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Vinte e cinco anos depois, os Simpsons continuam disfuncionais. E ninguém os quer diferentes

"D' oh!", diz a consumada eloquência de Homer Simpson, o personagem que, talvez mais que qualquer outro, anima uma série televisiva invulgarmente sofisticada.

Luís M. Faria

Jornalista

"Normalmente não sou dos que rezam, mas se estás aí em cima, por favor salva-me, Super-Homem" - Bart Simpson.  

"The Simpsons" faz hoje 25 anos, o que é quase um milagre. Raras são as comédias que vão além da segunda temporada nos canais televisivos de sinal aberto nos EUA, e tratando-se de animação é ainda mais raro. Mas o milagre principal, aquele que ainda hoje não está completamente explicado, aconteceu logo ao início. Como foi possível uma série que abunda em cinismo (duas frases de Homer, o pai da família Simpson: "Para mentir são precisos dois - aquele que mente e o que ouve"; "Podemos roubar quando não gostamos da pessoa") e humor negro (outra frase: "O casamento é como um caixão, e cada filho é mais um prego"), bem como alusões a todo o tipo de polémicas sociais, ter sido instalada no horário nobre de uma grande "network" americana?   

Ainda por cima, uma "network" dedicada a promover os valores conservadores, com líderes de opinião que todos os dias criticam o relativismo moral que ameaça destruir o país?  

Dois fatores contribuíram. Um, a Fox aparecera recentemente e ainda não conseguira gerar o êxito que a poria ao lado das suas três grandes concorrentes (ABC, NBC, CBS). Havia espaço para arriscar, e necessidade de o fazer. O segundo fator teve a ver com o momento histórico. Em finais dos anos 80, o mundo estava a mudar num sentido que parecia positivo. A Guerra Fria chegava ao fim. Mesmo quem apreciava os ganhos de uma década de thatcherismo e reaganismo sentia que estava na altura de experimentar um ar diferente.

O materialismo dos anos 80 era objeto de muitas críticas, e a sátira estava em alta - basta pensar na ferocidade do Spitting Image, o programa que mais tarde seria imitado de forma extremamente moderada pelo nosso Contra-Informação. Não sendo uma comédia propriamente política, os Simpsons fazia sátira social, expondo a hipocrisia de instituições como a igreja e certas indústrias.  Ao mesmo tempo, ao referenciar uma cornucópia de produtos culturais (em filmes, televisão, etc) produzia efeitos de reconhecimento que levavam os espetadores a sentir-se inteligentes.

Em suma, na linguagem dos estudiosos de media, existiam muitas gratificações na série. Às intelectuais somavam-se as visuais e até as emocionais, pois o desfecho dos episódios acabava sempre por confirmar a unidade da família, por mais disfuncionais que tivessem sido os comportamentos. Os Simpsons nunca foram realmente negros. O criador da série, Matt Groening, era um jovem de classe média com aspirações a escritor que fora para Los Angeles tentar a sua sorte. Conhecera o sabor do fracasso, mas não durante muito tempo. Em meados dos anos 80, já sindicava nos jornais uma tira humorística cujo protagonista era um coelho. Quando lhe pediram um cartoon para usar em pequenas sequências animadas no programa de variedades de uma comediante, esboçou rapidamente a família que se tornaria os Simpsons. Em boa medida, inspirando-se na sua própria família (cujos nomes deu aos personagens; só o seu próprio nome foi substituído por Bart, um trocadilho com "brat", fedelho).  

A "sitcom" mais durável de sempre na tv americana

A série começou como pequenos sketches. Teve tal sucesso que dois anos mais tarde, em 1989, foi decidido transformá-la numa comédia semanal de meia hora. É o formato que dura até hoje, 27 temporadas e 561 episódios depois. Com 31 Emmys na prateleira e milhares de milhões de dólares em receita - dos quais uma parte nada desprezível vem do merchandising - é a sitcom mais durável de sempre na televisão americana, e a "Time" já a considerou a melhor série do século XX. 

Os Simpsons vivem em Springfield, uma terra americana suficientemente genérica para não ser localizada num estado concreto. Homer trabalha como inspetor numa instalação nuclear, o que dá origem a situações fárcicas de perigo. A sua esposa, Marge, que usa um penteado em torre, é doméstica e o centro moral da família. Dos três filhos, Bart ("Ay, caramba!") é o irreverente e Lisa a menina prodígio, uma ambientalista que toca saxofone. Há ainda uma bebé, Maggie. Outros personagens essenciais incluem o patrão de Homer, o sr. Burns, tão rico como mau, o dono do bar local, Moe, e o palhaço Krusty (nome de baptismo: Herschel Pinkus Yerucham Krustofski).   

As histórias são muito variadas, assumindo com frequência a forma de paródia, por exemplo a um filme clássico. Embora Groening insista no realismo físico (só permitindo levitações e outros fenómenos do género em sequência claramente oníricas), a imaginação é transbordante e em ritmo acelerado. Sendo isso uma herança do formato original em sketches, quando era preciso comprimir muito material em escassos segundos, é também aquilo que faz com que possamos sempre voltar a ver cada episódio com proveito. Há sempre novas piadas e alusões a apanhar.  

Entre as dezenas de celebridades que há apareceram nos Simpsons - geralmente como voz, mas às vezes também como desenho  - contam-se Glenn Close, Joe Mantegna, Don de Vito, Ricky Gervais e Magic Johnson. Não menos ilustre é a lista de recusas, onde constam Bob Dylan, Bruce Springsteen, Clint Eastwood, Tom Cruise, Quentin Tarantino... e todos os recentes presidentes dos EUA. Logo nos primeiros tempos, o programa foi criticado pelo então presidente George Bush (pai), e respondeu à altura. Mas para que não o acusem de parcialidade, anos mais tarde também se ocupou de Clinton, cujo cartoon tentava seduzir Marge e confessava que quando era novo violava animais.   

Ora aí está algo de que nem Homer - cujo próprio cérebro um dia protestou contra a burrice do seu dono - jamais se lembrou.