Juros dão tréguas ao orçamento de Teixeira dos Santos
Os juros da dívida pública portuguesa a 10 anos fecharam ontem abaixo dos 6%, fixando-se nos 5,74%. A descida implicou uma variação diária de 5,3%. O spread em relação aos juros alemães baixou para 3,37%
Depois de um sobressalto na terça-feira, os juros da dívida portuguesa a 10 anos iniciaram um processo de descida que culminou ontem com uma variação diária negativa significativa de 5,3%. Os juros fixaram-se no fecho de ontem nos 5,74%, segundo dados da Bloomberg, abaixo do patamar dos 6% onde se haviam acomodado desde 17 de setembro.
O spread dos juros das Obrigações do Tesouro portuguesas a 10 anos em relação aos juros das Bunds alemãs a 10 anos (que servem de referência na zona euro) baixou de 3,84% na segunda-feira para 3,37% ontem, segundo a Bloomberg. O que significará uma melhoria sensível nas condições de crédito internacional, no caso de o IGCP (Instituto de Gestão da Tesouraria do Crédito Público, a quem compete a gestão da dívida pública direta do Estado) recorrer ao mercado.
Desde o pico desta última crise da dívida soberana na periferia da zona euro em 28 de setembro, os juros da dívida pública portuguesa a 10 anos desceram de um máximo de 6,51% (o valor mais alto desde a adesão ao euro em 1999) para 5,74% ontem, afastando-se significativamente do limiar dos 7%, considerado pelo ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, em entrevista ao Expresso, como porta de entrada para o recurso ao Fundo de Estabilização Financeira Europeu e ao Fundo Monetário Internacional. Recorde-se que, no dia seguinte ao pico desta última crise, o governo anunciou um novo pacote de austeridade.
Risco de default também em queda
A probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) também desceu de 28,37% no início da semana para 26,95% no fecho de ontem, segundo dados da CMA DataVision. Em relação ao pico desta última crise, a 28 de setembro, a descida foi, ainda, mais significativa, a partir de um nível de 32,47%.
Estas percentagens de risco de incumprimento baseiam-se nos movimentos especulativos dos investidores no mercado de credit default swaps (derivados financeiros que funcionam como seguros contra o risco de incumprimento) revelando a perceção que têm das condições das economias para honrarem os compromissos de dívida num horizonte de cinco anos.
Apesar da descida de 32% para pouco menos de 27%, Portugal conserva a sétima posição no TOP 10 mundial do risco de default, monitorizado pela CMA DataVision, posição para a qual entrou aquando do pico de 28 de setembro. O que significa que, em termos relativos, o país ainda não conseguiu descer o suficiente para "empurrar" para cima o Iraque ou o Dubai, que se encontram, respetivamente, em 8º e 9º lugares.
A Grécia e a Irlanda são os outros dois países da zona euro que se encontram no referido TOP 10 mundial de probabilidade de default.
Desde o pico desta última crise a 28 de setembro, que a probabilidade de incumprimento da Grécia desceu de mais de 50% para 44,31% no fecho de ontem. Os juros da dívida pública grega a 10 anos desceram abaixo dos 9%. Refira-se que, aquando da crise de maio, estavam em 12,46%. No entanto, o país helénico conserva a 2ª posição no TOP 10, estando ainda distante da Argentina que ocupa o 3º lugar.
No caso da Irlanda, o risco baixou de 34,67% no pico em 28 de setembro para 29,55% no fecho ontem. Uma descida significativa, também, ainda que mais curta do que a portuguesa. No entanto, o Tigre Celta conseguiu descer de posição, situando-se agora na 6ª posição do já referido TOP 10. No pico da crise em setembro havia chegado ao 4º lugar.
O movimento de descida no risco foi acompanhado pela descida dos juros da dívida pública irlandesa a 10 anos - que baixaram de 6,42% no início da semana para 6,12% no fecho ontem. Desde o pico da crise em 28 de setembro, estes juros baixaram de um máximo de 6,74%. O pacote de intervenção no sistema bancário irlandês, anunciado a 30 de setembro pelo governo em Dublin, apesar do custo elevadíssimo em termos de défice orçamental (estima-se que possa disparar para os 32% do PIB), parece estar a acalmar os mercados financeiros.



António Cotrim/Lusa
Juros dão tréguas ao Orçamento do Estado para 2011
