20 de dezembro de 2014
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Arqueologia industrial

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O passado é, de facto, um país estrangeiro, isto é, território fadado para turismo. Desde miúdo que ando fascinado pela arqueologia industrial. O meu ramo científico, termodinâmica, é um produto da Revolução Industrial, cujo ícone, a máquina a vapor, opera a transformação de uma forma de energia noutra. Entre os meus locais de estimação por esse mundo fora estão a Ponte de Ferro (1779) no berço da Revolução Industrial em Coalbrookdale (Inglaterra), o Ruhrgebiet (Alemanha), os moinhos de pólvora de Eleuthère Irénée Du Pont em Wilmington, Delaware (EUA). 

 

 

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Lewis Baltz (1945 - 2014)

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A estética era minimalista mas a mensagem era fortíssima: a denúncia da violação moderna da Natureza pelo homem. Refiro-me à Nova Topografia - a escola de fotografia que emergiu nos anos 70 como reação ao desenvolvimento suburbano da década anterior. A paisagem admirada por todos passava a ser apenas o imobiliário de alguns.  

 

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Silêncio

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A Natureza odeia o vácuo; a res publica também?. Sabe-se que o vazio político abre, quase sempre, o caminho aos ditadores. Já no século XVII - o da Guerra Civil inglesa - o poeta metafísico e deputado Andrew Marvell afirmara, num poema: "Nenhuma criatura gosta de espaço vazio;/ Os seus corpos crescem à medida do lugar."   

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Papoulas

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Gosto de palavras que bisam a consoante, como borboleta, papoula. Uma espécie de aliteração interna, o poema (com rima) dentro da palavra. São em geral termos com belos equivalentes em línguas estrangeiras: farfalla (borboleta, em italiano); poppy, coquelicot (papoula, em inglês e francês). Em miúdo, enchia a boca a recitar o "De tarde", de Cesário Verde, com esse "supremo encanto da merenda" que era o "ramalhete rubro das papoulas".    

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Casa de grilhetas

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Uma das coisas que distingue as boas universidades americanas são as coleções de arte, galerias e museus. A Grey Art Gallery, em Washington Square, é um entreposto da New York University (NYU) com um excelente programa de exposições. A mais recente é dedicada a Ernest Cole (1940-90), um fotógrafo sul-africano preto que, aos 27 anos, publicara em Nova Iorque "House of Bondage" - um registo em imagens e palavras de sete anos (1958-66) de "vida amarga na sua pátria". Foi, para o "New York Times", um dos livros do ano, e é um dos grandes livros de sempre da fotografia africana.    

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Magda Olivero (1910-2014)

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Os gatos têm sete foles mas os cantores têm, quando muito, duas vidas: tenores viram barítonos e vice-versa e sopranos passam a mezzo quando perdem os agudos. Magda Olivero, que se finou a 8 de setembro com 104 anos de idade, teve inúmeras carreiras. Estreou-se na rádio de Turim, em 1932, e, no palco, na Lauretta de "Gianni Schicchi". A conquista do Scala não tardou, bem como a colaboração com compositores como Mascagni, Giordano, Alfano e Cilea, que fez dela a "última diva verista" (embora com incursões ocasionais na ópera barroca e contemporânea). Dos 44 compositores que interpretou, 31 estavam vivos à data das suas atuações.  
 

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Vivian Maier: "The sequel"

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Alguns leitores estarão lembrados - por mim (Atual, 24 março 2012) ou por outros - do caso de Vivian Maier (1926-2009), a ama de profissão e fotógrafa (de rua) de vocação, que só foi descoberta postumamente. Passara a vida, em Nova Iorque e Chicago, a fazer fotografias, mais de uma centena de milhar, que nunca mostrou a ninguém. Nos últimos anos de vida pusera os escassos bens que possuía, incluindo milhares de rolos fotográficos, em cacifos de aluguer, deixara de pagar a renda e tudo fora leiloado por tuta e meia. 

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A cor de TR-J

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O livro saiu em 2013, mas só agora me chegou às mãos. Tony Ray-Jones (1941-1972) é um caso especial: um segredo bem guardado pelos que verdadeiramente prezam a fotografia. Morreu novo, como aqueles que os deuses amam, mas deixou obra marcante e um livro póstumo, "A Day Off" (1974), que é, simplesmente, um dos grandes livros do século.    

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"As Criadas"

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Já vivi e vi o suficiente para perceber que Cate Blanchett é a maior atriz do nosso tempo. Também sei, graças a Victor Garcia e Luís Miguel Cintra (entre outros), que as peças de Jean Genet revolvem as vísceras do teatro. Genet era literalmente um ladrão, mas inventar é roubar uma coisa que não existe. Quando, no palco, o ator na pele de um personagem representa outro, temos teatro ao quadrado. Foi o que aconteceu este verão no Lincoln Center Festival (NYC).   

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Salgado

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O fotógrafo é um caçador de imagens. As suas virtudes são a paciência e a perspicácia. Na autobiografia "Da minha terra à Terra", Sebastião Salgado (n. 1944) conta como só conseguiu fotografar uma tartaruga gigante em Galápagos, imitando-a: arrastando-se lentamente de joelhos e mãos no chão. De pé, a tartaruga fugia-lhe; copiando-lhe a postura, o réptil testudíneo aproximava-se, curioso. Recomendo vivamente o livro (publicado originalmente em francês). Pode não se ficar a saber o que faz dele um grande fotógrafo, mas dá para perceber que é um grande homem.     

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Edição Diária 17.Abr.2014

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