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Uma vez por ano, Obama faz de humorista. Que o diga a candidata que ganhava milhões e agora vive numa carrinha

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O jantar anual dos correspondentes na Casa Branca é uma oportunidade para o Presidente pagar aos jornalistas na mesma moeda.

Luís M. Faria

Como habitualmente, as piadas não foram todas boas ou de bom gosto. Por exemplo, quando Barack Obama disse que nos menos de dois anos que lhe restam de permanência na Casa Branca a sua atitude vai rimar com 'bucket list'. Para compreender esta piada é preciso saber que 'bucket list' (literalmente, a lista do balde) significa as coisas que uma pessoa quer fazer antes de morrer (ou seja, antes de dar um pontapé no balde).

'Bucket' rima com 'fuck it'. Obama sugeriu portanto que, após a vitória dos republicanos nas eleições para o Congresso no passado novembro, vai deixar de se esforçar para tentar resolver os problemas complicados do país, pois não vale a pena. Eles hão de bloquear tudo o que ele quiser fazer.

Enfim, uma forma ligeira de se referir a uma questão séria. Outro exemplo, a propósito do modo como os republicanos ignoraram totalmente a política externa do Presidente no convite que fizeram a Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita, para discursar no Congresso: "Eu envelheci tanto que John Boehner (o líder republicano do Senado) já convidou Netanyahu para discursar no meu funeral". Obama também aludiu a Hillary Clinton, atualmente em campanha para as primárias no Iowa, dizendo que tem uma amiga que até há pouco ganhava milhões e agora vive numa carrinha.

No jantar deste ano, Obama 'contracenou' com o comediante Keegan-Michael Key, que interpretou o papel de "Luther, o tradutor de raiva do Presidente"

No jantar deste ano, Obama 'contracenou' com o comediante Keegan-Michael Key, que interpretou o papel de "Luther, o tradutor de raiva do Presidente"

Joshua Roberts/Reuters

Donald Trump presente. Sempre O jantar anual dos correspondentes na Casa Branca é sempre uma oportunidade para o presidente, assumindo o papel de humorista de 'stand up', gozar com os adversários políticos -  e também com a imprensa. No passado sábado, Obama não fugiu à regra. Mas também homenageou os correspondentes que têm perdido a vida a cobrir conflitos pelo mundo fora. E evitou piadas impróprias como a que fez há uns anos, quando, a propósito de eventuais namorados que as suas filhas adolescentes pudessem arranjar, disse que só lhe ocorriam duas palavras: "Predator drones" - fazendo humor com o seu próprio poder, exercido todas as semanas, de ordenar a morte de pessoas concretas em zonas distantes do mundo.

Ao mesmo nível, em anos recentes, talvez só as piadas que o anterior Presidente George W. Bush fez sobre a guerra do Iraque e as afinal inexistentes armas de destruição maciça (ADM) que lhe serviram de pretexto para bombardear esse país. Num jantar de correspondentes, Bush fingiu que procurava ADM debaixo das mesas. Na altura, as estrelas presentes não pareceram muito incomodadas. Mas nos últimos anos tem-se notado que o nível e qualidade delas - as que aceitam o convite das organizações representadas - foi sempre baixando.

Agora essa constatação voltou a repetir-se. À parte a intervenção de um duo de comediantes, as maiores estrelas acabaram por ser os próprios jornalistas, apesar de o Presidente ter dito coisas como "as únicas pessoas na CNN que imitam jornalistas são os próprios jornalistas da CNN".

Uma das estrelas televisivas que compareceu no jantar de sábado foi o empresário Donald Trump, arqui-inimigo de Obama. Há anos, o Presidente dedicou-lhe algumas frases bastante sarcásticas durante o jantar. Desta vez limitou-se a uma curta referência: "Donald Trump está aqui. Ainda".

Uma das estrelas televisivas que compareceu no jantar de sábado foi o empresário Donald Trump, arqui-inimigo de Obama, fotografado com a sua mulher Melania à chegada

Uma das estrelas televisivas que compareceu no jantar de sábado foi o empresário Donald Trump, arqui-inimigo de Obama, fotografado com a sua mulher Melania à chegada

Jonathan Ernst/Reuters