz!", conta a filha, a quem a admiração pelos pais é sentida em cada palavra, em cada olhar. Manuel e Teresa atropelam-se em histórias. Ela de olhos brilhantes atrás dos óculos. Ele de sorriso rasgado e gargalhada fácil, a sobrepor a voz doce da mulher numa alegria que não raras vezes lhe causa ataques de tosse, tamanha a vontade de falar, tamanho o entusiasmo. "Ai se não estivesse este tempo...". Já se sabe. Se não estivesse este tempo que parece ter feito acordo com a chuva, Manuel andaria na rua. Perdão. Na terra. Assim, vai bebendo golos de chá com mel, brindando à vida com uma caneca do Benfica. Teresa faz o mesmo, mas com o símbolo do Porto impresso na porcelana, rindo. Lá mais para o fim da tarde, o casal vai pegar nas cartas e dar vida ao vício. Teresa aprendeu a jogar cartas com 91 anos. "E ganho-lhe muitas vezes!", conta, feliz. "Dá cá um beijo e pagas-me com outro!", quase grita em risos Manuel. Teresa cora. E dá.
Um cento mais um
A chuva, essa, é que não dá descanso. Parece que a noite chegou mais cedo às terras de Ribeira de Pena, mas não. A meio da tarde, a vinte minutos da casa de Manuel e Teresa, em Vilarinho, Miquelina está sentada lado a lado com Albano Mendes.
Ela, vaidosa, sorridente, adornada por um lenço preto de rebuscados brilhantes. Ele, de gorro e cachecol, que mesmo dentro de casa o frio cola-se aos ossos. O azul fica-lhe bem, condiz com a cor pacífica dos olhos. Miquelina tem 97 anos, e é uma das seis irmãs de Manuel. Albano tem 101 anos, ou como gosta de dizer "um cento mais um". Ouve mal e por isso transforma os sons que não entende em desconfiança.
Miquelina ri-se com tudo e por tudo. Queixa-se dos dias, do frio, do marido, de tudo ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo que solta gargalhadas. "É a vida...!", vai dizendo. A vida foi-lhe feita de muitas provações. O marido muito ciumento, os sete filhos que lhe morreram em criança, mais os cinco que ainda estão vivos e que ela cuidou, sem grandes cuidados de saúde, sem fartura fosse do que fosse. Agora é o filho, Francisco, de 66 anos, que cuida dos pais. Os outros estão espalhados, por França e Lisboa. "Tenho sempre muito medo que ele chegue tarde a casa, que se magoa por aí...", vai dizendo Miquelina enquanto olha para Francisco. Albano tem o olhar preso na conversa. "O quê?!". Miquelina tapa o riso com as mãos. "O quê?!". Albano quer saber porque se ri, do que falamos. "Coisa boa não pode ser... um dia destes vou ao Porto e vejo por lá as minhas fotografias...espalhadas na rua...será...?". Miquelina ri-se ainda mais. "Tu vais ao Porto, vais...tu vais ver qual vai ser o teu Porto...". E volta a gargalhar, a fazer adivinhar que ser bem disposta e rezingona, ao mesmo tempo, lhe tempera a alma.
Tempo para estar
Albano e Miquelina sempre trabalharam no campo. Ele com as vacas e as cabras, ela a sachar a terra. E é pelo campo que gostam de andar, quando o sol está a jeito. "Gosto de ir ver os coelhos à corte e de cuidar dos cravos, e ele, como é ciumento, vai atrás de mim, se não ficava aqui em casa e nem se mexia!", diz. "O quê?!". Esta tarde Miquelina não vai fazer o jantar, que ainda há sobras do almoço. Já comeu um dos dois queijinhos que costuma comer por dia. As notícias sobre a tempestade na Ilha da Madeira sobem às conversas de Miquelina sempre que as janelas da casa parecem discutir com o vento de lá de fora. Talvez a esta hora, o jogo de cartas esteja de feição à cunhada Teresa. Talvez o irmão, Manuel, esteja de orelha atenta ao som da rádio - que não gosta de televisão - a ouvir as notícias do tempo, à espera de sol. Porque as abelhas aguardam-no para longas conversas e até para algumas ferroadas, que Manuel consente, porque "fazem parte".
E o tempo - para estes dois casais - há muito deixou a prisão do ponteiro dos relógios e vive tranquilo com eles, lado a lado, entre risos e mãos dadas. Sem esperar nada.