Imagine que chega a um país interessado em investir e lhe dizem que o Presidente e o primeiro-ministro estão politicamente em guerra aberta. Que o Governo recém-eleito pode cair dentro de seis meses a dois anos.
Que o Presidente da República pode não ser reeleito dentro de ano e meio. Que a economia está numa profunda recessão (3,7%), que o défice orçamental rondará os 7%, que o desemprego atinge 600 mil pessoas numa população activa de 5,2 milhões, que o endividamento líquido externo decuplicou numa década e representa mais de 100% do PIB. Que faz você? Nem sai do aeroporto. Regressa ao seu país no primeiro voo que houver.
Infelizmente, este país não é uma ficção. Mais infelizmente é o nosso. E, no plano económico, a imprevisibilidade é absoluta. O que vai acontecer com os grandes investimentos públicos? Avança o TGV e é adiado o novo aeroporto? E a terceira travessia do Tejo? Todos os outros compromissos se mantém (novas concessões rodoviárias, extensão da rede dos metros de Lisboa e Porto, dez novos hospitais públicos, novos campus da Justiça e novas prisões? Ou o apoio (e/ou abstenção) do PSD e CDS à proposta do Orçamento do Estado 2010 implicará, como contrapartida, que o PS deixe cair algumas destas obras?
E que Orçamento vamos ter? Um que continue a apoiar empresas e famílias face à crise e ao desemprego? Ou, à semelhança de Espanha, vai haver desde já subida de impostos e diminuição de benefícios fiscais?
A crise já tinha levado os agentes económicos a serem muito prudentes. A instabilidade política vai agravar esta prudência - e os investimentos serão adiados de novo. O resultado, inevitável mas muito pouco desejável, é que a nossa retoma ocorrerá depois e de forma mais lenta que a dos outros países europeus. Ninguém investe em manicómios.
Nicolau Santos
Texto publicado na edição do Expresso de 3 de Outubro de 2009