Recebo com frequência muitos mails dos clientes do BPP. Uns mais informativos, outros cheios de maiúsculas e pontos de exclamação. Umas vezes leio, outras nem por isso. Em algumas coisas terão razão. A supervisão falhou clamorosamente. O responsável foi "punido" com um bilhete de ida para o Banco Central Europeu. É bom saber que na Europa, como em Portugal, se dá valor ao mérito.
Mas confesso que não consigo deixar de sentir um certo desconforto perante quem exige do Estado cuidados que não teve. Com quem recebeu um retorno muito acima da média, supostamente sem risco (o Pai Natal ainda existe), e não achou estranho nem pensou que seria melhor começar a fazer perguntas. É simples: umas vezes somos enganados, outras não nos importamos de o ser, na esperança de que tudo corra bem.
Claro que sinto simpatia pelos pequenos depositantes - os grandes têm obrigação de saber o que andam a fazer - que perderam as poupanças de uma vida. Mas não me parece que justo que seja o dinheiro dos contribuintes a resolver o problema. E não posso deixar de notar que os clientes burlados pelo BPP já fizeram manifestações em frente ao ministro das Finanças mas João Rendeiro continua a sua vida, satisfeito, sem que ninguém o incomode muito. Até ele exige dinheiro ao Estado.
A ver se nos entendemos: o Estado falhou na supervisão, mas o principal responsável continua a ser o ladrão, não o polícia incompetente. Quem lhes tem de pagar são os administradores do BPP, não é o contribuinte. Se a sua exigência for a de que o Estado (através da justiça) obrigue quem os enganou a pagar por isso contam com a solidariedade de todos. Se querem que os contribuintes que têm as suas contas em bancos menos generosos no retorno paguem a despesa da imprudência, parece-me que estamos todos indisponíveis.
Esta semana recebi mais um mail. Chamou-me à atenção porque vinha em inglês. Dizia isto: "Os clientes do BPP aconselham: Não ponha o seu dinheiro em Portugal nem invista neste País! Porque: o sistema bancário português não dá garantias aos seus clientes; o regulador e supervisor não age preventivamente e correctivamente; o governo não cumpre as suas promessas, ignorando a situação e dizendo que não há risco sistémico, apesar de os capitais nacionais estarem a ir para o estrangeiro; a justiça não funciona. Não pensem que estas razões não são suficientemente fortes. Tenham cuidado, enquanto é tempo!"
Repare-se que neste apelo para não se investir em Portugal - se foram ao fundo, que o País vá com eles - não há, mais uma vez, uma palavra sobre a administração do BPP. O objectivo é claro: o Estado que pague os erros de quem enganou os clientes e a ingenuidade dos clientes, que gostaram do simpático retorno. E se não paga, fazem chantagem - felizmente não terá qualquer efeito - com o País inteiro.
Queremos todos as maravilhas do capitalismo, não queremos? Mas só para quando corre tudo bem. Quando dá dinheiro, é nosso. Quando se perde, é de todos. Jogadores no lucro, cidadãos no prejuízo. Patriotas sim, mas só quando vale a pena. Mas nisto os clientes do BPP são só aprendizes. Olhamos para muitos dos nossos principais empresários e banqueiros e percebemos com quem aprenderam.