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Jürgen Habermas ou "HaberBoas"? Amanhã, o pensador abre debate na Gulbenkian (I)

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Assim de repente, parecia outra coisa, mas não
Assim de repente, parecia outra coisa, mas não /  da WWW

"Os Livros e a Leitura: Desafios da Era Digital", é o tema da Conferência Internacional de Educação 2013, organizada pela  Fundação Calouste Gulbenkian . Na era WWW: o que é o livro e a leitura? Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão, abre a conversa com uma reflexão intitulada "A Democracia na Europa".

Deste meu "diz e tal", e para aguçar o apetite, recordo hoje 2004 - Iraque invadido pelos EUA - o encontro entre Habermas e Ratzinger, no qual se discutiram "as bases pré-políticas e morais do Estado democrático". O filósofo e o cardeal debateram então: razão e fé, capitalismo globalizado, moral nas sociedades pluralistas e mediáticas, interculturalidade, poder e direito comum. Habermas centrou-se nisto: "Os secularizados não devem negar o potencial de verdade às visões religiosas do mundo". Por sua vez, Ratzinger põe também o seu dedo na ferida: "O homem desceu até ao fundo do poço do poder, até à fonte da sua própria existência". O encontro entre os dois pensadores tornou-se livro; obrigatório; dele deixo uns "hits", que podem ajudar a contextualizar. E amanhã, ao vivo, vamos ver o que vai acontecer, no evento que referi.

Habermas defende o liberalismo político como integrando uma justificação não-religiosa e pós-metafísica dos fundamentos normativos do Estado constitucional democrático: um direito racional, que prescinde dos fundamentos do direito natural, clássicos e religiosos. Na "sociedade pós-secular" dá-se um juízo normativo que tem consequências para a convivência política entre cidadãos não-crentes e crentes. A consciência religiosa foi forçada a processos de acomodação. Mas a compreensão da tolerância das sociedades pluralistas, que possuem uma Constituição liberal, não encoraja apenas os crentes no convívio com quem não crê ou crê de outro modo. Há que perceber a permanência racional de uma convivência em confronto. Em de-bate. Ou seja, a mesma perceção, no quadro de uma cultura política liberal, é exigida dos não-crentes no "viver" com os crentes.

Ratzinger defende que razão e fé, razão e religião, são convocadas a uma purificação e salvação recíproca. Que esta regra fundamental deve ser concretizada no contexto intercultural de nossa atualidade, de forma prática. Sem dúvida, são a fé cristã e o racionalismo secular ocidental as duas partes principais dessa correlação. Pode e deve dizer-se isto sem postiços eurocentrismos. De forma inconsciente, dão-se hoje patologias da razão, uma "hybris" da razão: a bomba atômica, o homem como produto, etc.. Deve por isso a razão ser lembrada dos seus limites e dispor-se a ouvir as grandes tradições religiosas da humanidade. Se a razão se emancipa completamente e coloca de lado essa disposição, essa capacidade de correlação, então torna-se destruidora. É importante para esses dois grandes componentes da cultura ocidental - a fé cristã e o racionalismo secular ocidental - deixarem-se comprometer com um ouvir, com uma verdadeira convivência com essas culturas. É importante inclui-las na construção da polis, na tentativa de uma correlação polifónica, na qual elas próprias se podem abrir para uma complementaridade essencial entre razão e fé. Só dessa forma vai acontecendo na "praça" um processo universal de purificação no qual as normas e os valores essenciais - de alguma forma conhecidos ou pressentidos por todos os homens - possam adquirir uma nova intensidade luminosa.

Concluo: o debate pode contribuir para que novamente possa vibrar na humanidade aquilo que "sustenta" o mundo. Digital ou não: a leitura, o livro, a "boa palavra". Nova, original. Quem não quer ser protagonista? Cá para mim, e sem esbater as diferenças, é simples: ou protagonistas ou nada. Cada um, à sua maneira, usando a sua razão. A verdadeira acção é comunicativa?


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