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José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)
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0:00 Sexta feira, 25 de fevereiro de 2011
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Neste tempo megalómano e exibicionista, em que todos procuram uma insaciada autoestima e já não parece haver lugar para a subtileza, a compaixão e a cortesia, convém mantermos o sentido da memória e da medida.
No próximo sábado - e por uma decisão que não foi minha - já não aparecerá aqui esta crónica semanal. Os que a procurarem encontrarão, em vez dela, uma ausência que lhes dirá a gratidão por estes anos em que olhámos as ilusões e as desilusões de um tempo que não começou ontem nem terminará amanhã. Tudo vem de mais longe e vai para mais longe do que suspeitam aqueles para quem a origem do mundo está na data do seu nascimento. A todos os que se tornaram meus leitores - e alguns, por isso, leitores do Expresso - entrego o meu reconhecimento com uma mão que acena, sabendo que uma despedida pode não ser um fim. As palavras que acabam são como os mortos que não morrem nos fantasmas em que vivem para inquietar os vivos.
Nestas crónicas, falei muito do que se fala pouco e falei pouco do que se fala muito. Falei do que é meu como se fosse dos outros e do que é dos outros como se fosse meu. Quis lembrar que, no mundo, não há só vencedores, pragmáticos, comunicadores, gestores, milionários, famosos, neoliberais, conformistas, contentinhos, poder, ruído, multidões, mais-valias, televisões, best sellers, condomínios fechados. Que há também vencidos, tímidos, desempregados, imigrantes, pobres, vagabundos, mendigos, doidos, poetas, idealistas, rebeldes, doentes, velhos, melancólicos, anarquistas, liberdade, silêncio, solidão, sabedoria, tiragens pequenas, bairros populares. Fiz da indignação uma serenidade. Recusei a crueldade que usa a máscara da eficácia. Tentei, em vez da rapidez de uma opinião, a lentidão de um pensamento. Procurei falar de uma grandeza que dá ao homem o direito a usar um nome que não o envergonhe. E sei bem de que grandeza falo, pois encontro-a nas palavras de Albert Camus: "No segredo do meu coração não me sinto em estado de humildade senão perante as vidas mais pobres ou as grandes aventuras do espírito humano. Entre as duas, encontra-se hoje uma sociedade que dá vontade de rir."
Este é o mundo que fez de "A Sociedade do Espectáculo" (Guy Debord) o seu livro de estilo: "Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção anuncia-se como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido afastou-se numa representação". Nele, o cronista é um Fernão Lopes da sua perplexidade. Hoje, o jornalismo vive sobre o abismo, e ter disso a incómoda consciência é prevenir a queda nele. Mas há os que desviam o olhar do chão que lhes foge debaixo dos pés, avançando numa fuga para a frente de que ficará apenas o rasto de um desastre que lhes parece um êxito.
Ganharíamos em conhecer melhor a geologia do jornalismo contemporâneo, esse poder-espetáculo que afirma tantas vezes a liberdade para melhor a negar. Lucraríamos em não ignorar o que está debaixo do terreno movediço onde ele firma a sua autoridade e sacraliza a sua missão. Seria útil analisarmos as condições em que o jornalismo produz o seu discurso de verdade, com que se justifica e enaltece, fundando uma teologia da qual é o deus menor. Seria bom avaliarmos a validade desse discurso e os efeitos da sua automitificação, da sua boa consciência, do seu conformismo irrequieto. Seria fundamental conhecermos os ímanes, visíveis e ocultos, que regem as atrações e repulsões no seu campo. Ficaríamos surpreendidos se alguém fizesse para a instituição jornalística o que Foucault fez para outras instituições e dispositivos de normalização social: a justiça penal, a clínica, o saber, a psiquiatria, a sexualidade. Talvez as gerações futuras olhem um dia com horror a mistura explosiva de cinismo e violência, avidez e leviandade, sobranceria e perversidade com que nos olhámos no mundo.
Neste tempo megalómano e exibicionista, em que todos procuram uma insaciada autoestima e já não parece haver lugar para a subtileza, a compaixão e a cortesia, convém mantermos o sentido da memória e da medida. Sempre soube que, em mim, para cada abundância há uma escassez. Aprendi cedo a admirar o que é grande e os que são grandes (mesmo que tenham vivido no século V antes de Cristo) para não reconhecer logo o que é pequeno. E o que vejo por aí é uma pequenez alucinada e convencida da sua grandeza inexistente. Por isso, não há melhores palavras para dizer este tempo e este modo do que as que Lampedusa deu ao príncipe de Salina: "Nós fomos os Leopardos, os Leões; os que vêm são os chacais, as hienas." É com o sangue dos outros que eles alimentam a vaidade que lhes impede de ver a vulgaridade e o vazio que os faz ser o que são.
Agora, olho o céu e a sua luz desfeita. Há um raio que entra e cai sobre a capa de um velho livro onde se fala do "amor que move o sol e as outras estrelas". E isso torna a minha vida feliz.
(Dedico esta última crónica ao Henrique Monteiro e ao Fernando Diogo, que me convidaram a escrever no Expresso).
José Manuel dos Santos
colaborador regular do "Atual"
Texto publicado na revista Atual de 19 de fevereiro de 2011
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José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)
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0:00 Sexta feira, 18 de fevereiro de 2011
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Entra no anfiteatro, como se regressasse aos tempos da infância em que ia à missa, esperando encontrar aí a salvação. Passa horas em salas, atenta, (...) Embevecida, a ouvir falar quem fala. Mesmo quando não percebe o que ouve, é como se percebesse.
Dos passos que dá, os que mais a alegram são aqueles que a levam para qualquer sala onde se fala e se escuta. Apressada e contente, sai de casa e entra no carro. Quando há muito trânsito, fica nervosa. Guia depressa e, se lhe notam isso, exalta-se e barafusta, gritando aos outros condutores: "Vou a uma conferência e já estou atrasada!" Chega ao destino e contempla, encantada, o edifício onde vai passar algumas horas da sua vida. O antes, o durante e o depois, vive-os como um ritual. Entra e põe no peito, com unção, o cartão que lhe é dado e onde se lê "Participante". Conserva religiosamente esses cartões, ordenados e classificados por temas, num arquivo que visita assiduamente. Depois, corre à sala a reservar um lugar nas primeiras filas. Volta ao átrio, observa quem vai chegando. Sente-se feliz no meio desta gente. Tem orgulho em pertencer, mesmo que por pouco tempo, a esta elite. Nos colóquios, há sempre pessoas célebres, e fica deslumbrada por estar perto delas. Aproxima-se de um e diz: "Vou ouvi-lo com toda a atenção. Este colóquio é muito interessante. Os oradores são excelentes. E o tema, embora não seja bem da minha área, desperta-me imensa curiosidade." A outro declara: "Não troco isto por nada. A si, senhor professor, já o ouvi noutra ocasião, e foi brilhante. Tomei notas de tudo o que disse e ontem estive a consultá-las." E passa a mão pelo cartão que tem no peito.
Esta é a mais feliz ocupação da sua vida. Coleciona colóquios, conferências, congressos, seminários, simpósios, palestras, debates, encontros, ciclos, mesas-redondas, lançamentos, inaugurações, visitas guiadas, ações de formação, workshops. Passa horas e horas em auditórios, anfiteatros, espaços polivalentes, pavilhões multiusos, salões nobres, aulas magnas, salas multimédia. Frequenta centros culturais, universidades, academias, bibliotecas, galerias, teatros, cinematecas, fundações, cenáculos, tertúlias, associações, sociedades, galerias, livrarias, museus, laboratórios. Conhece os lugares, os seus recursos técnicos e logísticos. Sabe os que têm ar condicionado e os que não têm, aqueles onde há poltronas confortáveis e aqueles onde as cadeiras deixam as costas a precisar de massagem, os que são em zonas centrais e os que são em áreas periféricas. Gosta que lhe peçam informações e adora dá-las (usa muito as redes sociais).
"À partida" (fala assim), todos os temas lhe interessam: economia, sociologia, história, filosofia, politologia, relações internacionais, linguística, literatura, artes visuais e performativas, comunicação, arquitetura, cinema, ciência, energia, religião, medicina ocidental, medicina oriental, ecologia, esoterismo. Nos dias de um mês, pode ir a uma conferência sobre energias renováveis, a um colóquio sobre bioética, a um workshop de desenho de luz, a um ciclo acerca da Viena de Musil, Freud e Wittgenstein, a um debate sobre revisão constitucional, a um jantar literário sobre Júlio Dinis, a um seminário de feng shui, a um encontro sobre transplantes hepáticos, ao lançamento de um livro de Gonçalo M. Tavares, a um ciclo sobre o futuro do mar, a um simpósio sobre arte erótica chinesa no tempo da dinastia Ming, a uma apresentação de métodos para a inovação social.
Se os colóquios são abertos, vai. Se são pagos, vai na mesma ("economizo para isso"). Antes de ir, pesquisa no Google, anota o programa, consulta as biografias dos oradores, lê os resumos das comunicações (aprendeu a dizer abstracts). Fascina-se com a linguagem especializada, os parágrafos enormes, os períodos cerrados, os parênteses cheios, os termos desconhecidos. À hora marcada, entra no anfiteatro, como se regressasse aos tempos da infância em que ia à missa, esperando encontrar aí a salvação. Passa horas em salas, atenta, concentrada, embevecida, a ouvir falar quem fala. Mesmo quando não percebe o que ouve, é como se percebesse. Esforça-se, toma notas, utiliza a tradução automática. Ao intervalo (aprendeu a dizer coffee break) mete conversa com outros participantes. Enquanto, com o guardanapo, limpa os lábios do leve açúcar de um bolo, comenta: "Foi notável aquele americano. Dizem que para o ano ganha o Nobel. Aprendi imenso com o que ouvi." E sorri, feliz. Depois, volta ao auditório para ouvir os conferencistas que faltam.
Ouve. Agora, o orador acabou de falar e há palmas. Chega o período de debate. É um momento que lhe provoca nervosismo. Escuta as perguntas. Às vezes, tem vontade de fazer uma, mas não se atreve. Um dia, numa conferência sobre as "Categorias" de Aristóteles, levantou-se e fez uma pergunta. Assim que acabou de "formular a questão" (diz assim), soou, enorme e sonora, uma gargalhada na sala. Ainda hoje não consegue descobrir a razão dessa gargalhada sem fim, mas é como se a ouvisse sempre nos seus ouvidos atentos...
José Manuel dos Santos
colaborador regular do "Atual"
Texto publicado na revista Atual de 12 de fevereiro de 2011
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José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)
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0:00 Sexta feira, 11 de fevereiro de 2011
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Cioran, esse que acha o ter nascido um inconveniente, quando lhe perguntaram por que estranha razão ele, tão pessimista, não se suicidava, respondeu que só os muito otimistas se matam.
A alegria é a coisa mais séria do mundo. "Eu não deixo que ninguém me estrague a minha alegria", dizia Almada Negreiros num gesto verbal tão exato como o desenho do seu lápis. E advertia: "Mas não se confunda a alegria com o riso." Neste tempo em que a alegria é, tantas vezes, a máscara da tristeza, há quem divida o mundo entre otimistas e pessimistas, como se uns dessem o que os outros tiram. Eu olho a linha que desenha esta separação na terra dos homens e acho-a falsa, incerta e confusa. Por isso, repito o que afirmou aquele que assinava "poeta sensacionista, narciso do Egito, futurista e tudo": "Nem otimista, nem pessimista. Não há entre mim e a vida nenhum mal-entendido."
Agora, da janela onde estou, olho o rio e a sua claridade alta de fantasma. Faz um sol branco. Chove. Deixa de chover. Depois, como na vida, faz sol e chuva ao mesmo tempo. Olho e vejo o barco pequeno e leve, que navega iluminado pela sua aparência. O tempo passa e traz com ele um paquete novo, imenso como um sonho, cidade naval em fuga ao seu próprio movimento. A seguir, tudo descansa - e o rio é o dos poemas antigos, lidos em noites de insónia para que o sono viesse com eles. Chove e faz sol. Pessimismo? Otimismo?
Agora, no café onde estou, oiço as vozes que falam a sua confusão. Há risos e contrarrisos. A partitura oral que se executa sem maestro tem gritos, interjeições, murmúrios, pausas, exclamações. Alguém diz: "O gajo pode ter muitos defeitos, mas tem uma coragem do caraças. Se fosse a ele, já tinha mandado isto tudo à merda!" A esse alguém responde outro alguém: "Eu até nem gosto dele, mas o cabrão resiste a tudo. É de aço! Tem mais fôlegos que um gato!" É de política que falam. Comem e estão felizes. Bebem e estão contentes. Continuam a falar de política: "Quem ganhou estas eleições foi a abstenção. Cada vez é maior! E, nas próximas, ainda vai haver mais. Qualquer dia só votam os candidatos." Deixo de os ouvir. Quando os volto a ouvir, dão a volta ao mundo: falam da Alemanha, da China, da Índia, do Brasil, da Tunísia, do Egito. Têm opiniões, teorias, previsões. Dizem-nas com uma voz direta e pronunciada, como se estivessem a falar na televisão. Falam de crescimento, de dívida, de bancos, de guerra, de revolução. Um atira, como se insultasse: "És um otimista!" O outro responde, como se injuriasse: "E tu és um pessimista!" Falam deles e das suas vidas: do que têm de pagar e do dinheiro que lhes falta para isso. Falam de trabalho, de carreira, de futuro. Têm ambição, incerteza, medo. Comem e bebem com ardor. Falam das férias do próximo verão. As vozes de uns entram nas vozes dos outros, caem, levantam-se, fundem-se.
Numa mesa ao lado, um rapaz gesticula em frente de uma rapariga. Ele grita que gosta dela. Muito. Como nunca gostou de ninguém. Ela, calada, ouve. Depois, põe uma mão sobre a outra e diz que, se ainda não é indiferença o que sente, também já não sente o mesmo amor que sentiu: "Estou a ser sincera contigo. Não quero que depois me acuses de não te ter prevenido. Estou confusa. Se já não sei bem o que sinto hoje, ainda sei menos o que sentirei amanhã." Tem o olhar duro, afastado. Ele olha-a nesse olhar e suplica-lhe: "Estou à toa! Não me deixes nesta dúvida. Não consigo viver assim." Ela responde-lhe com voz fria: "Não me estejas a pressionar. Não te prometo nada. Não te posso dizer aquilo que eu própria desconheço!" Ele coça a barba e chora envergonhadamente. Ela pede um café e ouve-o dizer: "Deixa-me ficar contigo esta noite. Preciso disso!" Ela levanta a voz: "Nem penses! Esse pedido é uma falta de respeito por mim - e por ti." Ele: "Prefiro essa falta de respeito a ir sozinho para casa." Ela: "Já te disse o que tinha a dizer. Não sejas infantil. Se continuas a portar-te como uma criança, vou-me embora." Pessimista, ela? Otimista, ele? Ou o contrário?
Schopenhauer fala do pessimismo da inteligência e do otimismo da vontade. De Nietezsche, nasceu o "otimismo trágico", aquele que se ergue sobre um chão, triste, temido, tremido. Cioran, esse que acha o ter nascido um inconveniente, quando lhe perguntaram por que estranha razão ele, tão pessimista, não se suicidava, respondeu que só os muito otimistas se matam. A esses, a realidade desiludiu-os sempre. Ao contrário, para os pessimistas, ela é sempre melhor do que a esperam.
Otimista? Pessimista? Diz Yourcenar: "O otimista e o pessimista, o homem que acredita que tudo se compõe e o homem que acredita que tudo acaba mal passeiam, argumentando, no lugar de um antigo campo de batalha. Ambos peroram, enrouquecem, gesticulam. Ambos retiram da paisagem provas de apoio às suas teses. E, de facto, durante esse tempo, a erva continua a crescer sobre as sepulturas e os mortos a apodrecer sob a erva." Assim é - e assim somos no que assim é.
José Manuel dos Santos
colaborador regular do "Atual"
Texto publicado na revista Atual de 29 de janeiro de 2011
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José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)
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0:00 Sexta feira, 4 de fevereiro de 2011
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Aquilo que descobriram murmurava-lhes: façam da vossa força fraqueza, façam do vosso problema solução, façam da vossa vantagem desvantagem - e ela tornar-se-á uma vantagem maior. (...) Ginastas do esplendor seriam acrobatas da miséria.
Foram três a alugar a casa, mas no dia seguinte estavam lá trinta. Chegaram de um país distante e falam uma língua que, às vezes, se cruza com a nossa. Não sabem dizer sem gritar - isso é-lhes uma prova de vida. Para existirem, fazem-se ouvir. Para obterem território, têm de o conquistar. Mas juntam o princípio da realidade ao princípio do prazer: adoram zangas, despiques, rixas, litígios. Todos os dias, como se fosse um jogo, armam contendas, dissídios, zaragatas. Mas, à noite, a amizade reconstitui-se e as garrafas voltam a esvaziar-se. Até que um novo dia nasça e com ele a cólera cresça.
No prédio, onde havia sossego passou a haver barulho. Na rua, onde existia paz passou a existir guerra. No bairro, onde havia previsão passou a haver surpresa. E todos passaram a olhar aqueles homens de trajes gastos como se olhassem um fenómeno natural: inesperado, violento, colossal. Mas, se a curiosidade mata o gato, às vezes salva o dono dele. Pouco a pouco, os vizinhos quiseram saber mais: de que terra vêm?, que comem e bebem?, que deus adoram?, que costumes têm?, que leis respeitam?
Por tanto quererem saber, quiseram saber de que viviam. Essa pergunta também eles a faziam: "Vamos viver de quê?" Como não tinham resposta para lhe dar, tornaram-se, sem disso terem consciência, popperianos, usando o método da 'tentativa e erro'. Procuraram e não encontraram; pesquisaram e não descobriram; experimentaram e não alcançaram. Então, com a necessidade a aguçar o engenho, tentaram fazer do erro um acerto. Todos aqueles homens, dos mais novos aos mais velhos, são ágeis e elásticos nos seus corpos magros. Outrora, uns tinham trabalhado no circo; outros haviam sido lenhadores; outros ainda foram soldados e atletas. Olharam-se como se fossem espelhos uns dos outros e, a rir, descobriram-se - e descobriram.
Aquilo que descobriram murmurava-lhes: façam da vossa força fraqueza, façam do vosso problema solução, façam da vossa vantagem desvantagem - e ela tornar-se-á uma vantagem maior. Aprendido isto, aprenderam mais: ginastas do esplendor seriam acrobatas da miséria, prestidigitadores do espetáculo tornar-se-iam funâmbulos do infortúnio. E assim decidiram ser o que não eram para ser o que não seriam.
No dia seguinte, o prédio, a rua, o bairro viram que alguma coisa estava a acontecer. Em lugar de presenças e de gritos havia, naquela casa, ausências e silêncios. No dia seguinte ao dia seguinte, observaram mais e viram melhor: logo pela manhã, eles saíam de casa com os seus corpos direitos, firmes e ginasticados. Na mão, levavam sacos. Caminhavam até à paragem e entravam em diversos autocarros, cada qual indo para o seu destino. Para que a investigação fosse conclusiva, os vizinhos usaram mais recursos e mais tempo: acompanharam-nos nas viagens de autocarro e desceram com eles. Aí, viram o que não acreditavam estar a ver: mal abandonavam o autocarro e punham o pé em terra firme, aqueles homens contorciam-se e rastejavam. Amparados a bengalas, muletas, canadianas e andarilhos, tirados dos sacos, estendiam o gesto trémulo e humilde, pedindo esmola a quem passava. Não há nos seus corpos uma curvatura leve ou um coxear ligeiro. Tudo neles é terrível: os pés voltados para trás como cabeças, as cabeças tocando o chão como pés, as mãos torcidas como ramos, as costas dobradas como arcos.
A resposta à pergunta "Vamos viver de quê?" é assim dada. Quem, agora, anda pela cidade vê-os a dá-la. Lá estão: desgrenhados e suplicantes, pedem, rogam, rezam, clamam, imploram. Perante aquele espetáculo de dor e sofrimento, não há coração humano, mesmo o mais frio e o mais duro, que não sangre e ceda. E eles agradecem, louvam, bendizem.
Como se diz num velho livro que não morre, de seu título "Lazarilho de Tormes", "aqueles que tiveram a Fortuna contrária, com força e manha remando, chegaram a bom porto". Assim, estes homens descobriram nos seus corpos a mina inesgotável de um ouro que os sustenta e satisfaz. Quando, depois de um dia de trabalho, regressam a casa, entram nela firmes, direitos - e felizes. Trazem nos bolsos as moedas e as notas com que vivem de cabeça erguida, depois de as terem obtido de cabeça vergada. Atentos às oportunidades, quando, pelo país, há acontecimentos que atraem multidões (jogos, peregrinações, espetáculos, festas, feiras, romarias), lá estão eles a dar a quem lhes dá muito mais do que recebem: a boa consciência de terem feito bem a quem exibe o mal.
Agora, no prédio, na rua, no bairro, todos sabem do que vivem aqueles homens que vieram de um país distante e falam uma língua que se cruza com a nossa. Eles fizeram das dificuldades oportunidades. Com engenho, iniciativa e empreendedorismo, criaram um negócio rentável. São respeitados. Em casa, até já conseguem falar mais baixo, como se dissessem segredos uns aos outros...
José Manuel dos Santos
colaborador regular do "Atual"
Texto publicado na revista Atual de 29 de janeiro de 2011
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José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)
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0:00 Sexta feira, 28 de janeiro de 2011
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Este homicídio vai ao encontro de Freud e de Jung para o analisarem, mas passa por Sade e por René Girard ("A Violência e o Sagrado"). O seu primitivismo recua o tempo, regressado a um rito sanguinário e sacrificial.
Nos ecrãs dos computadores e das televisões como aquela que serviu para matar, os comentários não param, mostrando que toda a gente participa neste crime - uns como assassinados, outros como assassinos. Abominável, hediondo, inumano são palavras poucas e pequenas para descrever o que parece um plágio de "O Pecado de João Agonia", de Bernardo Santareno. Mas, em vez destas palavras, há muitas outras, escritas onde agora toda a gente as escreve - essa parede luminosa de um mundo apagado. Ao lê-las, tememos que o século XXI seja tão bárbaro como o século XX. Afinal, Portugal está cheio de terroristas prontos a matar, ao menos simbolicamente, os fiéis de outra fé sexual. E a sentença do "caso Gisberta" deu-lhes uma iníqua e antipedagógica sugestão de impunidade...
Este homicídio vai ao encontro de Freud e de Jung para o analisarem, mas passa por Sade e por René Girard ("A Violência e o Sagrado"). O seu primitivismo recua o tempo, regressado a um rito sanguinário e sacrificial. Num hotel de Times Square, próximo dos teatros da Broadway onde a vida dança a sua música leve, aconteceu aquilo que lembra o terror, a violência, a alucinação, a merda, o sémen, o sangue que habitam os homens.
Pense-se o que se pensar das causas e das circunstâncias deste crime, ele leva-nos a suspender todo o juízo sobre a vítima e a sua vida, que esta morte transforma em destino. Não importa o que era, como era e se gostávamos ou não disso. Tentar arranjar aí razões para este ato é fazer o que fazem aqueles que explicam com a "cupidez judaica" o antissemitismo e o extermínio nazi.
A ser o que parece, este crime e quem o cometeu estão descritos nas palavras que Alberto Moravia escreveu ao saber que o seu amigo Pasolini fora assassinado: "A morte de Pasolini, na realidade psicológica, que é a única que conta, foi certamente provocada pelo ódio do assassino para consigo próprio e pela sua identificação com Pasolini no momento do crime. Matando Pasolini, o assassino quis punir-se; o homicídio foi portanto uma espécie de suicídio dissociado e objetivo." Isto é: o assassino destrói o espelho para destruir a sua imagem nele. Mata o mensageiro que lhe revela a parte de si que recusa. A chamada "homofobia internalizada" pode estar na raiz dos piores crimes homofóbicos. Ao gritar "Já não sou gay" (confissão retroativa de que o fora e tinha medo de o continuar a ser), dizendo que tinha feito o que fez para libertar "demónios e vírus", revela que este sinistro exorcismo foi praticado sobre o outro para chegar a si. Mas o nome que ele quis expulsar da sua memória ficará para sempre preso ao seu como se fossem um só.
Os amigos do acusado gritam, com uma ilusão que desconhece a vida e como se isso fosse o mais importante, que ele é heterossexual ("como nós"), porque teve namorada. Nunca ouviram falar de bissexualidade? E de dissimulação? Yourcenar diz: "Por cada gay que se assume, há dez que se escondem e cem que nem a si próprios confessam que o são." Os amigos começaram também por gritar que não podia ser ele o criminoso deste crime. O que negam tem sido, afinal, confessado por aquele sobre o qual fazem incidir a negação.
Olhando as imagens do acusado, é-nos difícil ver ali o rosto de quem comete um assassínio com uma crueldade próxima de "O Silêncio dos Inocentes". Por isso, a terra nos foge debaixo dos pés. Achamos que os assassinos têm cara disso - e que as vítimas também. O mundo é mais complexo e trágico que a mente dos que o dividem entre "nós" - e "eles".
Há quem conte a história assim: um rapaz elegante e atlético quer ser modelo e serve-se de um homem mais velho, que ele supõe influente, para o ajudar. O homem aceita e serve-se da ambição do rapaz para se aproximar do seu corpo e do seu prazer. Começa um jogo que acabou como se sabe. Mas esse é um jogo jogado por homossexuais, bissexuais e heterossexuais. Do empresário de teatro que dorme com a atriz ou o ator à secretária que se deita com o patrão e à velha milionária que namora o personal trainer, todos os dias isto acontece, aqui ou além, ao nosso lado, à nossa frente, nas nossas costas. Destas histórias, está o mundo cheio e com elas se fazem filmes e romances. Poucas terminam num crime. Umas acabam em casamento, com o divórcio que o permite. Outras duram em encontros apaixonados às quatro da tarde em prédios de bairros discretos. Algumas findam em vinganças e denúncias. Outras prosseguem em jantares à luz de velas com as mãos a tocarem-se para dar e receber presentes...
Ao contrário do que alguns dizem, este crime não era inevitável. Na sua sordidez selvática, nomeia-se a si mesmo: abjeto, asqueroso, abominável. Olhando-o, tomamos parte nele. Ou do lado do assassino, ou do lado do assassinado. Mesmo sabendo que na morte do que foi morto começa a morte do que o matou.
José Manuel dos Santos
colaborador regular do "Atual"
Texto publicado na revista Atual de 21 de janeiro de 2011
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José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)
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0:00 Sexta feira, 21 de janeiro de 2011
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Apanhou o autocarro. Durante a viagem, achou que as pessoas o olhavam, se ele não as olhava, e não o olhavam, se ele as olhava. Isso incomodou-o. Quando o autocarro estava a chegar à paragem onde queria sair, tocou a campainha.
Na madrugada tão escura que parecia continuar a noite, o homem saiu de casa com a gabardina vestida e o chapéu de chuva na mão gelada. Morava num daqueles sítios onde moram aqueles que não podem morar noutro sítio. Quando pôs o pé na rua molhada, o frio de fora juntou-se ao frio de dentro. Andou algum tempo e veio-lhe a vontade de beber qualquer coisa quente. Passou por um café, mas estava tão lúgubre e deserto que, só de o olhar, se arrepiou. Continuou a andar e a tossir a sua tosse seca e nervosa. A certa altura, viu uma pastelaria que lhe pareceu quente, iluminada e confortável. Entrou nela como num abrigo. Caminhou até ao balcão, onde, atarefados, três empregados andavam de um lado para o outro. Dirigiu-se a um deles, murmurando "bom dia", e pediu, com uma voz que despertava, um galão e uma torrada. Ao fazer o pedido, esfregou, com rapidez e repetição, as mãos uma na outra. O empregado olhou-o, continuando a fazer o que estava a fazer. O tempo passava e, em frente do homem que esperava, o balcão permanecia vazio. Pensou: "Há gente à minha frente..." E fez da sua espera paciência. O tempo continuava a passar e nada lhe era servido. Tentava justificar o que acontecia: "Se calhar, é a torrada que demora." E aguardava. Mas a espera tornou-se inaceitável e ele disse ao empregado: "Faz favor! Esqueceu-se de mim. É uma torrada e um galão escuro bem quente." O empregado olhou-o com um olhar que significava que o ouvia e falou baixinho com a cozinheira que estava na copa. Pensou: "Foi ver o que se passa com a torrada." Mas o tempo corria e não aparecia nada à sua frente. Primeiro, o homem ficou irritado; depois, ficou embaraçado. Olhava o empregado, o empregado olhava-o - e nada acontecia. A certa altura, confuso e envergonhado, desistiu. Saiu, foi de uma rua a outra rua e entrou noutra pastelaria. Ao balcão, uma mulher agarrava em copos e pratos. Deu-lhe os "bons dias" e pediu-lhe o galão e a torrada com pouca manteiga. Ela olhou-o e ele ficou à espera. O tempo passava e nada se passava. A pastelaria tinha pouca gente e nada lhe era servido. Enervado, disse: "Já lhe pedi, há mais de um quarto de hora, um galão e uma torrada! Se a torrada custa a sair, dê-me um croissant com fiambre." A mulher fitou-o com os olhos claros e continuou a arrumar a loiça. Vexado, o homem tossiu - e foi-se embora.
Já estava atrasado: desistiu de tomar o pequeno-almoço ("Quando chegar ao escritório, vou à máquina e tiro um bolo"). Apanhou o autocarro. Durante a viagem, achou que as pessoas o olhavam, se ele não as olhava, e não o olhavam, se ele as olhava. Isso incomodou-o. Quando o autocarro estava a chegar à paragem onde queria sair, tocou a campainha. Ouviu-se o som metálico, mas o autocarro não diminuiu a velocidade e passou pela paragem como se ela não existisse. Por isso, teve de sair na paragem seguinte, onde havia passageiros para entrar que mandaram parar o autocarro. Na rua cheia de gente, o homem percorreu, num passo apressado, o quarteirão que o separava do edifício onde trabalhava. Chegou ofegante. No átrio, acenou ao porteiro e encaminhou-se para o elevador. Entrou na cabina vazia e carregou no botão do andar para aonde queria ir: o quinto. O elevador não se mexeu. Voltou a carregar e o elevador permaneceu parado. Já se preparava para desistir e ir pelas escadas quando entrou um rapaz que carregou no botão ao lado do qual estava escrito o número 5 - e prontamente o elevador iniciou a sua subida. Abriu-se a porta, ele saiu e seguiu pelo corredor até à sala onde trabalhava. Tirou a gabardina, pendurou-a num cabide e sentou-se à secretária. Olhou os papéis que a cobriam, ligou o computador e verificou que havia uma avaria, embora os computadores dos colegas estivessem a funcionar. Agarrou no telefone e começou a marcar números de gente a quem tinha de falar. Marcava, ouvia o sinal de chamada e ninguém atendia. Passou a outro número e continuaram a não atender. Tentou ainda outro e outro e outro - o resultado foi sempre igual. Virou-se então para um colega e perguntou-lhe: "Sabes se o Freitas já chegou?" O colega olhou-o, mas o olhar não lhe desfez a mudez.
O homem sentia-se como se houvesse na sua frente um vidro grosso que lhe impedisse o acesso ao mundo. Perplexo, olhava o mundo e olhava a sua ansiedade. De repente, sentiu uma vontade nervosa de mijar. Avançou pelo corredor até à casa de banho e deu com ela ocupada. Regressou à secretária. Deixou passar algum tempo e voltou à casa de banho. Já estava livre. Entrou. Dirigiu-se à sanita, mas a urina não saía. Aflito, olhou o espelho. Olhou-o e não viu nele a sua imagem. Não sabia se era ele que não se via no espelho, se era o espelho que não o via a ele...
Este homem existe. Sou eu. És tu. Às vezes, em certos dias, a certas horas...
José Manuel dos Santos
colaborador regular do "Atual"
Texto publicado na revista Atual de 15 de janeiro de 2011
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José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)
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0:00 Sexta feira, 14 de janeiro de 2011
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Para estes cientistas da escassez, que outrora foram os prestidigitadores da fartura, a economia passou a ser uma matemática humana - ou até uma ciência da natureza. Ouvi-los é escutar alguém que acrescenta fogo ao fogo para o apagar.
Em cada ano que nasce há o desejo de sermos felizes. Na festa com que passamos o texto rápido do tempo existe uma magia de felicidade. Votos e passas, música e champanhe têm um movimento ascendente. Mas, neste princípio, tudo é ao contrário. "Assustador" é o nome do ano que começa e dos seus dias tão pouco nossos. "Ano assustador", repetem-nos e repetimos. Por isso, respiramos fundo a preparar o fôlego para uma caminhada longa e lúgubre. As vozes carregam-se de rouquidão para dizer medo, carência e raiva. Os olhares acompanham-se de inclinação para dizer cuidado, apreensão e suspeita.
Os que falam para serem ouvidos afirmam agora as grandes virtudes (o rigor, a poupança, a austeridade, o trabalho, o esforço, a responsabilidade) que têm de suceder aos grandes pecados (o laxismo, o esbanjamento, o desperdício, o ócio, a inércia, o facilitismo). Mas há, nesta peça, o que não bate certo. Vemos que os atores da tragédia de hoje foram os atores da comédia de ontem. Por isso, os seus rostos nos são máscaras e os seus lamentos risos. Por isso, não os levamos a sério.
Economistas, financeiros, gestores dizem, com a altivez de quem submeteu o mundo e fez dele um desastre: "A realidade regressou depois da ilusão"; ou: "Números são números e não há volta a dar." Para estes cientistas da escassez, que outrora foram os prestidigitadores da fartura, a economia passou a ser uma matemática humana - ou até uma ciência da natureza. Ouvi-los é escutar alguém que acrescenta fogo ao fogo para o apagar. Para estes moralistas do défice, que dantes foram os libertinos do lucro, a economia é uma teologia e os seus mecanismos mandamentos divinos. Cada um destes salvadores julga-se o Noé de uma arca donde se olha o dilúvio com superioridade e sobranceria. Mas Noé não é o nome que mais lhes convém. Cada um deles é, isso sim, uma Maria Antonieta que se desconhece ("O povo não tem pão? Que coma brioches!"; "O desemprego aumenta, cortem os subsídios!"). A sorte, para eles, é que os Robespierres são de bolso e andam distraídos...
A política, essa, tem a autoridade de quem não sabe o que fazer e faz o que não sabe. E os que lhe usam o rosto parecem insetos à volta de uma luz que cega. A verdade de hoje é o erro de amanhã e o erro de ontem é a verdade de hoje. No "Rei Lear", diz-se: "Este é o sinal dos tempos: os loucos guiam os cegos."
Eu ando na cidade e vejo loucos, cegos, pedintes. Vejo a realidade desta irrealidade e a claridade desta escuridão. Um dia, as ruas e as lojas estão cheias de gente. No dia seguinte, estão desertas, num Chernobyl depois do desastre. Numa semana, tudo avança. Na semana seguinte, tudo recua, como num filme passado ao contrário. Nas montras, roupas, sapatos, móveis, candeeiros estão tapados por palavras enormes: saldos, promoções, reduções, baixa de preços. Nos passeios, mendigos, vagabundos, sem-abrigo, arrumadores correm na sua mímica de piedade, na sua dança de súplica. Um diz um discurso, outro atira um gesto. Há-os líricos e dramáticos, tímidos e exibicionistas, eruditos e iletrados, gentis e agressivos. Um pede e apresenta documentos. Outro implora e expõe feridas. Este usa o choro para comover. Aquele exibe a navalha para ameaçar. Uma enumera o que fez e os sítios onde trabalhou. Outro tem um enorme letreiro a proclamar a sua miséria. Esta ruge palavrões irados: "Foda-se, dá-me um euro! Fui puta, mas agora já ninguém me pega!" Aquele, enrolado num cobertor, estende a mão torcida e escura. O que anuncia, há anos, o fim do mundo ri-se, satisfeito, com a atualidade da sua profecia. O que fala de fome mostra as fotografias dos filhos. Nunca sabemos a verdade ou a mentira do que afirmam. A minha esmola recompensa o engenho. Quanto mais a ficção é ágil e imaginativa, mais dou. Mesmo no logro, o talento sempre me encantou...
Passo e eles estão a pedir. Falam português, ucraniano, crioulo, árabe, inglês, espanhol. Nesta Babel, cuja torre desce para o inferno em vez de subir para o céu, há concorrência, produtividade, competitividade, cotações de mercado, rating, notações, economia real. Aprendo mais aqui sobre a crise do que ao ouvir os economistas falar dela...
O ano começa e o seu começo parece um fim. Na rua, a multidão é atravessada pelos pedintes. Este, com um riso contente e cruel, diz: "2011 vai ser o ano da igualdade. Vão ficar todos a pedir como nós." O homem de fato azul-escuro e gravata azul-clara a quem ele diz isto estremece o olhar e acelera o passo. O mendigo segue-o, persegue-o, sempre a dizer: "Vão ficar todos a pedir como nós!" Ele dá-lhe dinheiro para o afastar. O mendigo vai e diz o mesmo a outro, a outros: "Vai ser o ano em que todos vão ficar a pedir..." E olha, alucinado, como se lesse a sina ao mundo. E corre, apressado, como se quisesse chegar antes do desastre...
José Manuel dos Santos
colunista regular do "Atual"
Texto publicado na revista Atual de 8 de janeiro de 2011
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José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)
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0:00 Sexta feira, 7 de janeiro de 2011
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O tempo só nos diz se o dissermos. Por isso, a cada ano que acaba, damos uma palavra que o diga, para com ela nos dizermos também. Aqui e em muitos outros lugares, caem sobre 2010 as palavras de um dicionário que apenas as tivesse amargas ou assustadoras. Essas sabemo-las de cor, porque, ultimamente, as temos ouvido em todos os momentos e as temos lido em todos os títulos.
Uma revista francesa pediu a escritores para escolherem palavras que fossem o nome deste ano que finda. Cada um, escolheu uma: crise, dívida, gerir, excesso, invisível (para apontar o que se quer esconder), identidade (francesa, claro), limpeza (étnica, por causa da expulsão dos roms) e ainda os nomes de gente que esteve no centro de acontecimentos e escândalos (o "affaire Bettencourt", por exemplo). Em Portugal, se fizéssemos a mesma pergunta, algumas palavras seriam as mesmas. Outras seriam diferentes: juros, rating, cortes, défice, desemprego, desigualdade, pobreza, chuva, euro, FMI, BPN, Rosalina Ribeiro. E, agora, em todo o mundo, a palavra mais repetida é WikiLeaks e, com ela, vem Assange. Sabemos que estas são palavras de passe a levar-nos de 2010 para 2011.
Nestes dias, oiço o que se exclama sobre o ano que termina, e a palavra mais ouvida é dita para com ela se dizer tudo o que nos afasta da felicidade ou da ilusão dela: "merda". "Foi um ano de merda!", afirma-se. "Que merda de vida!", protesta-se. "Merda para isto", repete-se. "São todos a mesma merda!", lamenta-se. "Merda" é uma palavra que dá sorte no teatro. Segreda-se aos atores, em noites de estreia, desejando-lhes palmas em vez de pateadas. Fora dessas salas onde nos vemos nos outros a fazer de outros, a mesma palavra não é de sorte ou de êxito que fala - é de azar e de fracasso. Na política ou na economia, no trabalho ou em casa, dizemos "merda" para dizer que 2010 foi um ano para esquecer - e, por isso mesmo, não o esquecemos.
Eu olho os dias deste ano e também exclamo: "Que merda!" Isso aqui fui escrevendo, mesmo sem escrever a palavra que alguns chamam "mot de Cambronne", do nome do general de Napoleão que, na batalha de Waterloo, quando o general britânico Colville lhe ordenou que se rendesse, mandou-o à merda. Por isso, ficou na história. Às vezes, mandar alguém à merda pode ser a última forma de heroísmo...
Quando digo "este foi um ano de merda", não digo tudo o que o ano foi. Olho para trás e vejo que, às vezes, uma luz atravessou a sombra. Nesta passagem do tempo, trago aqui essa luz, fazendo dela um bom augúrio. Trago essa luz da luz que, numa tarde fria, vi acender-se, entre o céu cinzento e o rio triste, mudando a cor ao mundo. Trago-a das palavras ditas pela voz de uma mulher: "Sou velha, mas estou viva." Trago-a do grito gritado contra a prepotência ávida: "Estes gajos pensam que são nossos donos, mas não são!" Trago-a dos versos de Jaime Gil de Biedma, tornados meus numa tarde de verão: "No jardim, lendo,/ a sombra da casa obscurece-me as páginas/ e o frio repentino de final de agosto/ faz que pense em ti." Trago-a da mão que me tocou com uma lentidão próxima do desejo. Trago-a da terceira sinfonia de Górecki, morto este ano, ou da oitava sinfonia de Mahler, cantada por Lucia Popp. Trago-a do sorriso que sorriu no rosto de um desconhecido quando, numa rua cheia de gente, íamos chocando. Trago-a de um pensamento de Levinas, lido numa manhã ainda não passada, e que é uma condenação do mundo de hoje: "Depois de ti": "Esta fórmula de delicadeza devia ser a mais bela definição da nossa civilização." Trago-a de um recado escrito pela minha mãe, a dizer-me que havia cerejas à minha espera, e descoberto há pouco numa gaveta onde o guardara, como se ela mo tivesse voltado a escrever com a sua letra aguda e lenta. Trago-o dos erros cometidos, para fazer deles a lua de uma prudência ou o sol de uma ousadia. Trago-a das palavras enviadas por tantos, depois de aqui me lerem, e que, mesmo quando há silêncio na minha resposta, esse é ainda um silêncio de reconhecimento. Trago-a do aforismo de Wittgenstein, lido num livro que nunca fecho: "A ambição é a morte do pensamento." Trago-a de uma noite mudada num grande dia do corpo. Trago-a da festa feita a um gato e por ele devolvida num olhar limpo e longo. Trago-a da chama que, no Bosch que revi no Museu da Arte Antiga, arde a um ritmo que se acelera no nosso olhar. Trago-a da firmeza de um amigo, afirmando a vida contra a doença que a nega. Trago-a da luz de uma gema translúcida, vinda de um tempo antigo e de um país distante, que toco para sentir melhor que o mundo não começou ontem, nem existe só para nós. Trago comigo esta luz que atravessou a sombra de 2010. Trago esta luz até nós - e olho com ela o ano que chega, assim chegasse a uma janela que se abre.
José Manuel dos Santos
colunista regular do "Atual"
Texto publicado na revista Atual de 30 de dezembro de 2010
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José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)
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17:00 Segunda feira, 3 de janeiro de 2011
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No Natal que é, lembramos os Natais que foram. E lembramos aqueles que nesses estavam e neste já não estão, porque tudo passa e um nascimento é sempre promessa de uma morte. Lembramos os Natais que foram, trazendo-os até nós, para que venham com eles os momentos em que, na sombra iluminada da noite, os rostos sorriam e as mãos entregavam as prendas que nos davam contentamento ou desilusão. Em cada Natal presente há todos os Natais passados: os mais alegres e os mais tristes, os mais frios e os mais quentes, os mais fartos e os mais fracos (mas no Natal aparece sempre o que, se faltasse, o impedia de ser Natal).
Chegava dezembro e os meus sentidos apontavam ao mundo para que nada me fosse alheio. Os dias passavam com a rapidez do desejo e eu ficava atento aos sinais do que ia acontecendo. Era o início das férias e a minha casa rodava sobre si mesma, como nos quadros de Vieira da Silva. Começavam então as grandes limpezas, as grandes preparações, as grandes ansiedades (não podemos esquecer isto!, não pode faltar aquilo!).
De manhã à noite, tudo era lavado, limpo, escovado, encerado: dos soalhos aos tetos, dos móveis aos espelhos, dos cortinados às roupas. Depois, na cozinha, era a azáfama meticulosa e turbulenta que produzia milagres: o bacalhau cozido e o peru recheado, as couves e as batatas, o cabrito assado e as filhós, os coscorões e as fatias douradas. Então, os meus sentidos ficavam ainda mais atentos ao mundo. O olfato distinguia, pelo cheiro que andava no ar, as broas do bolo-rei, as amêndoas das nozes, o vinho do Porto do vinho da Madeira. Com o ouvido, detetava o momento em que os presentes eram escondidos no guarda-vestidos e a minha avó dizia para a minha mãe: "Achas que o menino vai gostar?" A minha avó vivia para mim e, com este imenso amor, a vida fez-me, nesse princípio, uma promessa que não lhe foi possível manter. Com o olhar, olhava as iluminações das ruas da Baixa, as montras das lojas de brinquedos, os acrobatas que voavam no circo. Com o tato, procurava, na escuridão da chaminé, o presente que o Pai Natal lá tinha posto. E com o paladar provava coisas que depois iria comer (o meu pai dava-mas, enquanto a minha mãe dizia: "Isso é só para comer logo à noite!") e depois comia o que já tinha provado.
Nesses Natais, eu era eu, tudo me pertencia, ninguém tinha morrido e, por uns dias, o mundo era perfeito. Até o frio fazia parte dessa perfeição. Para que a perfeição fosse ainda mais perfeita, só faltava a neve. Durante anos, esperei que ela viesse, mas ela nunca vinha. A minha mãe contava a única vez em que a neve tinha caído sobre Lisboa e os seus olhos abriam-se, como outrora se tinham aberto para a ver. Durante anos, sonhei com essa neve no Natal, mas só conseguia olhá-la nas fotografias do jornal ou nas imagens da televisão. Mais tarde, quando estive naquelas cidades onde a neve não falha, verifiquei, mais uma vez, que a realidade e o sonho dela só coincidem quando não coincidem.
Eça de Queirós, numa Carta de Inglaterra, escreveu um dia sobre isto: "O Natal, a grande festa doméstica da Inglaterra, foi este ano triste - dessa tristeza particular que oferece, por um dia de calma ardente, a praça deserta de uma vila pobre, ou dessa melancolia que infundem umas poucas de cadeiras vazias em torno de um fogão apagado, numa sala a que se não voltará mais.../ O que nos estragou o Natal não foram decerto as preocupações políticas, apesar da sua negrura de borrasca (...)./ Não, o que estragou o Natal foi simplesmente a falta de neve. Um Natal como este que passámos, com um sol de uma palidez de convalescente, deslizando timidamente sobre uma imensa peça de seda azul desbotada; um Natal sem neve, um Natal sem casacos de peles, parece tão insípido e tão desconsolado como seria em Portugal a noite de São João, noite de fogueiras e descantes, se houvesse no chão três palmos de neve e caísse por cima o granizo até de madrugada!"
Com aquela inteligência que lhe parece nascer dos sentidos, Eça, nesta carta distante, dá-nos um motivo de esperança para o nosso Natal de crise: "As desgraças públicas nunca impedem que os cidadãos jantem com apetite: e misérias da pátria, enquanto não são tangíveis e não se apresentam sob a forma flamejante de obuses rebentando numa cidade sitiada, não tirarão jamais o sono ao patriota." Que assim seja, e o apetite não nos falte, nestes dias sujos de apreensões e temores!
No Natal que é, lembramos os Natais que foram. Num Natal de um amanhã mais leve, lembraremos o carregado Natal de hoje - e ficaremos admirados, porque o sabor amargo destes dias tornar-se-á então um sabor mais doce. É que, olhando o nosso presente desse futuro, vemo-nos mais novos do que então seremos - e isso nos dará uma tristeza feliz.
jmdossantos@netcabo.pt
colunista regular do "Actual"
Texto publicado na edição do Actual de 23 de dezembro de 2010
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José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)
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0:00 Sexta feira, 24 de dezembro de 2010
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O pescoço ameaçado pela lâmina. A pedra atirada à cabeça. O cuspo apontado à cara. De quem? Do inimigo: a lei, a ordem, a autoridade, a moral, a religião, a pátria, o Estado, a sociedade, a classe, a civilização, tu, eu ("Falta-nos ódio. Dele, nascerão as nossas ideias").
Isto, a obra. Este, o autor: Jean Genet nasce a 19 de dezembro de 1910 (há 100 anos), num hospital, e morre a 15 de abril de 1986, num hotel. O hospital e o hotel são em Paris, mas a mesma cidade para nascer e morrer não diz a sua vida nómada. Essa, contada quase dia a dia por Edmund White numa monumental biografia que li há anos numas férias sem sono, fez-se de escárnio e desafio, liberdade e errância, desprezo e divertimento, ritual e jogo. Ele foi um dândi da afronta. Da vida fez uma mitologia. Havia nele uma rara forma de grandeza, próxima de um poder oculto.
Filho de pai incógnito, é abandonado pela mãe num asilo. Na carta à Assistência Pública, ela dá a sua miséria como razão para não poder ficar com o filho. Escrita com desespero e súplica, esta é uma das quatro cartas agora conhecidas, único rasto desta mulher sem rosto cuja vida durou apenas 30 anos e que o génio do filho não deixa morrer. Já velho, Genet podia ter ido ao arquivo olhar a letra daquela que lhe deu, em vez de uma memória, o vazio dela. Foi desse vazio que ele verdadeiramente nasceu. Podia lá ter ido, mas não quis. "Tarde de mais", foram as palavras da sua recusa.
Com 1 ano, é entregue a uma família de carpinteiros do Morvan. Tornam-no católico, e ele torna-se o melhor aluno da escola. Mais tarde, dá os nomes dos colegas às personagens dos seus romances ("Criar é sempre falar da infância"). Aos 14 anos, começa a verdadeira vida ("Viver é sobreviver a uma criança morta"): fugas, roubos, tratamentos, prisões. Internado numa casa de correção, inicia-se na leitura e no amor. Alista-se na Legião Estrangeira: Damasco, Beirute, Marrocos. Deserta e corre a Europa. É expulso, quando não é preso. Rouba, quando não é roubado. Engata, quando não é engatado.
Regressado a Paris, prendem-no por roubo e falsificação. Lê: romances populares, Dostoievski, Proust, Nietzsche, outros. Na prisão de La Santé, começa "Nossa Senhora das Flores". Sai e volta a ser preso. Na prisão de Fresnes, escreve "O Condenado à Morte". Estes textos circulam como uma lança que passa de mão em mão. Cocteau lê-os e, deslumbrado e invejoso, dá-os a ler. Desde Sade, não se via nada tão violento. Desde Chateaubriand, nada tão eloquente. Desde Proust, nada tão perverso. Começa a idolatria e também o escândalo. É preso pela última vez: Cocteau, Sartre e outros, invocando-lhe o génio, pedem e obtêm o indulto. Só em França, esse país literário, isto podia acontecer.
Escreve "Milagre da Rosa", "Querelle de Brest", "Pompas Fúnebres", "Diário de Um Ladrão". Sartre existencializa-o em 600 páginas de prefácio às suas "Obras Completas": "Sain Genet, Comediante e Mártir". É a glória e o dinheiro. Ele lê o livro e fica seis anos sem escrever. Sai desse silêncio com o grito do seu teatro. Célebre no mundo, vive e ama na tragédia. Não tem casa. Nunca se sabe onde está. Funâmbulo da vida, ama um funâmbulo da morte ("Um artista de circo que se deixa aplaudir é já um burguês"). Radical e provocador, apoia causas, revoltas, terrorismos: Panteras Negras, Palestinianos, Baader-Meinhof. Mas confessa que se os negros americanos e os árabes não fossem tão belos não os apoiaria tanto.
Na sua escrita ("Escrever é levantar todas as censuras"), o mais lírico e refinado francês vive com o mais duro e vulgar calão. Na sua teologia, as virtudes são o roubo, a traição e a homossexualidade ("Um macho que beija outro macho é um macho a dobrar"), vivida como transgressão e castigo. Excluído pelo nascimento, fez da exclusão o seu contra-ataque: o excluído exclui. Traído, trai. Tudo se inverte na sua contramoral: o pecado é a virtude e o profano é o sagrado. Genet é o santo do mal ("A santidade é forçar o Diabo a ser Deus").
'Roubo' em francês diz-se vol e é também 'voo'. Neste homem sem céu nem terra, mas com muitos corpos e muitas almas, o baixo e o alto juntam-se. As palavras roubam-se e acendem-se para queimar. Os corpos voam na fuga e no amor. Aquele para quem a poesia e o crime são irmãos, disse: "A minha vitória é verbal e devo-a à sumptuosidade das palavras." Sem Genet, a literatura saberia menos dos homens - e de si.
Um dia, estava em Marrocos e fui a Larache ver o seu túmulo. Depois de passar um labirinto de vozes e dedos a apontar, cheguei ao antigo cemitério espanhol, que fica entre uma prisão e um bordel. Olhei, desalinhada de tudo, a terra que o cobre e li o nome na pedra. Abaixo, o mar e o seu vaivém, fazendo do distante próximo e do perto longe.
jmdossantos@netcabo.pt
colunista regular do "Actual"
Texto publicado na edição do Actual de 18 de dezembro de 2010
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