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Violador indiano condenado à morte diz que as vítimas não devem reagir

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Mukesh Singh, um dos violadores condenados à morte pela violação de uma indiana no interior de um autocarro, a caminho de uma das sessões do julgamento, em Nova Deli

STRDEL/AFP/Getty Images

No documentário onde é entrevistado, e que deu origem a um escândalo nacional na Índia, aparecem outros violadores que também não demonstram qualquer remorso. Incluindo um cuja vítima foi uma menina de cinco anos.

Luís M. Faria

Jornalista

Continua a polémica sobre o documentário da BBC onde são entrevistados violadores indianos que defendem os seus crimes. Um deles é Mukesh Singh, condutor do autocarro em Nova Deli onde uma estudante de fisioterapia de 23 anos foi sujeita a uma violação coletiva em 2012. A selvajaria incluiu agressões com barras de ferro, levando à morte da jovem 13 dias depois, no hospital de Singapura onde os médicos tentavam salvá-la. O caso foi um escândalo nacional, e os quatro dos seis violadores receberam sentenças de morte no tribunal. Mas Singh afirma que a culpa foi da vítima. "Trabalho doméstico e manter a casa é que é para raparigas, e não andar em discotecas e bares a fazer coisas erradas, a usar roupas erradas. Uma rapariga decente não se passeia por aí às nove da noite", diz ele à realizadora Leslee Udwin, no documentário "India's Daughter" (A Filha da Índia), que a BBC passou esta quarta-feira e vai repetir no próximo domingo, 8 de março, Dia Internacional da Mulher.
Combinação de imagens dos quatro condenados à morte por um tribunal de Nova Deli, depois de terem violado e morto uma indiana no interior de um autocarro: Akshay Thakur, Vinay Sharma, Mukesh Singh e Pawan Gupta

Combinação de imagens dos quatro condenados à morte por um tribunal de Nova Deli, depois de terem violado e morto uma indiana no interior de um autocarro: Akshay Thakur, Vinay Sharma, Mukesh Singh e Pawan Gupta

STRDEL/AFP/Getty Images

"Uma rapariga é muito mais responsável pela violação do que um rapaz", continua Singh. "Quando a violarem, não deve resistir. Deve ficar calada e permitir a violação. Se aquela rapariga não tivesse protestado, eles depois iam pô-la e só tinham agredido o rapaz". Udwin diz que durante as 16 horas que conversou com Singh, ao longo de três dias, procurou detetar sinais de remorso. Mas não havia nenhuns. Quando pressionado, o agressor respondia-lhe com indiferença: toda a gente faz isto, qual é o problema? Quanto ao seu castigo, o violador acha que será contraproducente: "A pena de morte vai tornar as coisas ainda mais perigosas para as raparigas. Agora, quando as violarem, não vão deixar a rapariga como nós deixámos. Vão matá-la. Antes, violavam e diziam, 'Deixem-na, ela não contará a ninguém'. Agora, quando violarem, em especial os tipos criminosos, vão simplesmente matá-la. Morte". No filme, são entrevistados outros quatro violadores. Um admite que violou uma rapariga de cinco anos. Explica como era pequena, conta que lhe pôs a mão na boca para abafar os gritos, dá outros pormenores. Mas também ele não mostra remorso. "Era uma pedinte. A sua vida não tinha nenhum valor". Uma afirmação tão monstruosa como a que um dos advogados dos violadores faz no documentário, refletindo atitudes ainda comuns numa cultura profundamente conservadora: "Se a minha filha ou a minha irmã se envolvessem em atividades pré-maritais e se desgraçassem e perdessem a face e o carácter por fazerem essas coisas, pegava nela e levava-a para a minha quinta e, em frente à minha família inteira, deitava-lhe gasolina em cima e pegava-lhe fogo".
"Toda a gente faz isto, qual é o problema?", questiona um violador de mulheres no documentário da BBC que reflete a realidade na Índia, apesar das recorrentes ações desencadeadas no país contra o fim das agressões sexuais

"Toda a gente faz isto, qual é o problema?", questiona um violador de mulheres no documentário da BBC que reflete a realidade na Índia, apesar das recorrentes ações desencadeadas no país contra o fim das agressões sexuais

SAJJAD HUSSAIN/AFP/Getty Images

O filme provocou um escândalo nacional na Índia, com indignação no Parlamento - dirigida contra a realizadora e a BBC. O ministro da Administração Interna, Rajnath Singh, explicou que tinha ficado magoado com o documentário e que ia investigar por que vias tinha sido possível a Leslee Udwin efetuar entrevistas na cadeia (as autorizações foram dadas pelo serviço de prisões e pelo ministério). "Em nenhuma circunstância o programa deve ser exibido. Já obtivemos uma providência cautelar no tribunal". O filme não será exibido na televisão indiana. Mas os ativistas contra a violência sexual contestam essa posição. Embora admitindo que pode haver dúvidas legais sobre as autorizações, acham que o documentário deve passar na televisão exatamente porque as ideias de Mukesh Singh, afinal, são as mesmas de muitos homens indianos. Porque não deixar que o público veja isso? Pela sua parte, a realizadora, que diz ter tido que abandonar a Índia rapidamente por questões de segurança, ficou pessoalmente afetada pelas entrevistas. "O meu encontro com Singh e quatro outros violadores fez-me sentir como se a minha alma tivesse sido mergulhada em alcatrão, e não havia agentes de limpeza que pudessem remover essa mancha indelével".