19 de junho de 2013 às 21:03
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Isabelle Caro (1982 - 2010)

A atriz e manequim francesa chamara a atenção para o facto de a anorexia ser uma doença mortal e para os laços entre esta enfermidade e a indústria de moda feminina.
José Cutileiro (www.expresso.pt)

Isabelle Caro, actriz e manequim anoréxico, que morreu num hospital em França para onde viera trazida muito doente de Tóquio, onde estivera a trabalhar uma temporada, de complicações de infecção pulmonar, no dia 17 de Novembro do ano passado, mas cuja morte só foi anunciada ao mundo a 29 de Dezembro pela sua professora de representação, muito depois de enterro discreto em Paris só com família e alguns amigos íntimos, tendo-se, nestes últimos dias, a sua página de Facebook enchido de pêsames e homenagens (mas também de algumas críticas acerbas à maneira como decidira chamar a atenção das pessoas para o facto de a anorexia poder ser uma doença mortal e para os laços entre esta e a indústria da moda feminina), fora exactamente a cara pública (e o corpo também) da anorexia desde que em 2007 a agência que procurava a rapariga ideal para ser fotografada por Oliviero Toscani (mitificado no mundo da publicidade desde as suas campanhas nos anos oitenta e noventa do século passado para a casa italiana Benetton, cuja audácia tinha agradado a muitos e ofendido muitos outros por incluírem - para ajudar a vender trapos - imagens realistas e pungentes de um moribundo de sida e de condenados no corredor da morte de uma prisão norte-americana) a fim de ilustrar a doença, a fora desencantar, ao fim de semanas de busca, numa enfermaria de hospital em Paris.

A rapariga não fora lá ter por acaso, nem era esse o seu primeiro internamento. Filha de pai muitas vezes ausente e de mãe intensamente neurótica - obcecada pela saúde da filha ao ponto de não a deixar ir à escola não fosse apanhar doenças ou não fosse o ar livre fazê-la crescer de mais e também atormentada com a ideia de que a pequena quando viesse a ser grande lhe iria escapar - Isabelle cedo se culpabilizou por se achar pesada (descobriu um dia ter mais 5 quilos do que uma garrafa de gás que a mãe não conseguira carregar) e começou a fazer esforços sobre-humanos para emagrecer. A certa altura passara a comer só quatro corn flakes e dois quadrados de chocolate por dia. Aos 13 anos era anoréxica diagnosticada. (Uma descrição técnica sumária da doença poderia rezar: 'Anorexia nervosa caracteriza-se por emagrecimento extremo, busca constante de magreza, recusa em manter peso normal, terror de engordar, falta de menstruação em raparigas e mulheres e hábitos alimentares muito perturbados'). Com altos e baixos na magreza, ao fim do liceu tentara carreira de modelo: contava que uma estilista lhe dissera que precisaria de perder ainda 10 quilos; e que nas múltiplas conversas travadas com gente variada do ramo nunca alguém alguma vez lhe sugerira que ganhasse um pouco de peso. Quando, depois de internamentos e de uma queda em coma, foi tirada do hospital e fotografada para o cartaz da marca de roupas italiana 'No-L-ita' que a tornaria célebre, tinha psoríase, o peito caído, um corpo de velha escanzelada - e estava segura de que a imagem iria assustar candidatas a modelo e não aliciá-las. A altura era propícia: em 2006, o mundo da moda fora abalado pela morte por anorexia de uma brasileira que era manequim conhecido. Mas foi efeito de pouca dura. Hoje só a Espanha proíbe manequins com índice de massa corporal abaixo de certo número (p. ex., têm de ter mais de 56 quilos para 1,75 metros de altura). Todos os outros países fazem recomendações mas não obrigam ninguém, entre outras razões porque as grandes marcas se recusam a cooperar.

Às vezes mal apreciada (o fotógrafo que lhe trouxe fama considerava-a egocêntrica e exibicionista) desde 2007 fizera esforço titânico para alertar outras raparigas do perigo mortal da anorexia, em entrevistas de jornal e de televisão, no seu blogue, num livro - "A Menina que Não Queria Engordar" - publicado em França em 2008. Passara a apetecer vorazmente a normalidade; tinha há pouco tempo um namorado com quem arriscava vida de casal; conseguia pesar 42 quilos. Morreu convencida de que se curaria da anorexia.

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de janeiro de 2011

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