Os investidores no mercado secundário parecem ter-se inclinado, depois do disparo de segunda-feira, para uma "dissociação" da situação da dívida portuguesa em relação à evolução das negociações da reestruturação parcial da dívida grega.
No entanto, muitos analistas continuam a insistir que haverá "efeito dominó" das decisões sobre a questão grega, bem como prováveis orientações futuras derivadas do ensaio de soluções quer de participação de credores privados (o famoso PSI), bem como de credores públicos (segundo agora se alega, havendo já mais um acrónimo, OSI, para official sector involvement), nomeadamente o Banco Central Europeu. "Ficou aparente que há um buraco de financiamento [no caso grego] que terá de ser preenchido; a forma como isso é feito está a ser altamente controversa e terá implicações para os outros periféricos (leia-se Portugal)", escreve hoje a Markit.
Desde que a agência de notação Moody's falou da "morte lenta" da Grécia e de Portugal em janeiro de 2010 que o comportamento dos juros das obrigações do Tesouro português (OT) no mercado secundário e o risco de incumprimento da dívida soberana portuguesa manifestaram um padrão de oscilações em função do que ocorria com a Grécia.
Mais recentemente, desde que o processo de renegociação parcial da dívida grega se iniciou em julho de 2011, por decisão de uma cimeira europeia, a "ligação" entre a Grécia e Portugal reforçou-se. Quando a Moody's, em julho de 2011, baixou a notação da dívida portuguesa para "especulativa", o argumento apontava para que a metodologia de envolvimento dos credores privados na reestruturação grega se tornará um requisito adicional para eventual novo plano de resgate a Portugal em 2013.
"Portugal não foi principalmente julgado na base dos seus dados fundamentais", conclui um estudo recente do Banco Central Europeu, da autoria de Roberto A. De Santis ("The Euro Area sovereign debt crisis", Working Paper, nº 1419, fevereiro de 2012).
Esta semana, David Riley, chefe da unidade de análise da dívida soberana da agência de notação Fitch, disse em Nova Iorque que "o governo [português] está empenhado e é credível". Acrescentou que a estratégia seguida de trocar dívida por activos "é a certa" e que no curto prazo não encara Portugal como tendo um "risco significativo para o resto da zona euro". No entanto, a Fitch tem a dívida portuguesa classificada como "especulativa".
Outros analistas recordam que, além dos efeitos de contágio, há características fundamentais comuns "erradas" entre os "periféricos" e alguns países do próprio "centro" da zona euro: o modelo económico ligado à financeirização dos últimos vinte anos e o desajustamento do tecido económico face à nova vaga de globalização. Aspetos fundamentais que não se eclipsam por milagre em semanas.
Resta averiguar se a "dissociação" entre Portugal e Grécia realmente fará escola daqui para o futuro, ou se a volatilidade regressa às yields das OT no mercado secundário. As próximas semanas o dirão.





