A Justiça americana avalia a hipótese de ouvir responsáveis do Vaticano sobre um caso de pedofilia ocorrido nos EUA. "A decisão será tomada até Outubro, pelo Supremo Tribunal americano, e é a primeira vez na história que tal sucede", revela Jeff Anderson, advogado das vítimas, numa entrevista telefónica, e em exclusivo paea o Expresso, a partir do seu escritório em Minneapolis.
Jeff Anderson é uma espécie de Baltazar Garzón norte-americano, perseguindo durante anos a fio os seus objectivos. Desde 1982, este advogado dedica-se à investigação de casos de pedofilia ocorridos dentro da Igreja americana. Até hoje, Jeff Anderson já trabalhou em cerca de dois mil processos.
Um deles está a ser avaliado pelo Supremo Tribunal, a mais alta instância judicial americana. É um processo contra Andrew Ronan, um padre que viajou da Irlanda para os EUA na década de 1960. Passou por Chicago e por Portland e em ambas cidades, alegadamente, violou diversos menores.
Padre confessou instinto incontrolável
Jeff Anderson interroga-se: "Como foi possível a Igreja autorizar a transferência de um padre que, sucessivamente, e em cada paróquia por onde passou, deixou um rasto daqueles? O próprio Ronan confessou que não conseguia controlar o seu instinto, e mesmo assim nunca foi afastado".
Andrew Ronan morreu em 1982, mas as vítimas querem saber quem são os responsáveis, dentro da hierarquia da Igreja, que autorizaram as fatais transferências do padre pedófilo.
"A responsabilidade chega ao topo da hierarquia do Vaticano", garante Jeff Anderson ao Expresso.
Este advogado norte-americano tem em mãos outros processos, nomeadamente o que envolve Lawrence Murphy, um padre que abusou de mais de 200 menores surdos-mudos, cujo processo o Papa Bento XVI conheceu ao pormenor, em 1996. Na altura, o actual Papa (então ainda e apenas cardeal Joseph Ratzinger) era o responsável pela congregação para a Doutrina da Fé.
O Expresso garantiu ainda várias entrevistas com algumas das vítimas. O teor desses relatos, assim como mais pormenores sobre os outros processos que estão a ser avaliados hoje nos EUA, serão publicados na próxima edição impressa do Expresso, sábado, dia 10 de Abril.