18 de abril de 2014 às 22:01
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Festival de Cinema de Berlim

Isabelle Huppert perdida na selva

Em "Captive", missionários católicos e turistas ocidentais são feitos reféns do grupo de separatistas islâmicos de Abu Sayyaf. Novo filme de Brillante Mendoza é baseado em factos verídicos. E é uma tremenda desilusão.

Francisco Ferreira, enviado a Berlim (www.expresso.pt)
Isabelle Huppert perdida na selva

Therese Bourgoine, missionária católica, é apanhada com a sua colega Soledad a meio de um ataque de terroristas islâmicos a um resort na ilha de Palawan, nas Filipinas.

Os separatistas procuram alvos chorudos (empregados do Banco Mundial que, entretanto, já abandonaram o local) mas, durante o ataque nocturno, são incapazes de distinguir quem é quem. Levam com eles duas dúzias de pessoas para resgate. Primeiro de barco, depois a pé, selva fora. Começa a odisseia de "Captive", baseada em factos verídicos.

O calvário das vítimas será longo, os dias tornar-se-ão semanas e as semanas meses. Estamos em 2001 e, a meio do filme, os terroristas rejubilam quando ouvem na rádio os ataques do 11 de setembro.

A realização é um combate corpo a corpo, com a câmara ao ombro e em movimento constante, contagiada pelo calor do momento, num gesto estético especialmente caro ao filipino Brillante Mendoza, o autor de "Kinatay" e do excelente "Lola" (estreados em Portugal no ano passado).

Isabelle Huppert


Therese Bourgoine é Isabelle Huppert. Quando a atriz conheceu Brillante Mendoza, durante o Festival de Cannes 2010 (estava no júri e Mendoza concorria com "Kinatay"), sensibilizou-se com o trabalho do filipino.

Pouco tempo depois, o realizador oferecia-lhe um papel. Isabelle Huppert não é atriz para recusar desafios destes. Chegou a Manila para trabalhar e, três dias depois, já estava a filmar, agachada num 'barco de terroristas', sem saber se o seu vizinho do lado era ator profissional ou um daqueles amadores que Brillante recruta por instinto e dirige como se a realidade estivesse a ser captada no momento.

Tudo indicava que este seria o filme de Brillante Mendoza mais febril, mais insano, até porque havia um choque com a natureza que não era elemento cinematográfico de descartar. Sabíamos que Cannes e Veneza tinham recusado o filme mas as negas, por si só, não tinham abalado as expectativas. Afinal, o que falhou?

Violência


Pegue-se em "Kinatay", o mais severo dos filmes de Brillante Mendoza, em que um polícia novato, na noite mais negra da sua vida, acaba involuntariamente por tornar-se cúmplice do martírio de uma prostituta com dívidas.

Filme violento, sim, e que sabia manter pelos olhos do protagonista uma consciência da violência em causa. Em "Captive", essa consciência não existe. Terá Brillante Mendoza procurado isso mesmo - a natureza inexplicável da violência numa situação-limite?

Poderia tê-lo feito sem transformar uma das maiores actrizes da sua geração num 'corpo aos tombos', levado por um grupo de bons selvagens que parecem estar sempre a fazer número para a câmara de cinema. Poderia tê-lo feito - e isto custa mais - se conseguisse, na primeira vez que entra no terreno do thriller de guerra, dar a sensação de tempo, de todo aquele tempo que passa.
Brillante Mendoza vai recorrendo a intertítulos até ao 377.º dia em que o rapto finalmente acaba. Mas no rosto dos atores não se vê cativeiro algum.

Não vamos mais longe, para já: digamos apenas que "Captive" é um filme que se deixou ultrapassar pela experiência da sua própria rodagem.

"CAPTIVE"
de Brillante Mendoza
com Isabelle Huppert, Maria Isabel Lopez, Rustica Carpio
Competição
Mais informações em www.berlinale.de


Veja o trailer do filme "Captive"

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