Em 22 anos de vida de Prémio Pessoa só uma vez os jornalistas conseguiram saber, com antecipação, o nome do vencedor. Foi em 1989. Maria João Pires foi a vencedora e, ausente no estrangeiro, a notícia foi transmitida à mãe que, não se contendo, acabou por quebrar a regra do segredo, revelando a amigos o que sucedera. A notícia chegou às rádios antes da data prevista.
Mas, nunca mais se repetiu. A manutenção do segredo até ao último momento é um dos muitos rituais que envolvem o maior prémio atribuído em Portugal a uma personalidade da vida artística, científica ou literária. Este ano é de 60 mil euros o montante entregue ao vencedor desta iniciativa do Expresso e patrocinada pela Caixa Geral de Depósitos.
Depois de já ter distinguido gente tão diversa como historiadores ou um filósofo, uma pianista, uma pintora, cientistas e até poetas e arqueólogos ninguém arrisca dizer quem será o senhor ou senhora que se seguem. É preciso aguardar até ao meio dia de sexta feira, hora certa em que o presidente do júri, Francisco Balsemão e todos os seus colegas enfrentam os jornalistas no salão principal do palácio de Seteais para, finalmente, se desfazer o segredo. Em directo, as televisões e as rádios revelam o nome do vencedor e, com a leitura do comunicado final, ficam encerrados três dias de discussão entre os jurados do Prémio Pessoa.
É sempre assim. Os membros do júri vão chegando ao longo do dia de 4ª feira e a cerimónia começa com um jantar onde é aceite a presença de alguns convidados "de fora" do juri. A conversa prolonga-se noite dentro e os jurados pernoitam em Seteais para, quinta-feira de manhã, poderem começar o "trabalho a sério".
Francisco Pinto Balsemão, Miguel Veiga e Fraústo da Silva conhecem o ritual há exactamente 22 anos. Já nessa altura, participavam no júri que, a 11 de Dezembro de 1987, atribuiu o primeiro Pessoa ao historiador José Mattoso pelo "contributo dado para a História Medieval portuguesa". O prémio mudou literalmente a vida do professor, na altura refugiado numa recondita aldeia serrana, ponderando a hipótese de abandonar a vida académica e partir para um refúgio espiritual. Este distanciamento do mundo teve as suas consequências imediatas: o vencedor não recebeu a notícia senão 30 horas depois do anúncio público, através do único telefone da aldeia e graças à intervenção dos seus novos vizinhos que o fizeram voltar à terra.
Em 1994, uma nova surpresa para a atribuição do prémio viria a surgir. Depois da habitual discussão, o júri decidiu-se a atribuir o prémio a Herberto Hélder, o poeta que fez sempre questão de se manter "oculto". Tanto que não se lhe conhecia número de telefone para onde, como sempre faz, o presidente do júri Francisco Pinto Balsemão tencionava comunicar ao laureado - sempre na noite de quinta-feira - a vitória. Uma delegação constituída por Clara Ferreira Alves e António Alçada Baptista acabaram por se dirigir pessoalmente à única morada conhecida do poeta. Assim foi encontrado o vencedor que acabou por responder laconicamente: "não digam nada a ninguém e dêem o prémio a outro".
Poder de persuasão
Foi a única vez em que o prémio foi recusado e ficou por atribuir. Os júris, que já incluiram nomes como o de António José Saraiva e Eduardo Lourenço, Nuno Teotónio Pereira, Francisco Lucas Pires, a pintora Menez e Vicente Jorge Silva nem sempre tiveram uma tarefa fácil. O método de trabalho e de escolha é moroso. Os jurados apreciam as candidaturas feitas chegar, por quem quiser, à sede do Expresso ou à sua morada electrónica. Discutem-se nomes e curriculae e faz-se uma volta à mesa ou cada um dos jurados pode propor nomes. Aos poucos - e sempre sujeito a discussão - vão sendo votados nomes e passados os boletins onde, cada jurado, risca os candidatos que, na sua opinião não devem chegar à final.
A cena repete-se até ficarem dois ou três finalistas. Aqui, o poder de persuasão dos jurados é decisivo, tal como a apresentação de materiais - livros, discos, videos - que sustentem os méritos do candidato à vitória. Pode ser demorada a discussão, mas termina sempre com uma salva de palmas que conclui os trabalhos.
O jantar de quinta-feira serve para retemperar os ânimos e para finalizar a redacção do comunicado. Vírgula a vírgula, palavra a palavra, há nova matéria para debate que tem de ser concluído nesse serão.
Amanhã, sexta-feira veremos Francisco Pinto Balsemão (presidente), Fernando Faria de Oliveira (vice-presidente) anunciar o próximo vencedor. Como sempre, o júri estará todo presente em Seteais. Este ano, com António Barreto, Fraústo da Silva, João Lobo Antunes, José Luís Porfírio, Maria de Sousa, Mário Soares, Miguel Veiga, Rui Baião e Rui Vieira Nery.