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TACO A TACO

Jorge Fernando e Sam the Kid num fado em ritmo hip-hop

Os dois músicos cantam "a meias" a música "Pois é", do novo disco do fadista, chamado "Viva". Oiça um trecho do fado-rap "Pois é" e leia o resultado da conversa entre os dois sobre esta parceria, o fado e o rap, a Internet, os downloads e muito mais.
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Jorge Fernando e Sam the Kid num fado em ritmo hip-hop

Um é uma referência do fado português. O outro ajudou a afirmar o hip hop na língua de Camões. Estilos musicais à parte, Jorge Fernando e Sam the Kid juntaram-se para fazer 'Pois é', um dos trechos do novo disco de Jorge Fernando, "Vida". O Expresso falou com eles e pôs os dois a falar um com o outro.


Afinal, estamos perante um fado com toque de hip pop ou de hip hop com toque de fado?

Sam the Kid (S.K.) - As duas coisas. A música está muito bem equilibrada e existe um bocado dos dois.

Não é comum estes dois géneros musicais tão distintos cruzarem-se. Como surgiu a ideia?

Jorge Fernando (J.F.) - Um dia vinha no carro e a música do Sam entrou. Pensei: "como é possível escrever desta maneira". O Sam tem uma grande caneta! Tinha de fazer alguma coisa com ele. Tentei fazer um fado que pudesse suportar uma batida de hip pop. Fiz a maqueta e mostrei-lhe.

Alguma vez pensou em participar num fado, Sam?

S.K. - Trabalhar com um fadista mesmo, nunca tinha acontecido... Mas gostei do tema logo à primeira, apesar de o Jorge me ter dado liberdade para alterar o que quisesse.

Depois a versão final da letra foi feita pelos dois?

J.F. - Já tinha a letra feita. Mostrei ao Sam e disse-lhe: "A letra é isto. É sobre a vida actual das pessoas... a desgraça dos portugueses." Desde que me conheço percebo que é esta a desgraça dos portugueses, trabalhar uma vida inteira e depois não ter nada. Então quem viaja muito percebe que quando há crise, a dos portugueses é maior...Claro que o Sam pegou naquilo e fez logo uma obra de arte, que completa na perfeição a ideia que eu tinha nas palavras que escrevi.

S.K. - Ele mostrou-me o tema e eu gostei logo à primeira, apesar do Jorge me ter dado liberdade para alterar o que quisesse. Na minha parte só tirei algumas coisas, mas pouco. Estava reticente com os "drums", a batida, porque há pessoas que sendo "outsiders" do rap tentam fazer uma coisa que não é bem aquilo, mas ele fez mesmo bem...não me espantava nada em lhe pedir para que no meu próximo disco ele me fizesse uma batida. Não é fazer um rap, mas uma música. Ou ao contrário, ele pedir-me para fazer uma letra para um fado. Este intercâmbio é espectacular...

Como reagiu à ideia quando o Jorge veio ter consigo? Já tinha pensado antes em participar num fado?

S.K. - Trabalhar com um fadista mesmo nunca tinha acontecido. Mas sempre ambicionei ter o respeito dos meus antecessores e na música em geral. O pessoal do hip hop, às vezes, é fechado e complexado...

J.F. - O do fado também...

S.K. - Dizem "ah, eles não gostam da nossa música..." Um grande favor que o Jorge me fez foi apresentar-me aos poetas do fado. Existem muitos que não são músicos, por exemplo. Ele dizia-me assim: "Dá uma rima Samuel". E eles: "Ah, isto parece corridinho!" (risos). Ter o respeito deles (poetas) foi o máximo. Muitas vezes os músicos não querem colaborar, cada um está na sua vida...

J.F. - O que o Sam está a dizer é muito português. O português vive muito isolado, fechado dentro de si mesmo. Esta rapaziada nova do rap tem essa coisa brilhante, crescem uns através dos outros e criam uma força que o português não tem. Toco muito com músicos brasileiros e eles têm algo que nós não temos. Eles nunca falam mal um dos outros, só bem. Mas em qualquer área que for. Nós aqui estamos à procura de um defeito para falar mal. Esta rapaziada nova parece muito mais despreconceituosa, que é uma coisa que me irrita muito nos portugueses - o preconceito. Temos que aprender com eles. Esta malta do hip hop está a dar-nos uma grande lição nesse sentido...Se bem que não me sinto minimamente inserido nesse traço português. No primeiro disco da Ana Moura, pu-la a cantar com o Zé Pato, nunca se tinha cruzado o fado com o flamenco antes. Eu fi-lo. Nos discos do Câmara Pereira - e produzi tantos - comecei a usar novos instrumentos. Digamos que sou, entre aspas, o culpado por começar a haver esta simbiose entre o fadao e outras áreas.

Acham que esta vossa experiência com o "Pois é" servirá de sugestão para outras colaborações entre diferentes géneros musicais?

S.K. - Sim, sim. Acho que as pessoas gostarão de tentar fazer a mesma coisa

J.F. - Por exemplo: em 1994 editei um disco que foi considerado pela Billboard como um grande disco de "world music", onde já fazia misturas. Depois fiz três CD com alguns elementos da Brigada Victor Jara e, na altura, muita gente vivia atrás de mim a dizer: "tu és fadista, pá! Não faças isso. Tu tens é de gravar fado." São as mesmas pessoas que me criticaram então, como o Hélder Moutinho ou a Joana Amendoeira, que hoje estão a usar os mesmos instrumentos que eu usei há dez anos.

Esta música tem um certo carácter interventivo, como vocês já disseram. Mas qual era o objectivo: apenas falar de uma situação ou "enviar" uma mensagem a alguém?

J.F. - Na minha opinião a grande mensagem é a hipnose colectiva em que vivemos. Pessoas alienadas, descrentes... Não tenho a presunção de rectificar a mentalidade das pessoas ou o fio de pensamento psicológico colectivo. Mas pelo menos fazer um "cliquezinho". O que referimos na letra? As pessoas passam muito tempo nos transportes. Chegam a casa cansadas, não têm tempo nem para o parceiro nem para os filhos, ligam a televisão e é ali que passam o seu tempo. As relações deturpam-se. Hoje as pessoas trabalham uma vida inteira para ficar com nada. Dão a sua vida ao crescimento do país e o país não lhes retribui isso.

S.K.- A música não é pregadora. É apenas uma constatação de como as coisas são. Acho que dizer: "as coisas são assim e tu reflectes e reages à tua maneira" resulta, às vezes, melhor do que dizer: "vamos fazer isso, vamos fazer aquilo". A música serve para isso, para tu reflectires e te reveres. Mas tudo isso com arte, com estilo e perícia.

Apesar de tudo vocês têm estilos musicais diferentes ...

S.K - Não temos nada (risos) ...

J.F. - Concordo com o Sam. O meu estilo musical é a música...

...mas identificam-se em vários aspectos, então?

J.F. - Pois, somos dois miúdos de rua. Há uma coisa que acho encantadora no Sam. É que ele é um menino de rua, tal como eu, isso dá-nos um sentido de observação prático. Vivemos na rua entre as pessoas. Não há em nós aquela dicotomia entre quem observa de longe e quem é observado. Se calhar daí a gente perceber alguns problemas que muita gente não percebe...Há muitos políticos que não têm percepção de como são as coisas. Nem sabem quanto custa um café, porque são os assessores que lhos pagam. Nunca foram à urgência do hospital, por exemplo. O que é encantador no Sam é que ele está por dentro das coisas, ele define as coisas como elas são. Tem de se saber das coisas para se poder falar delas. E nós, como estamos perto das pessoas e nascemos em bairros menos protegidos, digamos, temos uma vivência que, acho, nos deu uma riqueza que se calhar que falta a muita gente...

S.K. - Exactamente, não trocaria isso por nada... Nem hoje me estou a ver a viver noutro sítio.

Sam, como se sente ao ser elogiado pelo Jorge?

S.K. - Claro que me sinto lisonjeado...Quer dizer, se eu não estivesse aqui ele não dizia isso tudo (risos).

J.F. - Eu acho que o silêncio é uma coisa muito bonita. Prefiro o silêncio a dizer mal das coisas. Quando há músicas bonitas, por exemplo, digo logo às pessoas. Prefiro salientar as qualidades e referir o que está bem. Imagina que descubro uma voz e vejo que ela tem alguns defeitos. Eu não vou estar ali a bombardear a pessoa. Isto é como um copo. Quando um copo está cheio, se metermos mais água lá dentro ele transborda. Temos que retirar a água para depois pormos coisas lá dentro.

S.K. - Eu também saliento sempre as qualidades. Só depois é que vêm os "mas" .

Mas Jorge, criticou o Sam em algum momento?

J.F. - O Sam é perfeito. É muito sincero no que faz. É isso que chega às pessoas. A verdade dele é como a de um fadista. Quando um fadista é verdadeiro, ele chega às pessoas. E o Sam tem essa verdade. Ele abre o coração às pessoas. E isso não se ensina. Estamos numa época de grandes equívocos no fado. Pessoas de alguma intelectualidade dizem que "o fado não é isto ou aquilo, o fado é o (Alfredo) Marceneiro, o fado é o "Menor"". Mas eu às vezes ouço pessoas a cantar o Marceneiro e o "Menor" e aquilo não é fado, porque as pessoas não têm alma fadista. Fafá de Belém, Roberto Carlos, até o Caetano Veloso cantou o fado - e não me vais dizer que aquilo é fado, porque a alma deles não é de fadista. Ao mesmo tempo ouves a Amália cantar o "Summer Time" e aquilo não é fado, mas tu não podes deixar de sentir que aquilo é uma fadista que está ali a cantar. Porquê? Porque o fado é uma questão de alma e tu não tens um botão para a desligar ou não. O conteúdo mantém-se, a forma pode mudar. O Camané canta alguma coisa, sente-se a alma fadista. Com a Ana Moura também. E deixa-me dizer uma coisa: eu senti isso no Sam. Sinto no Sam uma alma fadista. Deixa-me dar-te outro exemplo. Um dia ouvi o Rui Veloso cantar o fado e caí para o lado. Se o Rui quisesse seria um grande fadista e a forma como ele canta tem qualquer coisa de fado nele.

Sentiu isso, Sam?

S.K. - Não posso dizer que tenho alma de fadista, porque não percebo bem de fado, mas percebo o que Jorge quer dizer. Eu não respiro fado. Se ele disser isso, eu concordo. Mas da minha boca não digo, sem ter a sabedoria...

E no seu género musical esse conceito de alma existe?

S.K. - Claro. Nós temos o "feelling" para cena. Todas as palavras têm de ser ditas de forma que as pessoas acreditem. A técnica é importante, mas tem de ficar um bocadinho abaixo, tem de ser sentida - e não pensada....

J.F. - E depois há uma coisa que transcende este conceito. Vamos pôr a questão no fado. Um dia perguntaram à Amália: "O que é que a Amália pensa quando canta?" Ao que ela respondeu: "Se eu pensasse não cantava". O quero dizer com isto? De vez em quando aparecem seres ainda mais raros dos que cantam com a alma. Uma coisa é cantares com a alma e a outra coisa que a Amália tinha, e hoje a Ana Moura tem, é deixar que a alma seja trespassada por qualquer coisa que chega às pessoas. Atravessa a alma e chega às pessoas. É qualquer coisa em que a alma está a ser um veículo.

Por ter uma mensagem bastante acessível e um carácter interventivo, pode dizer-se que esta vossa nova música é um fado/rap do povo?

J.F. - Eu acho que há dois tipos de poesia - para ser lida e para ser cantada. Quando tens dificuldade em perceber logo, não me parece que a letra esteja bem conseguida. Ultimamente, por causa de uma onde pseudo-intelectual no fado, têm cantadas coisas que parece que não são cantadas...

Jorge: quando começou no mundo da música tinha uma banda. Que tipo de música tocavam?

J.F. - Naquela altera eram mais "covers". Também cantávamos em festivais que fazíamos para sobreviver, não é? Eu era vocalista e guitarrista.

Quem o ensinou? Foi autodidacta?

J.F. - Fui. Comecei na banda aos 13 anos. Mas aprendi a tocar com 4 anos. Um dia fiquei com papeira e tive uma semana de cama. Como o meu avô era violinista de fado, depois dessa semana em que estive com papeira saí de casa a tocar viola.

E começou logo a cantar fado?

J.F. - Sim, comecei no fado e só depois é que fui para banda.

Mas porquê o fado?

J.F. - Primeiro porque o meu avô materno cantava fado. Eu não sabia tocar fado, só cantava, meio na brincadeira, os fados que na altura estavam na moda. Depois, aos 16 anos, estava a ensaiar com a banda numa garagem e alguém me disse: "olha ali vai o rei do fado, o Fernando Maurício. Era assim que a comunidade do fado o tratava O Fernando Maurício está para o fado, como o Bob Marley está para o "reggae" (risos)....e quando o vi foi um choque tão grande que a partir dai, peguei na viola e comecei a cantar e a tocar fado. E comecei logo a escrever para o fado.

Mas depois enveredou pelo pop, era algo que queria mesmo?

J.F. - Eu penso que teve uma parte de deslumbre. Não sabia bem o que fazer. Uma noite estava no "Embuçado" a cantar e três jovens chamaram-me. Eram o António Emiliano, o Pedro Ayres de Magalhães e o Miguel Esteves Cardoso. Convidaram-me para a sua editora, Fundação Atlântica, que ia abrir. Só que, entretanto, a Valentim de Carvalho também me convidou - e aceitei uma carreira a solo. E porque na altura eu era engraçadinho eles acharam que devia fazer música mais fácil, para chegar às meninas e não sei o quê...E eu aceitei, com esta minha ingenuidade, que não me larga, mesmo depois destes anos todos

Esse seu disco, mais pop, foi o que vendeu mais até agora?

J.F. - Foi...

Não é um bocado frustrante ver que o disco com o qual, se calhar, se identifica menos, foi o que vendeu mais?

J.F. - É um bocadinho, até porque levei com esse estigma a vida inteira. Porque as pessoas que me viram cantar fado acharam que o meu caminho não seria por ali. Eu deveria ter percebido na altura...era o deslumbre dos vinte, como disse o Sam...e na altura ainda tocava com a Amália...

S.K. - Antes de te conhecer, quando falavam em Jorge Fernando eu pensava logo no "Umbadá", era a imagem que mais rapidamente associava a ti...

J.F. -Tem sido um longo percurso, porque como te disse, o preconceito é terrível, mesmo da parte dos que não o deveriam ter, os chamados mais inteligentes. Chega um momento da minha vida em que estou a cumprir sonhos, com este próximo disco onde gravei com o Zé Mário Branco ... um tema com o Sam the Kid. Estou a tempo de ser feliz com o que faço...

S.K. - Quando foi a última vez que tu cantaste o "Umbadá"?

J.F. - Há cerca de um mês...

S.K. - Um mês? (risos)

J.F. - Qual o meu espanto quando estava a dar um concerto e numa assistência em que miúdos de 15, 16 anos, eles começam a "é umbadá" e eu, ah é "umbadá borá lá, então", e começo a tocar...mas na versão fado. Se calhar o "umbadá" não é assim uma coisa tão má...

S.K. - Não! Eu nunca disse isso, nem penso isso...

J.F. - Deixa-me confidenciar-te um segredo. Um dia sairá uma colectânea com as minhas coisas, na qual sairá o "umbadá" gravado com alguns dos melhores músicos brasileiros de sempre. E quando eu estava a gravar isso no Brasil, a Flora de Purim disse que gostaria de gravar esse tema um dia. Se calhar o "umbadá " não é uma coisa assim...tão careta...

S.K. - É um registo diferente...

J.F. - Que não é o meu...

S.K. - Começaste a compor para o fado muito jovem?

J.F. - Fiz a "Trigueirinha" com 15 anos e é engraçado eu chegar à Sociedade Portuguesa de Autores e receber anualmente dinheiro por temas que escrevi com 15, 16 anos. "A boa noite Solidão" também é gravada todos os anos

S.K. - Achas que, actualmente, com a Internet, a indústria musical sai prejudicada, em termos de venda de discos?

J.F. - Acho que o mundo não anda para trás. Tudo está em constante evolução. Considero-me um analfabeto em termos da Internet. De facto a net é prejudicial à venda de discos, mas é uma forma de fazer chegar a música a muitas pessoas que de outra forma não seria possível

S.K. - Mas hoje em dia quem compra um CD quase é visto como um coleccionador...quase se goza com a pessoa, não é?

J.F. - Mas um CD é uma história. Quem não compra não lê, não sabe a história do disco....

Mas há quem diga que os CD's são muito caros...

S.K - Não...o preço do CD até baixou em relação am tempo dos escudos, as pessoas é que não compram...

J.F. - O que encarece o CD são os impostos, paga-se 20 por cento por CD. Mas pelo filme da Cicciolina - considerado artigo cultural - paga-se 5 por cento...É uma má gestão das editoras. Mas os artistas também têm culpa, porque não protestam. Enquanto os nossos discos tocam na rádio, está-se bem. Mas quando deixa de tocar, vamos ter com os outros artistas e reclamamos. Isto é uma crítica directa a todos nós, artistas portugueses

S.K. - Sinto inveja dos artistas que viveram nos anos 1980/1990, porque era tempo das vacas gordas e vendiam-se discos. O meu último disco vendeu 11 mil ou 12 mil cópias. E agora é sempre a descer. Nem é o dinheiro em si que importa. O jogo da indústria musical mudou. A Internet é um pau de dois bicos: por um lado, podes divulgar a tua música, mas por outro lado não compensa. Se pudesse desligar a Internet, fá-lo-ia. Abdicaria do lado bom. É um bocado conservador, mas preferia...Os orçamentos para os videoclip são curtos. Antes os artistas quase tinham direito a uma orquestra. Hoje, na televisão, fazem-se playbacks ...Eu não faço, sou contra.

J.F.- O papel do artista alterou-se mesmo na televisão. O artista vai para lá quando o apresentador quer descansar. Não me parece, por muito bons apresentadores que haja, que o talento de apresentar um programa esteja ao nível de um criador. Toda a gente conhece os apresentadores de televisão, mas ninguém conhece os criativos.

S.K - Antigamente, quando o Prince ou o Michael Jackson davam uma entrevista era um acontecimento. Hoje, se um artista quer aparecer é justamente o contrário, tem que banalizar, tem que aparecer, tem que estar no Facebook...

J.F. - Mas em 2050 as coisas vão mudar ...(risos). Parece que se está realmente a mudar. E quando se está a arrumar de novo uma casa, tem que se desarrumar tudo primeiro. Acho que as coisas vão mudar para quem ainda cá estiver nessa altura...

S.K - Mas é triste, porque as editoras estão apenas a resistir...

J.F. - Perderam o poder, não é...Eu, na frescura dos meus 20 anos, quando falava com a Amália e dizia: "isto vai mudar" , ela respondia: "Não, daqui para frente só vai piorar". Sábias palavras.

S.K. - Eu tenho uma frase que resume isso: "Se o futuro é um robot, o robot roubou-me o meu futuro"...Desapareceram as lojas de discos, os videoclubes. Eu adorava isso...Chegaste a gravar em inglês?

J.F. - Cantei nos bailes. Mas cheguei a cantar mais em francês. Tenho a certeza que a língua portuguesa tem um peso tremendo em termos de sonoridade. As palavras têm mais calor em português...

E o que dizem vocês dos artistas portugueses que cantam em inglês?

J.F. - Para cantares em português tens que ter musicalidade. Qualquer pessoa canta bem em inglês.(risos)

S.K. - E quanto ao processo criativo? Escreves a letra e depois fazes a música?

J.F. - Depende. Às vezes, vem uma letra à cabeça. Gravo logo no telemóvel. Às vezes estou com dor de parto, como se diz, e começo a compor a música.

S.K. - Há alguma música que gostasses de ter feito?

J.F. - Há muitas músicas que eu gostava de ter feito...sou fã do Rui Veloso, do Jorge Palma, do Zé Mário Branco, há tantos...

Diga lá uma das mais recentes...

J.F.: Sei lá. O "Encosta-te a mim", do Jorge (Palma), o "Porto Sentido", do Veloso...

S.K. - Esta pergunta não é minha, mas gosto dela: Como é que tu explicavas este último disco a um surdo?

J.F. - (silêncio) ...Incrível...Teria de o fazer morder o CD. (risos). Mas sabes que os surdos têm uma forma própria de sentir as coisas...

S.K. - Mas como é que tu escrevias, por exemplo?

J.F. - Escrevia-lhe: "pois é, a vida está uma merda"

S.K. - Achas que resume o disco?

J.F. - A parte mais interventiva, acho que sim. Também há uma parte mais romântica...acho que a vida piorou muito. Estamos no tempo do genoma, caramba. Não faz sentido haver pessoas a arrumar carros, por exemplo.

S.K. - Dá-me a entender que consegues escrever mais facilmente na dor do que na alegria...

J.F.: Sim porque a dor é mais marcante. Como escrevi na "Chuva", que compus para a Mariza: "as coisas vulgares não deixam saudades, só as lembranças que doem ou deixam sorrir". Um sorriso não te causa uma psicose...

Vocês já têm prevista uma próxima colaboração?

J.F. - Vai ser uma noite destas metermo-nos nos copos. Além disso, estou aberto a qualquer projecto. O Sam sabe disso. Não gostamos de repetir receitas, mas...eu gostava de musicar uma música do Sam no fado. Gostaria de ter uma música do Sam neste disco da Ana Moura, mas não foi possível...

S.K. - A partir de agora é mais fácil as coisas acontecerem


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Impagável!
Jorge Fernando é um dos melhores cantores portugueses de hoje. Não percebo porque não sobr emais no ranking da comunicação social. Este deve ser um dos primeiros passos com justiça para a qualidade da sua carreira brilhante.
Jorge Fernando para mim és o maior !
Conheço o Jorge há muitos anos, chegamos a fazer um duo até que ele resolveu dedicar-se ao fado. Anos mais tarde procurou-me pq precisava de uma banda a que eu pertencia (Holiday) lhe desse o suporte musical para a sua carreira a solo. Foram tempos de aventuras de ingenuidade, mas que cimentou a nossa amizade. Quando a nossa colaboração musical terminou, ficaram as recordações. Já lá vão quase uma vintena de anos, o Jorge dedicou-se mais ao fado, compondo e interpretando, aventurou-se com novas sonoridades e revolucionou a maneira como o fado é tocado e cantado. quanto a mim, também segui o meu rumo como músico, mas nunca perdi o rasto ao trabalho do Jorge e regogizo-me por ver que ele venceu quer do ponto de visto social, quer profissional. É um músico inspiradíssimo, os seus poemas e a sua linha melódica são inconfundíveis. Já toquei fados do jorge com arranjos pop lollll... Ainda não ouvi este trabalho com o Sam, mas acredito que está à maneira porque o Jorge tem um talento inato. Vivemos é num País de tristes, corruptos e pedantes, as nossas rádios começando na M80, Cidade e acabando na RFM são uma cambada de otários que tem a mania que são engraçadinhos, são imitadores de 4ª categoria dos programas made in USA e BR . Snobs, desprezam a música Portuguesa. Para eles música Portuguesa são os xutos, GNR entre outros grupos que eu admiro calro, Mas que não fazem justiça aos muitos Jorges deste País. Mas por tudo o que ele tem feito e mostrado, é que eu o considero o MAIOR.
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Edição Diária 17.Abr.2014

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