Lá vamos cantando e rindo
Num "belo momento de revisão da nossa história recente" (palavras do director do agrupamento de escolas), muitas crianças vão, amanhã, para comemorar os cem anos da República, vestir a farda da mocidade portuguesa e desfilar nas ruas de Aveiro. A professora responsável por esta bela ideia diz que "nada neste projecto leva para ideias de fascismo" . Nada. Tirando a farda, claro.
Os petizes vão cantar o hino nacional assim trajados, sendo certo que não serão obrigados a levantar o bracinho. Uma pena que a "revisão da história" não seja completa. Que bonito seria a cidade que assistiu ao congresso da oposição democrática ouvir os seus rebentos a cantar "Lá vamos cantando e rindo/Levados levados sim /Pela voz do som tremendo /Das tubas, clamor sem fim". Coisa que, ainda assim, se acontecesse, desde que fosse "trabalhado nas escolas com dignidade e muito sentido de responsabilidade" , não teria problema algum.
É natural que um País que deixa ao abandono o seu património e que despreza os direitos cívicos, trate mal a sua memória. É natural que um país que desrespeita os que lutaram pela liberdade - lembram-se da pensão oferecida a ex-pides mas recusada a Salgueiro Maia por aquele que veio a ser o nosso Presidente da República? - não leve a mal esta pornografia. Afinal de contas, nenhuma professora se fez fotografar nua na cidade de Aveiro.
Os saudosistas da velha e boa escola podem finalmente sentir o sabor do antigamente. Este País ainda vai entrar nos eixos.


