Quem leia jornais, ouça telefonia ou veja televisão inferirá que de vez em quando o Estado de Israel e o seu principal adversário palestiniano (hoje o Hamas, há anos Arafat) - aumentam deliberadamente a pressão dentro da panela a que se costuma chamar 'o problema israelo-árabe' e matam-se uns aos outros muito mais do que quando a pressão está baixa. Até que, geralmente com ajuda dos Estados Unidos, esse espasmo turbulento acalma e volta-se ao "statu quo" ante, à espera de mediação que finalmente ponha uns e outros no caminho de paz duradoura cujos marcos são conhecidos - retirada de Israel dos territórios ocupados em 1967, retorno ou indemnização de descendentes de refugiados árabes, abandono da violência pelos palestinianos. Até hoje ninguém conseguiu meter as partes nesse trilho. (O 'problema israelo-árabe' começou há sessenta anos e não está muito mais perto de solução do que estava em 1948.)
Dos jornais, da telefonia e da televisão muita gente terá inferido também nos últimos dias que Israel é uma potência bárbara por já ter morto mais de 350 palestinianos (escrevo na terça-feira) em bombardeamentos a Gaza. Em várias capitais europeias tem havido raivosas manifestações anti-israelitas de protesto e muitas mais na chamada 'rua árabe', atiçadas essas por organizações congéneres do Hamas e por governantes a quem dá jeito poderem fixar no papão israelita o enorme descontentamento popular que políticas internas ignaras e brutais provocam há muitos anos.
Os governos europeus (e americano), muitos governos árabes, o próprio Fatah - que exortou durante semanas o Hamas a não provocar Israel - sabem que esta demonização absurda de Israel complica o problema em vez de ajudar a resolvê-lo e não perderam o bom senso, com destaque para o alemão que culpou sem ambiguidade as provocações do Hamas pelo que se está a passar. Não há uma visão única europeia da matéria mas embora muitos verberem Israel pela resposta 'desproporcionada' nenhum tomou o partido do Hamas e tampouco o tomaram as Nações Unidas. Nem sequer a Liga Árabe o fará (condenar Israel, com certeza, mas sem sair a favor de uma das facções palestinianas). Porém, entre fantasmas anti-semitas históricos e propaganda anti-semita contemporânea, as opiniões públicas de muitos países europeus parecem considerar os israelitas algozes premeditados e os palestinianos suas vítimas inocentes. É como se vissem a questão num espelho de feira que torcesse completamente a imagem.
O Hamas não reconhece a existência de Israel, faz a apologia da sua destruição, expulsou de Gaza os moderados que governam a Margem Ocidental e dispara constantemente sobre Israel mísseis que vão matando judeus. Que Estado de Direito permitiria vizinhança assim sem tentar desarmá-la?
É claro que há tudo o resto: milhares de razões de queixa mútuas - talvez, depois da posse de Obama, os Estados Unidos possam fazer sentar à mesa as partes ressabiadas. Oxalá, entretanto, não se estrague tudo muito mais.
José Cutileiro